Opinião
07 abril 2019

Má-fé!

Tempo de leitura: 4 min
Pastores abusam da boa-fé dos seus rebanhos.
José Vieira
Missionário Comboniano
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Três agências funerárias sul-africanas processaram um autoproclamado profeta por simular a ressuscitação de um morto em Joanesburgo.

A cena, gravada num vídeo que se tornou viral nas redes sociais, estava quase perfeita: o pastor Alph Lukau, dos Ministérios Aleluia Internacional, veio receber a urna junto ao templo. Depois de se ter inteirado como Elliot, o defunto, morrera havia dois dias, pediu aos presentes que levantassem a mão e invocassem Jesus. Logo, impôs as mãos sobre o suposto falecido, vestido de branco dos pés à cabeça, luvas incluídas, e com a boca entreaberta. Ao comando «Levanta-te!», o morto-vivo ergueu-se com ar alucinado, para espanto da assembleia, que grita louvores.

As agências não gostaram de terem visto os seus logótipos usados no falso milagre e puseram o pastor em tribunal para proteger a própria imagem. A encenação – que Lukau atribuiu à família do presumível defunto, reconhecendo que Elliot já estava vivo quando chegou à igreja e que ele simplesmente completou o milagre que Deus começou – criou uma onda de protestos e de desagravo pelos falsos profetas que simulam milagres, um problema que é global.

Lukau não está sozinho na África do Sul! Paseka Motsoeneng alega que foi levado ao céu e tirou fotos com o telemóvel que podem ser vistas pela oferta de 5000 rands (cerca de 300 euros); Lethebo Rabalago, conhecido por Pastor da Desgraça, foi condenado por, em 2016, pulverizar o rosto de alguns fiéis com insecticida para curar a sida e outras doenças; Lesego Daniel ordenou a alguns seguidores que bebessem gasolina porque se transformava em sumo de ananás; Penuel Mnguni, o pastor-cobra, foi filmado a dar a comer pedras que – disse – se iam transformar em pão e cobras e ratos em chocolate.

Este cenário de abuso e manipulação, com falsas curas, enriquecimento ilícito e estilos de vida luxuosos à mistura, repete-se em muitos países da África e pelo mundo fora: autodenominados profetas-pastores fazem fortunas à custa da boa-fé dos seus seguidores.

O fisco do Zimbabué acusou uma igreja independente de acumular uma dívida de 28 milhões de dólares de IVA desde 2013 ao mesmo tempo que o pastor e a esposa não pagaram IRS sobre salários milionários. O processo corre em tribunal.

O ministério dos falsos pastores preocupa alguns governantes africanos. Há um ano, Paul Kagame, presidente do Ruanda, mandou encerrar 700 templos (a maioria de assembleias pentecostais) e uma mesquita em Kigali, na capital, por problemas estruturais e de segurança, higiene, ruído, falta de licenças, etc.

O Governo queniano, por seu turno, exige que os líderes religiosos tenham formação académica e um certificado de boa conduta para praticarem o seu ministério.

Yoweri Museveni, o autocrata que governa o Uganda desde 1986, tem um conselho diferente para os pastores: ensinar a criar riqueza para reconstruir a economia! «Na igreja, hoje, as pessoas precisam de seguir o ensinamento de Cristo na parábola dos talentos. Aquele que multiplicou os talentos foi recompensado», disse.

 

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Outubro 2019 - nº 695
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