Opinião
15 julho 2020

Desafios da covid-19 à acção social e caritativa da Igreja

Tempo de leitura: 4 min
Esta pandemia veio chamar a atenção para a necessidade urgente da renovação da pastoral social.
Eugénio Fonseca
Presidente da Cáritas Portuguesa
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Recuso-me a fazer uma leitura providencialista da pandemia que está a atingir o mundo. Também não a posso fazer com uma atitude ateísta. Acredito, firmemente, no Deus revelado por Jesus Cristo como nosso Pai (cf. Lc 11, 1-4) e, segundo a designação de S. João, como Amor em plenitude (cf. I João 4,16). Ora, um Deus assim não quer o sofrimento e a morte dos seus filhos e filhas, que ama infinitamente sem qualquer forma de discriminação. Por outro lado, não é um malabarista que, como Criador do Universo, dispõe dele conforme as suas conveniências. O verdadeiro Deus não é assim. Além do amor que d’Ele emana, o que me apaixona em Deus é ter assumido o risco de nos ter criado livres e inteligentes, com todas as condições para fazermos opções e capacidades para continuarmos a recriar, potenciando, com Ele, a obra da Criação (cf. Gn 1, 28). Se permite o sofrimento é para que dele tiremos o bem necessário.

Assim deve ser entendido o surgimento da covid-19. Esta desgraça veio recordar-nos que “dominar a terra” não é utilizá-la a nosso bel-prazer; que somos criaturas interdependentes, incluindo não só as humanas; que o respeito pelos outros, particularmente pelos mais débeis, é um dever inalienável; que temos ainda muito a conhecer sobre a Natureza e a vida; que há valores inegociáveis, dada a sua essência. Outras conclusões ainda hão-de surgir?!

Esta pandemia também veio lançar desafios à acção da Igreja Católica. Ninguém questionará a sua exemplar colaboração para que a contaminação do vírus não tivesse maior amplitude, enfrentando até fundamentalismos internos. Contudo, entre outras acções pastorais, esta pandemia veio chamar a atenção para a necessidade urgente da renovação da pastoral social, que tem de ser capaz de ler os sinais dos tempos e dar-lhes respostas por antecipação e não por reacção. Até porque nos impele a isso a intervenção do Espírito Santo, que não se dá bem com o marasmo do “sempre se fez assim”, como nos recordou o Papa Francisco (cf. Evangelii Gaudium, 33), mas é a “força motriz” da renovação de todas as coisas (cf. Ap 21,5).

Deixo a minha modesta opinião sobre o que me parece urgente renovar. Assim: (I) Assumir a prática organizada da caridade como essencial para a credibilidade da fé incarnada, e das razões da esperança que a Igreja tem de ser para o mundo. Fazer, de verdade, preferência pelos mais pobres; (II) Fazer tudo para que cada paróquia, ou unidades pastorais, tenham um grupo bem organizado para que, em nome da comunidade cristã, se promovam acções de caridade libertadora. Esta acção não se pode esgotar nos centros sociais paroquiais; (III) Renovar os grupos existentes, promovendo a cultura intergeracional com vista ao imperioso rejuvenescimento; (IV) Capacitar os agentes da pastoral social para que possam fazer bem, o bem que devem fazer; (V) Criar dinamismos de parceria com outras organizações civis e de comunhão intra-eclesial.

Se não se olhar a sério para esta dimensão evangelizadora da Igreja, continuaremos a ter católicos muito religiosos, mas pouco cristãos. 

 

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Outubro 2020 - nº 706
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