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24 julho 2022

Artífices da revolução da ternura

Tempo de leitura: 11 min
O Papa Francisco exorta os avós e idosos a serem «mestres de um modo de viver pacífico e atento aos mais frágeis» e «artífices da revolução da ternura».
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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA DOS AVÓS E IDOSOS 

Celebramos hoje, no XVII domingo do Tempo Comum, dia 24 de Julho, o II Dia Mundial dos Avós e Idosos. A mensagem do Papa Francisco tem como título «Até na velhice continuarão a dar frutos» e o pontífice – também ele com 85 anos e que escreve o texto incluindo-se nesse grupo das pessoas idosas – refere que este versículo 15 do Salmo 92 «é uma boa notícia, um verdadeiro “evangelho” que podemos, por ocasião do II Dia Mundial dos Avós e Idosos, anunciar ao mundo».  O papa ressalta que esta frase bíblica contraria o que «o mundo pensa desta idade da vida» e «o comportamento resignado de alguns idosos», que caminham «com pouca esperança e sem nada mais esperar do futuro».

Segundo Francisco, «muitas pessoas têm medo da velhice. Consideram-na uma espécie de doença, com a qual é melhor evitar qualquer tipo de contacto». Vive-se na sociedade actual o que o papa designa como a «cultura do descarte»: «aquela mentalidade que, enquanto nos faz sentir diversos dos mais frágeis e alheios à sua fragilidade, permite-nos imaginar caminhos separados entre “nós” e “eles”». Mas, lembra no texto o pontífice, «na realidade, uma vida longa – ensina a Sagrada Escritura – é uma bênção, e os idosos não são proscritos de quem se deve estar longe, mas sinais vivos da benevolência de Deus que efunde a vida em abundância. Bendita a casa que guarda um ancião! Bendita a família que honra os seus avós!»

 

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Viver uma velhice activa

Francisco sublinha que «a velhice constitui uma estação que não é fácil de entender», mesmo para aqueles que já a vivem. Segundo o pontífice, «as sociedades mais desenvolvidas gastam muito para esta idade da vida, mas não ajudam a interpretá-la: proporcionam planos de assistência, mas não projectos de existência». E o Santo Padre lembra que o fim da actividade laboral «e os filhos já autónomos fazem esmorecer os motivos pelos quais gastamos muitas das nossas energias. A consciência de que as forças declinam ou o aparecimento de uma doença podem pôr em crise as nossas certezas. O mundo – com os seus ritmos acelerados, que sentimos dificuldade em acompanhar – parece não nos deixar alternativa, levando-nos a interiorizar a ideia do descarte». Portanto, refere o papa, é necessário confiar em Deus, pois no Senhor «encontraremos a força para multiplicar o louvor (cf. Sal 71, 14-20) e descobriremos que envelhecer não é apenas a deterioração natural do corpo ou a passagem inevitável do tempo, mas também o dom de uma vida longa. Envelhecer não é uma condenação, mas uma bênção!»

E Francisco salienta que, nesse sentido, os idosos devem vigiar sobre eles mesmos «e aprender a viver uma velhice activa, inclusive do ponto de vista espiritual, cultivando a vida interior através da leitura assídua da Palavra de Deus, da oração diária, do recurso habitual aos sacramentos e da participação na liturgia». E convida também a que, a par da relação com Deus, cultivem as relações com os outros, «antes de mais nada, com a família, os filhos, os netos, a quem havemos de oferecer o nosso afecto cheio de solicitude; bem como as pessoas pobres e atribuladas, das quais nos façamos próximo com a ajuda concreta e a oração. Tudo isto ajudará a não nos sentirmos meros espectadores no teatro do mundo, não nos limitarmos a olhar da sacada, a ficar à janela. Ao contrário, apurando os nossos sentidos para reconhecerem a presença do Senhor, seremos como uma «oliveira verdejante na casa de Deus» (Sal 52, 10), poderemos ser uma bênção para quem vive junto de nós.»

«A velhice não é um tempo inútil, no qual a pessoa deva pôr-se de lado recolhendo os remos para dentro do barco, mas uma estação para continuar a dar fruto: há uma nova missão, que nos espera, convidando-nos a voltar os olhos para o futuro», destaca o papa. E citando a sua catequese sobre a velhice do dia 16 de Março de 2022, afirma: «A nossa sensibilidade especial de idosos, da idade anciã às atenções, pensamentos e afectos que nos tornam humanos deve voltar a ser uma vocação para muitos. E será uma escolha de amor dos idosos para com as novas gerações.» E o pontífice esclarece: «É o nosso contributo para a revolução da ternura, uma revolução espiritual e desarmada da qual vos convido, queridos avós e idosos, a fazer-vos protagonistas.»

 

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Mudança profunda

Francisco recorda, ainda, que «o mundo vive um período de dura provação, marcado primeiro pela tempestade inesperada e furiosa da pandemia, depois por uma guerra que fere a paz e o desenvolvimento à escala mundial. Não é por acaso que a guerra tenha voltado à Europa no momento em que está a desaparecer a geração que a viveu no século passado. E estas grandes crises correm o risco de nos tornar insensíveis ao facto de que existem outras “epidemias” e outras formas generalizadas de violência que ameaçam a família humana e a nossa casa comum».

Perante tudo isto, afirma o papa, «temos necessidade de uma mudança profunda, de uma conversão, que desmilitarize os corações, permitindo a cada um reconhecer no outro um irmão. E nós, avós e idosos, temos uma grande responsabilidade: ensinar às mulheres e aos homens do nosso tempo a contemplar os outros com o mesmo olhar compreensivo e terno que temos para com os nossos netos. Aprimoramos a nossa humanidade ao cuidar do próximo e, hoje, podemos ser mestres de um modo de viver pacífico e atento aos mais frágeis».

Segundo o papa, um dos frutos que os idosos são «chamados a produzir é o de guardar o mundo». «Hoje é o momento de colocar sobre os nossos joelhos – com a ajuda concreta ou mesmo só com a oração –, junto com os nossos netos, muitos outros assustados que ainda não conhecemos e que talvez fujam da guerra ou sofram por causa dela. Guardemos no nosso coração – como fazia São José, pai terno e solícito – os pequeninos da Ucrânia, do Afeganistão, do Sudão do Sul...».

 

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A felicidade é um pão que se come juntos

Francisco recorda que «não nos salvamos sozinhos», e que «a felicidade é um pão que se come juntos». Até mesmo o deixar-se cuidar, «muitas vezes por pessoas que provêm de outros países, é uma maneira de dizer que não só é possível, mas também necessário vivermos juntos». De acordo com o papa, os avós e idosos são «chamados a ser artífices da revolução da ternura», e convida-os «a usar cada vez mais e melhor o instrumento mais precioso e apropriado» que eles têm para a sua idade: a oração. «A nossa imploração confiante pode fazer muito: é capaz de acompanhar o grito de dor de quem sofre e pode contribuir para mudar os corações». Podemos ser, continua o papa citando a catequese sobre a família que fez no dia 11 de Março de 2015, «o “grupo coral” permanente de um grande santuário espiritual, onde a oração de súplica e o canto de louvor sustentam a comunidade que trabalha e luta no campo da vida».

Francisco convida a celebrar juntos o Dia Mundial dos Avós e Idosos, pois «é uma oportunidade para dizer mais uma vez, com alegria, que a Igreja quer fazer festa juntamente com aqueles que o Senhor – como diz a Bíblia – «saciou com longos dias» (Sal 91, 16)». E o papa pede que esta efeméride seja anunciada nas paróquias e comunidades e incita a visitar os idosos mais abandonados, em casa ou nas residências onde estão hospedados. «Procuremos que ninguém viva este dia na solidão. Ter alguém para cuidar pode mudar a orientação dos dias de quem já não espera nada de bom do futuro; e dum primeiro encontro pode nascer uma nova amizade. A visita aos idosos abandonados é uma obra de misericórdia do nosso tempo!»

E Francisco termina a mensagem com uma oração a Maria: «Peçamos a Nossa Senhora, Mãe da Ternura, que faça de todos nós dignos artífices da revolução da ternura para que, juntos, libertemos o mundo da sombra da solidão e do demónio da guerra». 

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Julho 2022 - nº 726
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