
No início de Novembro, o presidente norte-americano ameaçou cortar ajudas e enviar tropas para a Nigéria caso o Governo não detenha a violência contra os cristãos. «Se o Governo nigeriano continuar a permitir o assassínio de cristãos, os EUA suspenderão imediatamente toda a ajuda e assistência à Nigéria e poderão muito bem entrar nesse país agora desonrado, “com armas em punho”, para exterminar completamente os terroristas islâmicos que estão a cometer essas atrocidades horríveis», postou Donald Trump na sua rede social, instruindo o Departamento da Guerra a iniciar os preparativos necessários.
Uma semana antes, o cardeal Pietro Parolin, número dois do Vaticano, classificou de social a violência no país da África Ocidental. «Não [é] um conflito religioso, mas sim social, por exemplo, disputas entre pastores e agricultores. Devemos também reconhecer que muitos muçulmanos na Nigéria são eles próprios vítimas dessa mesma intolerância», disse, à margem da apresentação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa para 2025.
As duas posições ilustram a complexidade da situação no país mais populoso da África (com cerca de 245 milhões de habitantes) e o maior produtor de petróleo do continente. Porém, não há evidência de um genocídio organizado visando os cristãos na Nigéria como a extrema-direita americana (e portuguesa) diz. Há sim, um grave problema de insegurança desde 2009, envolvendo actores diferentes: jiadistas, bandidos e grupos armados. Todavia, notícias de ataques a igrejas e escolas, sequestros e assassínios de pastores, padres, seminaristas, estudantes e cristãos de diversas denominações no Norte e no Centro do país são o pão nosso de cada dia.
As autoridades reconhecem a incapacidade de pôr termo a este estado de insegurança, mas negam a existência de um genocídio contra os cristãos. Os jiadistas (como o Boko Haram) actuam sobretudo no Norte e, nos ataques, não discriminam entre muçulmanos e cristãos. Nos últimos três anos, cerca de dez mil pessoas foram mortas nos Estados do Norte e mais de três milhões fugiram de casa. No Centro, grupos armados lutam pela posse da terra e da água numa área muito afectada pelas mudanças climáticas.
É um conflito entre pastores (que são maioritariamente muçulmanos fulanis) e agricultores (cristãos na maioria). O banditismo armado também está a crescer. No Sul, cristão, a situação afigura-se mais tranquila, apesar de alguns confrontos mortais esporádicos.
A Conferência Episcopal nigeriana denunciou recentemente a insegurança e apontou o dedo ao Estado. «O Governo tem tanto a responsabilidade como os meios para pôr fim a esta violência e não pode continuar a permitir que a impunidade prevaleça. Os responsáveis por estes crimes hediondos devem ser identificados e levados à justiça, pois sem responsabilização não pode haver paz duradoura», escreveram os bispos católicos.
O presidente Bola Ahmed Tinubu, por seu turno, declarou o estado de emergência e ordenou o recrutamento adicional de 50 mil polícias e soldados, pedindo mais vigilância para internatos escolares e locais de culto, sobretudo em áreas remotas.
