
No passado dia 9 de Janeiro, Leão XIV recebeu o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé. O pontífice pronunciou um interessante discurso, expondo as grandes linhas da sua concepção da ordem internacional, no contexto actual de um mundo fragmentado, polarizado e onde ressurgem conflitos e interesses predatórios. Serviu-lhe de fio condutor A Cidade de Deus, obra-prima de Santo Agostinho, escrita no contexto do saque e da queda de Roma no início do século v. Na obra, o bispo de Hipona exorta os cristãos a não se fixarem na transitoriedade da cidade terrena, mas a levantar os olhos para a Cidade de Deus, eterna e invisível, assente nos princípios da justiça e da paz. Leão XIV lembrou a intemporalidade da mensagem da obra, sublinhando que na nossa época se vivem eventos similares aos daquele tempo, nomeadamente os profundos movimentos migratórios e a reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e paradigmas culturais.
O papa agostiniano expressou a sua preocupação pela «fragilidade do multilateralismo», realçando que «a diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso entre todas as partes está a ser substituída por uma diplomacia baseada na força, seja por parte de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra está novamente em voga e o entusiasmo bélico está a espalhar-se».
O pontífice pediu o respeito da ordem internacional baseado na Carta das Nações Unidas — que consagra os princípios da justiça e da paz e são garantes das liberdades fundamentais, incluindo as de consciência e religião — e condenou as graves violações do direito internacional. «Foi quebrado o princípio estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de usar a força para violar as fronteiras alheias. A paz já não é procurada como um dom e como um bem desejável em si mesmo, é procurada através das armas como condição para afirmar o próprio domínio. Isto compromete gravemente o Estado de direito, que é a base de toda a coexistência civil pacífica», realçou o pontífice.
Leão XIV enfatizou, igualmente, a importância do direito internacional humanitário, cujo «cumprimento não pode depender das circunstâncias nem de interesses militares e estratégicos», mas deve «mitigar os efeitos devastadores da guerra e com vistas à reconstrução».
O Papa Prevost lembrou os diferentes conflitos em curso: Ucrânia — pedindo um cessar-fogo como pré-requisito para uma «paz justa e duradoura»; Terra Santa — apoiando a solução de dois Estados; Grandes Lagos; Sudão e Sudão do Sul. Referiu ainda os pontos de crescente tensão na Ásia Oriental — em particular em Mianmar —, sem esquecer a crise sociopolítica no Haiti e na Venezuela (ver páginas 14-15).
A concluir, Leão XIV fez um apelo à cooperação internacional e ao controlo armamentista, incluindo a proliferação nuclear. Todavia, pediu aos discípulos missionários que olhemos para São Francisco de Assis — cujo oitavo centenário da morte estamos a comemorar —, e sejamos construtores activos de justiça e paz.
