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05 maio 2023

Escutar com o ouvido do coração

Tempo de leitura: 10 min
O diálogo sincero e a escuta empática são fundamentais na construção de caminhos novos de fraternidade social e eclesial.
Bernardino Frutuoso
Director
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(©123RF)

 

Um dos desafios que é proposto aos jovens que vão participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é o de organizar três encontros com jovens que não conhecem Jesus Cristo, ou que Lhe são indiferentes, e, assim, experimentar a «suave e reconfortante alegria de evangelizar» (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, 80). Os jovens, discípulos missionários de Jesus, que participam activamente nas dinâmicas da vida da Igreja (pois eles não são, como dizem alguns retoricamente, «a Igreja do amanhã», mas a Igreja do presente), sabem que o Evangelho é a boa notícia que dá plenitude à vida humana.

É essencial, nesta linha, reflectir sobre a importância da escuta no serviço evangelizador, considerando que, para testemunhar o Evangelho com autenticidade e alegria, é imprescindível escutar a voz de Deus e a voz do outro, pois não se pode comunicar se primeiro não se escutou.

Escutar o irmão ou a irmã com quem me encontro é a condição indispensável para a realização de um autêntico diálogo. Assim o expressa o Papa Francisco na exortação apostólica Cristo Vive: «Trata-se de escutar o outro, que se nos dá com as suas palavras. O sinal desta escuta é o tempo que dedico ao outro. Não é questão de quantidade, mas de que o outro sinta que o meu tempo é dele: todo o tempo que precisar para me manifestar o que quer. Deve sentir que o escuto incondicionalmente, sem me ofender, escandalizar, aborrecer nem cansar. Tal é a escuta que o Senhor realiza quando Se põe a caminho com os discípulos de Emaús e os acompanha durante longo tempo por uma estrada cuja direcção seguida era oposta à correcta (cf. Lc 24, 13-35). Quando Jesus faz menção de continuar para diante, porque os dois discípulos tinham chegado a casa, estes compreendem que Ele lhes oferecera o seu tempo e, então, dão-Lhe o deles, oferecendo-Lhe hospedagem. Esta escuta atenta e desinteressada mostra o valor que tem para nós a outra pessoa, independentemente das suas ideias e opções de vida» (CV, 292).

Empatia e escuta

Há dias, vi o documentário «Amém: Francisco responde», que estreou no passado dia 5 de Abril no serviço de streaming Disney+, e no qual o papa conversa com dez jovens, que tinham na altura entre 20 e 25 anos de idade (a conversa foi gravada no Verão de 2022, com Francisco a lembrar a doação generosa até à morte da irmã missionária Luisa Dell’Orto, que trabalhava com crianças da rua e tinha sido assassinada no Haiti). Os intervenientes conversam em espanhol, mas a realidade dos jovens é muito variada: três são homens e sete são mulheres; são originários de Espanha, América Latina, Índia e Senegal.

A longa-metragem começa por mostrar o papa no Vaticano, numa manhã que parece rotineira, em que toma o pequeno-almoço (sozinho, num refeitório onde as mesas estão preparadas para mais pessoas), cumprimenta cordialmente os funcionários e, no seu escritório, fala ao telefone. Pouco depois, a produção apresenta o papa a deslocar-se para um «local neutro» escolhido para o encontro, um prédio no bairro Pigneto, em Roma.

Os jovens já se encontram reunidos e conversam, enquanto esperam com ansiedade o chefe da Igreja Católica. Francisco chega sorridente, com a fragilidade de um avô com mobilidade reduzida (nessa altura o papa sofria de fortes dores no joelho direito). O papa, manifestando a sua capacidade de diálogo e sentido de humor, diz uma piada, o que permite quebrar o nervosismo inicial que se percebe em todos os participantes.

Estes rapazes e raparigas expressam-se com liberdade e sinceridade, partilhando a própria experiência e realidade, mesmo que esta seja muitas vezes dolorosa, profundamente pessoal e íntima. Os testemunhos apresentados são interpeladores, tanto no âmbito humano como no da fé cristã. Khadim, um jovem senegalês muçulmano radicado em Espanha, falou do seu irmão, que atravessou o mar numa embarcação sem condições, aos 14 anos, para chegar à Europa e onde foi vítima de racismo; Medha, nascida nos Estados Unidos da América, cujos pais deixaram a Índia à procura de um futuro melhor para a sua família, menciona como também foi vítima de racismo e discriminação, mas conseguiu superar e agora estuda Medicina; Juan, espanhol, vítima de abusos sexuais num colégio católico, dá o seu testemunho, em lágrimas, e lamenta a recusa de muitos em acompanhar as vítimas de abusos, pondo-se do lado dos abusadores; Alejandra, colombiana, tem uma filha e cria e comercializa conteúdos para adultos em plataformas online; Víctor, espanhol, membro de uma família de antigos católicos, considera-se agnóstico; Dora, nascida no Equador e que emigrou com a família para Espanha quando tinha três anos, irrompe em lágrimas ao contar que foi vítima de bullying e racismo e sentiu a dor da solidão, que a fez pensar no suicídio; Lucía, uma jovem peruana, conta que perdeu a fé em Jesus Cristo depois de ter sofrido durante anos abusos de poder e psicológicos enquanto pertencia a uma comunidade religiosa; Milagros, da Argentina, apresenta-se como catequista católica e, ao mesmo tempo, como uma orgulhosa feminista e activista do grupo Católicas pelo Direito de Decidir; Maria, espanhola e católica, pronuncia-se contra o aborto e explica o porquê de a pornografia ser prejudicial tanto para aqueles que a produzem quanto para aqueles que a consomem; Celia, espanhola, partilha que é não-binária e cristã.

 

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O Papa Francisco tira uma selfie com um grupo de jovens em Assis, Itália (© Lusa/Vatican Media)

 

O papa escuta as palavras, algumas vezes angustiantes, dos seus interlocutores com empatia, ou como referiu na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações de 2022, «com o ouvido do coração». Mostra-se atento, interessado, respeitoso. Procura responder com lógica, mas também com amor, compreensão, misericórdia e respeito, às inquietações dos jovens, sempre com um tom de voz sereno e acolhedor, sem julgar. Francisco partilha, espontaneamente, o que pensa. Recorre mais à sua experiência de vida do que a um raciocínio teologicamente elaborado ou à defesa de ideias doutrinárias (ainda que responda sempre com os ensinamentos da Igreja). Nos momentos com mais tensão emocional, o papa convida, com carinho, os jovens a expressarem-se com tranquilidade, liberdade e confiança (e nessas ocasiões usa as palavras «filho»/«filha»).

Além das palavras, o papa comunica também de modo não-verbal (uma das características de Jesus nos Evangelhos, também tão presente em Francisco), seja com expressões faciais (nunca se vê, por exemplo, a franzir o sobrolho), gestos, postura ou silêncio respeitoso (vemo-lo baixar a cabeça, como sinal de tristeza ou de circunspecção).

Recuperar a escuta

Hoje, no mundo globalizado e hiperconectado, os jovens comunicam-se muito recorrendo às diferentes plataformas digitais, mas não se sentem sempre escutados e compreendidos. O papa reconheceu no encontro que não usa telemóvel e não está a par das novas tecnologias (responde a uma das jovens que não sabe o que é a aplicação Tinder e que são os responsáveis da comunicação do Vaticano que administram as contas pontifícias do Twitter e Instagram). No entanto, estes dez jovens, que representam a juventude actual, com as suas tristezas e alegrias, desilusões e esperanças, sentiram-se acolhidos na sua diferença e experimentaram a riqueza da comunicação e da escuta empática, possível mesmo entre gerações tão diferentes.

O diálogo aberto com aquele que pensa diferente, realizado com respeito mútuo e empatia, exemplifica bem os caminhos a seguir pela Igreja nos nossos encontros com pessoas diferentes, mesmo de outras religiões ou não-crentes (como é o caso da JMJ, evento que congrega jovens de diferentes nacionalidades, culturas e credos). Quando estabelecemos um diálogo sincero com o outro, dispostos a escutar e a aprender, respeitando a diferença e partilhando a própria experiência (humana e de fé), como Francisco e estes jovens fizeram, somos capazes de construir caminhos novos de fraternidade social e eclesial. 

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