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28 julho 2021

O diálogo como chave do discernimento

Tempo de leitura: 9 min
O acompanhamento vocacional, que se faz sem medo através do diálogo e da oração, visa ir ao encontro do que a pessoa é e do que anseia ser, sendo nesta essência que a vontade de Deus e a vontade humana coincidem.
Susana Vilas Boas
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O calor aperta, as férias chegam finalmente, mas tudo parece conturbado. A pandemia arrastou consigo novos hábitos e novos medos. De repente, estar perto de alguém parece tornar-se sinónimo de risco e, sem darmos por isso, vamos dando prioridade à comunicação pelos meios digitais e, pouco a pouco, os nossos diálogos tornam-se um círculo vicioso de conversas mantidas “em regime aberto” através das redes sociais. Para o discernimento vocacional, isto torna-se um hábito perigoso! O diálogo que faz parte do acompanhamento próprio do processo de discernimento vocacional não se compraz com «conversas da treta». Antes, sem violar as normas de segurança para a saúde, ele exige um olhar-se nos olhos e um sair de si, do conforto dos espaços por onde estamos acostumados a andar. Sem isso, nem conseguimos dar seriedade ao processo de descoberta vocacional, nem conseguimos colocar-nos num caminho responsável em direcção a uma vida autêntica e feliz – uma vida que nos realize plenamente.

Os medos trazidos pela pandemia serviram de desculpa para nos fecharmos numa reflexão autocentrada e para nos afastarmos de conversas sérias que vão ao encontro do mais íntimo do nosso ser. O medo de sair de casa transformou-se em desculpa e justificação para sair de si mesmo, para se desinstalar e para deixar de realizar tantas coisas fundamentais para a nossa vida. Cuidado! O medo corrói aquilo que somos, destrói as nossas relações e mina todos os nossos horizontes de esperança no amanhã! Haverá, de facto, razões autênticas para temer o processo de discernimento vocacional? Será este um caminho assombroso cheio de consequências desastrosas? Permitiremos nós que o medo saia vitorioso e se torne a razão da nossa existência?

Nada a temer

Antes de tudo, importa ter presente que este é um caminho que não é trilhado sozinho, nem um caminho onde Deus está ausente! Ao contrário, no discernimento vocacional, o próprio Deus se faz caminho e, simultaneamente, companheiro de jornada. Ora, se assim é, «se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Rom 8,31). O que há a temer se não poderíamos estar mais “protegidos” e não poderíamos ser mais livres ao longo das escolhas do caminho? Talvez o que nos assusta não seja tanto a falta de acompanhamento, mas precisamente o facto de o acompanhamento existir. Com efeito, não sendo a vida a preto e branco, torna-se por vezes assustador ter uma imensidão de possibilidades e de cenários futuros à nossa frente. Por um lado, desejamos viver a plenitude da nossa liberdade; por outro lado, assusta-nos a responsabilidade que está inerente às escolhas que fazemos.

Contudo, mesmo aí, não nos podemos esquecer que não estamos sozinhos e que a pessoa – ou pessoas – que nos acompanham não estão lá “para nos tramar” nem para escolherem por nós os caminhos que devemos seguir. O acompanhamento visa ir ao encontro daquilo que a pessoa é e daquilo que a pessoa anseia ser, sendo nesta essência que a vontade de Deus e a vontade humana se tornam coincidente. Nesse sentido, os inúmeros caminhos possíveis não devem ser vistos como assustadores ou desvios do caminho, mas como auxiliadores de um bom discernimento. Se estivermos atentos, às vezes por exclusão de partes, outras vezes por seguimento dos caminhos que se abrem durante o trilhar do processo de discernimento, o caminho vai-se manifestando cada vez mais claro à nossa frente (não por ser o caminho mais fácil, nem por estar isento de dificuldades, mas por nos fazer sentir realizados e autênticos).

No nosso dia-a-dia vamos fazendo pequenas experiências similares por meio das pequenas escolhas que vamos fazendo. Claro que as pequenas coisas do quotidiano não têm a mesma relevância que a questão vocacional, mas podem ajudar a ilustrar o que está em causa. Muitas vezes, por exemplo, escolhemos o que vestir ou o que comer partindo daquilo que mais gostamos, ou daquilo que iremos fazer a seguir (não vamos vestidos de fato e gravata nem comer uma feijoada se vamos dedicar o dia às actividades desportivas!), ou até das sugestões daqueles que estão connosco a realizar o mesmo tipo de actividade. O que acontece se fazemos uma “má escolha”? Em princípio não vem mal ao mundo por causa disso. Escolhemos mal, mas isso não traz “consequências intransponíveis” para o futuro, por isso, poderemos, no dia seguinte, fazer uma nova escolha.

 

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(© 123RF)

 

Do mesmo modo que estas escolhas diárias não nos atemorizam nem nos paralisam, também o processo de discernimento vocacional não nos deve atemorizar. É um caminho que se faz passo a passo e, sobretudo no início do caminho, os passos que são dados não se tornam algo com “consequências intransponíveis”; antes, possibilitam afinar as nossas escolhas e olharmos para nós mesmos com maior autenticidade (e não de uma forma caprichosa e/ou idílica).

A falar é que a gente se entende

Nunca é demais lembrar que este não é um processo individual e, por isso mesmo, não nos vamos enganar nas escolhas que fazemos todos os dias! Quem nos acompanha, precisamente através do diálogo e da oração, vai compreendendo quem somos e, como se costuma dizer, quem vê de fora tem outra amplitude de visão. Não se trata de um escrutínio que o acompanhante faz para, depois, pela acumulação da informação recebida, “gerar a solução ideal” para a nossa vida! Ao contrário, como alerta o Papa Francisco, «a verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir» (Laudato Si’, n.º 47), esta brota da fecundidade do diálogo sincero e de um caminho iluminado pelo próprio Deus.

E se o acompanhante perceber tudo errado? Essa é sempre a grande questão/desculpa que usamos para nós próprios para fugirmos à responsabilidade e às exigências do caminho vocacional! O acompanhante pode perceber algumas coisas de modo errado, mas não tudo! E o que fazemos quando alguém não nos compreende bem? Falamos com a pessoa – dialogamos!

Se pensarmos no exemplo de Jesus com os seus discípulos percebemos bem do que se fala quando o que está em causa é o diálogo em vista do discernimento. Jesus falava às multidões, realizava grandes milagres, mas depois, só na intimidade do diálogo com os doze lhes explicava e ia mais fundo nos seus ensinamentos.

Neste modo de agir vemos a forma como se processa o acompanhamento vocacional: falamos com muita gente, e através de diferentes meios, ao longo do nosso dia, mas dialogamos – intimamente e olhos nos olhos – apenas com determinadas pessoas. Estas são as pessoas que mais amamos ou que, por qualquer razão, são importantes para nós, não porque nos são úteis, mas porque nos ajudam a sermos quem somos verdadeiramente. O acompanhante vocacional integra este último grupo de pessoas – ele nem sempre nos dirá coisas bonitas, nem coisas que gostamos de ouvir, mas procurará sempre o nosso bem maior, procurará sempre ser um meio para escutar a voz de Deus e a mensagem que, mais intimamente, dá sentido à nossa vida.

Uma vez mais, então, pergunto: para quê ter medo?

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Setembro 2021 - nº 716
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