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17 maio 2022

Ao serviço do povo afro-mexicano

Tempo de leitura: 13 min
As Irmãs Missionárias Combonianas estão a trabalhar na Costa Chica, México, desde 2009. O objectivo principal do seu trabalho é a população afro-descendente. Neste texto conhecemos os testemunhos de quatro missionárias que trabalharam nesta região do país centro-americano.
Ismael Piñón
Missionário comboniano
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(O padre Ismael, autor do texto, durante a visita a Costa Chica)

 

Dizia a senhora Chon, conhecida por todos como La Negra, uma mulher afro de El Jiote, uma povoação de Costa Chica, em Oaxaca, no México: «Eu sou negra, muito negra, como o meu avô». Ela fala com orgulho, enquanto toca firmemente a pele dos seus braços. E começa a cantar o hino nacional do México para me fazer compreender que, embora a sua pele seja negra, como a do seu avô, ela é e sente-se totalmente mexicana.

Fui à Costa Chica a convite das Irmãs Missionárias Combonianas e o que encontrei foi um povo orgulhoso de ser negro, generoso, acolhedor e imensamente grato às religiosas que, como um verdadeiro grupo de apóstolos, não se poupam a esforços para atender as doze localidades que lhes foram confiadas pelo bispo da diocese. São missionárias todo-o-terreno que, a pé, de motocicleta ou em tudo o que for necessário, viajam em estradas alcatroadas ou de terra batida e atravessam rios e campos para partilhar a sua fé com o povo.

Segundo um estudo elaborado e publicado pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia do México, em 2017, 10% da população mexicana considerava-se de origem africana. A maioria está localizada na região da Costa Chica, que inclui parte dos Estados de Guerrero e Oaxaca, na costa do oceano Pacífico.

 

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A senhora Chon tocando o tambor

 

Durante muito tempo, a população negra no México esteve abandonada e esquecida pelas autoridades estatais e nacionais. Foi em 2010 que começou o processo formal para o reconhecimento dos afro-mexicanos na Constituição. No dia 19 de Outubro de 2013, o Estado de Oaxaca tornou público o reconhecimento constitucional dos povos negros de Oaxaca.

A Igreja Mexicana, por seu lado, também deu passos nesta direcção. Nas dioceses de Oaxaca e Puerto Escondido as comunidades afro-descendentes começaram a organizar pequenos encontros de pastoral específica, criando comissões diocesanas que procuravam responder às necessidades pastorais de uma população que, até então, tinha sido esquecida.

As Irmãs Missionárias Combonianas quiseram responder a esta realidade e decidiram – há mais de uma década – ter uma presença na região. Hoje, têm uma comunidade no Cerro de la Esperanza, comummente conhecida como El Chivo, no município de Pinotepa Nacional. Dali viajam para atender as povoações circundantes.

Fiquei muito impressionado com o seu empenho, a sua entrega e dedicação às pessoas; também me chamou a atenção como as pessoas as estimam e apoiam. Todos os dias há alguém que vem a sua casa para deixar uma oferta.

Quatro combonianas que viveram em Costa Chica partilham a sua experiência com o povo negro de Oaxaca com os leitores da Além-Mar.

 

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A Ir. Mary July Pérez, missionária comboniana, com habitantes de Costa Chica

 

Os primeiros passos

A irmã Cristy Ibarra, mexicana, integrou o primeiro grupo de missionárias combonianas que se estabeleceram em Oaxaca. Actualmente, está a trabalhar na missão de Renk, no Sul do Sudão, e conta-nos como foram os inícios da missão em Costa Chica.

«Tive a alegria de viver durante sete anos na Costa Chica de Oaxaca e Guerrero, um belo pedaço de África no México ainda desconhecido para muitos. Como Irmãs Combonianas partilhamos a vida e a fé com os nossos irmãos e irmãs afro-mexicanos: pessoas simples, acolhedoras e alegres que sabem apreciar a vida e que reconhecem nela a presença de Deus. São pessoas com uma mistura de costumes indígenas, mestiços e africanos.

A nossa presença com os povos afro-mexicanos começou há muitos anos, com experiências temporárias (Semanas Santas, reuniões de animação missionária, etc.) nas áreas afro-mexicanas de Veracruz, Guerrero e Oaxaca, mas sempre tivemos o desejo de ter uma presença permanente na região. O sonho tornou-se realidade em 2009, com a abertura da nossa casa de missão na paróquia de Huazolotitlán, na diocese de Puerto Escondido (Oaxaca), onde começámos uma bela viagem de fé, inserida na pastoral paroquial, especialmente na formação de líderes, tentando desenvolver uma pastoral afro que os ajudasse a valorizar mais a sua identidade de povo negro e, a partir daí, a responder ao Senhor. Estes são povos que durante muitos anos foram social e religiosamente abandonados. Mesmo assim, na sua religiosidade popular e nos seus valores, podemos sentir a sua sede e a sua busca de Deus.

 

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A irmã Cristy Ibarra, comboniana mexicana, com um grupo de afro-descendentes de Costa Chica

 

Antes da abertura da nossa casa de missão, visitámos paróquias com presença afro na Costa Chica para conhecer a realidade e explorar o local mais adequado para estabelecer a nossa comunidade missionária. Em todos estes lugares, o povo acolheu-nos com a alegria que os caracteriza. Finalmente, de acordo com o bispo de Puerto Escondido, instalámo-nos em Huazolotitlán, uma paróquia com uma grande presença afro e pouca atenção pastoral devido, sobretudo, às distâncias envolvidas e ao facto de haver apenas um padre. Passámos três meses na aldeia de La Boquilla e depois passámos para o Cerro de la Esperanza, onde nos instalámos permanentemente. Aí percebemos que tínhamos um imenso trabalho a fazer. A paróquia tinha 28 povoados, três dos quais indígenas e os restantes afro. Foram-nos confiadas nove localidades, algumas delas remotas e difíceis de alcançar. Foi uma área de primeira evangelização. Foi precisamente isto que nos motivou a ficar e a enfrentar este grande desafio com esperança.»

 

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As irmãs combonianas Mary July Pérez, Tere Soto e Cristy Ibarra durante um evento em que participaram os afro-mexicanos de Oaxaca

 

Pastoral de proximidade

A irmã Tere Soto chegou a Costa Chica pouco tempo depois que as Irmãs Missionárias Combonianas se estabeleceram no Cerro de la Esperanza. Ela menciona os inícios do trabalho evangelizador com este povo afro-descendente do México:

«Quando chegámos a Costa Chica, percebemos que era muito abandonada do ponto de vista da evangelização. Não havia uma pastoral específica para a população afro e tivemos de começar do zero. A nossa ideia era começar a criar comunidades através de um acompanhamento de proximidade, para dar confiança às pessoas e para as formar, para que, mediante a leitura da Bíblia, recuperassem as suas raízes. Desta forma, quando não estivéssemos presentes, elas podiam continuar.

Começámos a visitar as famílias e apresentávamo-nos. Íamos de casa em casa, líamos o Evangelho da liturgia do dia e saíamos sem fazer nenhum comentário. Pouco a pouco, isso chamou a atenção das pessoas e um dia sugeriram-nos que organizássemos uma reunião para que pudéssemos falar mais calmamente. Conforme nos iam conhecendo, iam ficando cada vez mais interessados e queriam formar pequenos grupos para estudar a Bíblia. A irmã Cristy Ibarra começou a formar catequistas nos povoados e a iniciar a catequese de preparação para o baptismo e a primeira comunhão. O nosso objectivo, no entanto, não era fazer uma simples catequese sacramental, mas elaborar uma pastoral específica, partindo das suas raízes afro, para os fazer sentir orgulhosos da sua negritude e dignidade. Como tinham sido sempre marginalizados, acreditavam ser inferiores.

Queríamos fazer uma evangelização personalizada, de vizinhança. Para começar a fazer um itinerário concreto, a primeira coisa era dar confiança às pessoas, ajudá-las a reconhecerem-se como negras, não só a nível folclórico, mas de uma forma integral, para que se sentissem plenamente como filhos de Deus.

Começámos a desenvolver uma pastoral afro, que os ajudasse a recuperar as suas raízes e a viver a sua fé a partir da sua realidade concreta. A irmã Cristy elaborou alguns folhetos de formação. Começámos a formar grupos e obtivemos uma boa resposta. Estas pequenas unidades começaram a tomar consciência da sua identidade e dignidade como negros e como mexicanos por direito próprio, começando a viver a sua fé a partir da sua própria realidade.»

 

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A irmã Olga Morales, originária da Guatemala, com uma menina em Costa Chica

 

Experiências inesquecíveis

A irmã Olga Morales é originária da Guatemala. Terminou a sua experiência pastoral na Costa Chica e regressou à República Centro-Africana, onde já trabalhou no passado. Ela conta-nos as suas impressões e vivências sobre os anos que passou em Costa Chica: «O Senhor Jesus concedeu-me a graça de viver nestas terras costeiras de Oaxaca, onde apreciei a alegria do seu povo, os trajes coloridos, a beleza das suas paisagens, a música que acompanha cada evento, a comida deliciosa e condimentada e os frutos exóticos que vêm do seu solo.

Lembro com alegria as celebrações da Palavra de Deus, precedidas de reflexão em comunidade, que continuaram a revelar-me um Deus misericordioso cuja fidelidade perdura para sempre. Conheci pessoas que são alegres, empenhadas, crentes, generosas e altruístas. Depois de ter passado algum tempo com algumas das pessoas das comunidades a nós confiadas, posso dizer que o meu desejo e compromisso missionário foi renovado.

As famílias e as pessoas doentes que visitei, as mulheres responsáveis pelas diferentes capelas, os membros dos coros de algumas comunidades e aqueles que realizam um serviço específico na sua comunidade – seja a limpeza, liturgia, remoção, lavagem e colocação de panos de altar e panos litúrgicos, cuidado dos arranjos florais, etc. – permanecerão gravados na minha memória e no meu coração.

Fico com a imagem de tantos rostos, a alegria do encontro, a fé partilhada e o serviço que os membros das comunidades prestaram uns aos outros, partilhando os seus dons e talentos.»

 

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A irmã Vera Rocha, comboniana portuguesa

 

Sentir-se em família

A irmã Vera Lúcia Rebelo Rocha é uma missionária comboniana portuguesa. Sobre a sua experiência com os povos afro-descendentes de Oaxaca, diz: «Costa Chica e o seu povo fizeram-me sentir em família. Eles acolheram-me com alegria e simplicidade, abrindo-me as portas das suas casas e corações. O seu amor, a generosidade e a proximidade alimentaram o meu coração. Do que é que mais gosto em Costa Chica? As crianças curiosas e os seus risos, os pés descalços que caminham ágeis e decididos; as mãos que batem com a mesma facilidade a tortilha e o tambor; a fé partilhada na celebração da Palavra de Deus e em torno da mesa; as mulheres empenhadas em servir e em trabalhar em conjunto com as missionárias combonianas.

Aprecio os camponeses que trabalham a terra debaixo do sol abrasador, os jovens que arriscam as suas vidas por caminhos que os podem conduzir a um futuro melhor... Há de tudo neste pedaço de paraíso, e eu encontro a Deus nas alegrias e tristezas partilhadas com este povo. Obrigada, Costa Chica, por me ensinares que o que é importante é ser.»

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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 726
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