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13 junho 2021

Educar(-se) para uma vida em plenitude

Tempo de leitura: 9 min
O discernimento da vocação, que é plenitude da vida, é um processo de educação que não contempla adiamentos. É sempre luta, exige amor e vontade de caminhar.
Susana Vilas Boas
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(© 123RF)

 

Muitas vezes somos ludibriados com falsas ideias sobre a educação. Primeiro, facilmente se confunde educação com erudição. Ora, educação é da ordem do civismo, do comportamento adequado na sociedade e nas relações humanas e, em última análise, diz respeito à pessoa em si, independentemente do meio em que nasceu e/ou da escolaridade que teve. A erudição assume outra dimensão. Ela diz respeito ao conhecimento, ao intelecto e, na maioria das vezes, é atestada por um sistema educativo. Pondo os pontos nos ii sobre esta distinção e sobre a clareza do que quero dizer quando aqui falar de educação, educar ou educar-se, tem de se perceber o que é que isto tem que ver com a vocação.

A educação, vista na perspectiva que agora expus, vai muito além das falsas justificações que estamos habituados a ouvir e a utilizar: «É assim porque os pais não souberam educar»; «não tem educação nenhuma, porque só teve maus professores e maus exemplos». A educação é, antes de tudo, algo que cada pessoa vai cultivando e, se é certo que na infância esta é cultivada muito à luz dos exemplos e dos ensinamentos da família e demais “educadores”; não deixa de ser óbvio que, conforme a pessoa amadurece e deixa a idade da infância, a educação se torna um “educar-se” – sem isso não há crescimento nem amadurecimento pessoal.

Nos aspectos vocacionais, o processo é o mesmo e a necessidade de educar-se é também a mesma. São colocados de lado os sonhos de criança, em que se quer ser tudo e em que tudo cabe no mesmo saco (casado, solteiro, padre, astronauta, médico, cantor, etc.), para se assumir um olhar adulto, responsável e maduro face à vida, em vista da sua plenitude, tanto em termos profissionais como em termos pessoais (já não entra tudo no mesmo saco).

Sabemos que este “educar-se” não é um caminho individual, ou algo que se faz sozinho, mas temos de ser nós a ver – a educar os nossos olhos – de maneira a descobrir quem e como podemos ser acompanhados neste processo. Isto é algo que não estamos habituados a fazer: na família, sabemos quem educa (pais, avós, tios… enfim, os mais velhos); na escola e na sociedade, sabemos quem educa (professores, políticos… enfim, as autoridades). Ora, na vida de cada um, quando o que está em causa é a plena realização pessoal, dá-se o nunca antes pensado: as referências para o “educar-se” para um discernimento e maturidade vocacional são escolhidas por nós! Nada nos é imposto, e se, por um lado, estamos sempre a falar do nosso desejo de liberdade; por outro, esta liberdade é assustadora – uma vez que contempla um sentido de responsabilidade que, muitas vezes, nos assusta.

Desperta! O snooze não é amigo da vocação!

Pela manhã, somos despertados de variadíssimas formas. Para uns, são os pais a chamarem, para outros é o despertador do telemóvel, para outros será ainda o velho relógio despertador que permanece em cima da mesinha-de-cabeceira. Independentemente de quem ou daquilo que nos desperta, existe sempre algo que nos é exterior que nos impele a abrir os olhos, a ter consciência de que já é hora de levantar. O que fazemos a seguir… isso depende de nós! Na vocação, sobretudo no que diz respeito ao discernimento vocacional, acontece o mesmo: existem sempre coisas e/ou pessoas que nos fazem “despertar”, ter consciência de que, muito provavelmente, a nossa vocação é uma em particular. Bem… o que fazemos a seguir… também só depende de nós! Levantar-se ou optar por activar o snooze?!

Adiar a vocação, adiar este educar-se – este primeiro passo que depende de nós – é entrar num beco sem saída e correr o risco de nunca chegar onde mais ansiamos! Às vezes parece que entramos num eterno snooze – aquele botão que, de manhã, nos permite ir adiando a hora de levantar. Ao pressionar este botão, temos a ilusão de que não nos estamos a atrasar (afinal, é só mais um bocadinho e isto volta a tocar daqui a 10 minutos!). Além disso, temos a sensação de poder aproveitar mais do tempo de descanso. O que acontece, muitas vezes, é que, de snooze em snooze, perdemos a hora e acabamos por faltar aos compromissos assumidos; ou então, acabamos por sair da cama a correr, por derrubar tudo à passagem e por chegar em cima da hora (ou já atrasados) ao local marcado, completamente esbaforidos, com aquela sensação de que nos esquecemos de alguma coisa e ainda a confirmar se estamos bem vestidos e penteados.

 

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(© 123RF)

 

Com a vocação o que está em causa é a vida e, por isso mesmo, andar de snooze em snooze não é opção. O risco de nunca chegar à plenitude de vida que ansiamos é enorme se optarmos por estas medidas de adiamento. Literalmente, o botão de snooze é o botão para dormir uma soneca. Ora, não podemos consentir que a realização da nossa vida não aconteça, porque decidimos tirar uma soneca na hora H, na hora em que deveríamos ter despertado e dado um passo em frente.

Não é fácil tomar a firme decisão de despertar e colocar-se em marcha. Não é por acaso que, por exemplo, nos relatos bíblicos sobre as curas que Jesus realizou (ou os discípulos por Sua intercessão) são sempre acompanhados do “despertar” e do “levantar-se”. O despertar é importante, mas o levantar-se é essencial para que não se entre em “modo soneca”, quando a vida chama e a sua autenticidade depende do agir.

Educar(-se): despertar e levantar-se

A plenitude da vida não contempla adiamentos, uma vez que, pela sua própria essência, ela é sempre luta, sempre exigência absoluta de amor e de vida. Além disso, ela é incompatível com o botão snooze, não porque não permite fazer uma sonequinha enquanto se aguarda que o futuro chegue, nem porque a vida nunca dá segundas oportunidades, mas porque a plenitude de vida brota de um amor verdadeiro e de uma autenticidade do ser humano que se sente vocacionado/chamado a uma realização plena de vida.

Se pensarmos bem, o snooze é muito importante nos dias em que temos de ir para a escola ou em que temos de ir trabalhar, mas, quando o que está em causa é, por exemplo, apanhar o avião para fazer uma viagem de sonho, o que acontece? Nem nos lembramos do snooze! Muitas vezes, antes mesmo de o despertador tocar, já estamos acordados! O nosso desejo de ver realizado o sonho converte-se em vida alegre e autêntica, uma vida que não pensa sequer em descanso!

Não é por acaso que nas férias acabamos por ter a sensação de que dormimos menos. Tal é o nosso entusiasmo e alegria de vida que acabamos por nos deitar sempre tarde e levantar sempre cedo. A urgência de estar desperto e aproveitar ao máximo cada minuto leva-nos a deixar de lado todo o comodismo secundário e educarmo-nos, junto com aqueles que vivem estas férias de sonho connosco, a mantermo-nos despertos e em ação em prol de um melhor aproveitamento de tudo quanto estamos a viver.

Ora, se assim é para as actividades que nos dão prazer, mas que sabemos que estão circunscritas a um espaço e a um tempo determinado, não será ainda mais importante que assim seja quando o que está em causa é a plenitude de vida, a autenticidade de uma felicidade que, como tudo, não está isenta de dificuldades, mas que nos realiza como pessoas que somos e que queremos, verdadeiramente, ser? 

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EDIÇÃO
Julho 2021 - nº 715
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