Opinião
16 março 2026

O título fala de amor pessoal

Tempo de leitura: 4 min
Leão XIV convida a sermos amigos de carne e osso, amados pessoalmente por Deus, capazes de partilhar amor com as pessoas concretas que cruzam o nosso caminho.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
---

Quando veio a público esta primeira exortação do novo papa com o título Amou-te (em latim, Dilexi te), parecia quase uma repetição. Pouco antes tínhamos recebido a última encíclica do Papa Francisco, que tinha como título Amou-nos (em latim, Dilexit nos).

Mais do mesmo? Certamente que não. O segundo texto dá um passo em frente. Francisco concentrava a sua atenção na imagem, símbolo do Coração de Cristo, que ao longo de vários séculos inspirava a imaginação cristã quando queríamos falar ou mesmo imaginar o que Cristo nos comunicou sobre o amor de Deus. Jesus começou por experimentar no seu próprio caminho o amor de Deus lhe tinha e depois fazia da sua maneira de viver cada dia uma partilha desse mesmo amor com todos os que o rodeavam. E assim, o coração humano da pessoa concreta que era Jesus foi-se tornando a imagem central que nos falava do amor de Deus. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus acabou inspirando a vida de inúmeros cristãos e também de congregações e organizações cristãs de todo o tipo, que decidiram incluir o Coração de Jesus no próprio nome da associação ou instituto a que pertenciam.
O Papa Francisco também não deixou de insistir no facto que esse amor de Deus manifestado no Coração de Cristo nos leva sempre a maneiras muito concretas de servir quem mais precisa dele: os pobres e os aflitos do nosso mundo. O amor que nos vem do Coração de Cristo não se limita a «aquecer-nos o coração», ele sempre nos impele para que o partilhemos com os outros.

O título do texto do Papa Leão – que pelos vistos o próprio Papa Francisco já tinha começado a preparar, usa o mesmo vocabulário, um verbo traduzido para português como «amar» e um pronome; mas o novo título personaliza o relacionamento de amor: trata-se agora do próprio Deus a falar pessoalmente dizendo que ele mesmo te ama; ama-te a ti, a mim, a cada um de nós, pessoalmente.

O convite que Leão nos faz é, assim, que cada um de nós se sinta pessoalmente amado por Deus. Já não se trata aqui de uma simples devoção tradicional, e muito menos de uma das muitas doutrinas da Igreja. Para o Papa Leão, cada um de nós é convidado a sentir-se pessoalmente escolhido e amado por Deus. E é na medida em que sentimos esse amor activo na nossa vida pessoal que sentiremos também uma «necessidade que vem de dentro» de partilhar esse amor de Deus com todos, começando com as pessoas de carne e osso que partilham o caminho que vivemos cada dia. E quanto mais gratuito for o amor que partilhamos – amor oferecido sem interesse, amor dado sem esperam receber outro tanto, quanto mais esse amor for livre das amarras do nosso egoísmo, mais ele será expressão verdadeira do amor do Deus que nos diz «amei-te». 

Na época em que tantas pessoas vivem a triste solidão ou têm «milhares de amigos» virtuais nas redes sociais, Leão XIV convida a sermos amigos de carne e osso, amados pessoalmente por Deus, capazes de partilhar amor com as pessoas concretas que cruzam o nosso caminho, sem nos fecharmos aos de mais longe, num dinamismo de inclusão que se alarga sempre mais.

Partilhar
---
EDIÇÃO
Março 2026 - nº 766
Faça a assinatura da Além-Mar. Pode optar por recebê-la em casa e/ou ler o ePaper on-line.