Opinião
08 março 2026

O que chuva a mais revela

Tempo de leitura: 4 min
O retorno a uma vida de oração, leitura, caminho em ambiente natural tornam-se actos de despoluição mental que renovam e aprofundam a nossa vida espiritual.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
---

Ventos fortes e chuvas abundantes marcaram a vida de inúmeras famílias portuguesas nestes últimos tempos. Se o oceano aquece mais, mais energia existe para dar força ao vento. E se mais energia também evapora mais água, maior quantidade poderá cair sobre nós. Nas notícias ouvíamos o que as alterações climáticas estavam a fazer aos outros e agora sentimos nós na pele o que isso significa. Será suficiente para mudarmos de estilo de vida?

A onda de solidariedade portuguesa faz também parte do nosso estilo de vida e esse não mudou. Felizmente, em Portugal, as pessoas continuam a ser generosas em ajudar quem mais precisa. Com o clima é diferente porque a relação não se estabelece com um rosto que se vê, mas com um fenómeno que não se vê, mas sente-se.

Aquilo que não se vê, mas sente-se, é o núcleo da experiência espiritual que fazemos na nossa vida. Por exemplo, a experiência da presença de Jesus entre nós não se vê, mas sente-se, se nós amarmos reciprocamente. Por isso, o estilo de vida associado ao nosso relacionamento com a Natureza está mais próximo de uma experiência da vida espiritual, com implicações concretas na vida física, do que poderíamos pensar à partida.

Contra mim falo, mas uma boa parte de nós vive dentro de quatro paredes a maior parte do tempo. Em casa, depois trabalho e retorno a casa. Até mesmo quando nos alimentamos da Eucaristia, estamos dentro das quatro paredes da igreja. Por outro lado, para lá das quatro paredes que isolam o nosso corpo do exterior, uma boa parte também de nós começa a isolar o ambiente interior através de um ecrã. Pode ser um computador portátil ou de secretária, um tablet, mas o mais comum será o smartphone. Já nem usamos muito a palavra «telemóvel» que proveio da mobilidade do «telefone» que junta «tele» que vem do grego e quer dizer distância e «fone», que significa som. Pois, não será apenas a voz daquele que está longe que trazemos para o nosso ouvido, nem a visão daquilo que está à distância (televisão), mas informação em múltiplos formatos, saturada de cores, que em vez de se mover (móvel) connosco, vem ter connosco onde quer que estejamos. Logo, a tendência será ficar no mesmo lugar.

Ao longo do tempo, a gradual ausência do ser humano dos ambientes naturais levou a nos distanciarmos do impacto que os fenómenos naturais têm sobre nós e o nosso estilo de vida. Na Natureza, a possibilidade de fazer uma experiência da presença de Deus é real. Por isso, ao nos afastarmos dessa experiência, afastámos a possibilidade que a presença de Deus teria de formar o nosso estilo de vida para aquilo que é essencial. E mais do que pensar em actos ecológicos, penso na consciência profunda do impacto que os nossos actos têm sobre o ambiente natural.

Com a subserviência da nossa atenção ao ambiente digital, surge um novo tipo de poluição que diria ser mental. Por isso, o retorno a uma vida de oração, leitura, caminho em ambiente natural tornam-se actos de despoluição mental que renovam e aprofundam a nossa vida espiritual. É o que chuva a mais revela.

Partilhar
---
EDIÇÃO
Março 2026 - nº 766
Faça a assinatura da Além-Mar. Pode optar por recebê-la em casa e/ou ler o ePaper on-line.