Opinião
08 julho 2022

Deixar a Varanda

Tempo de leitura: 4 min
O Verão é um tempo que nos oferece mais possibilidades de fazermos experiência de Igreja-em-saída e de nos empenharmos na construção de relações diferentes.
P. Manuel Augusto Lopes Ferreira
Missionário comboniano
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(© 123RF)

 

Chegamos ao Verão e às férias. Trata-se de um tempo em que procuramos descanso e lazer, liberdade de trabalho e empenhos. O Verão flui com um ritmo diferente e com um olhar mais descontraído sobre a vida. Mas sabemos que os empenhos essenciais do nosso viver não podem ser descuidados. E, se temos fé, sabemos que o Verão não suspende a nossa caminhada cristã e os nossos empenhos com Deus e com os outros. A missão continua e o Verão é tempo para descobertas e compromissos novos e não só para pausar.

Para este tempo proponho uma palavra que vamos buscar ao vocabulário do Papa Francisco, que pode combinar o espírito desta estação com a atitude cristã – da responsabilidade e do empenho – que não conhece pausa. A palavra foi usada pelo papa na XXVIII Jornada Mundial da Juventude (no Rio de Janeiro, Brasil, em 27 de Julho de 2013), num apelo feito aos jovens a não ficar à janela, à varanda, a ver a vida passar; mas descer à rua e comprometer-se com a caminhada da vida, para construir um mundo diferente. Francisco falava em espanhol e usou a palavra «balconear», que significa observar os acontecimentos, o fluir da vida, sem tomar parte neles, sem sair da própria casa e dos próprios interesses; olhar para o mundo e para a Igreja, com alguma curiosidade, mas sempre à distância.

Ficar à janela, à varanda, traduz, assim, a atitude de quem se mantém indiferente e desinteressado perante os problemas da Humanidade. Contra esta indiferença temos de remar sempre, também (e sobretudo) no Verão, um tempo que nos oferece mais possibilidades de fazermos experiência de Igreja-em-saída e de nos empenharmos na construção de relações diferentes (retiros e caminhadas, campos de trabalho e acções em favor de quem vive isolado na própria casa ou nos lares, iniciativas para sair ao encontro de quem anda afastado da própria comunidade e da fé que abraçou, ocasiões para nos fazermos próximos de quem necessita).

O apelo do papa aos jovens é para «deixar a varanda» e sair à rua num empenho de vida para transformar o mundo à luz do Evangelho de Cristo, difundindo esperança e alegria: «Por favor, não deixem para outros o ser protagonistas da mudança! Através de vocês, entra o futuro no mundo. Continuem a vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão surgindo em várias partes do mundo. Queridos jovens, por favor, não “olhem da varanda” a vida, entrem nela. “Não olhem da varanda” a vida, mergulhem nela, como fez Jesus.»

Chegamos a este Verão assediados (ainda) pela pandemia e horrorizados (agora) pela guerra que se instalou no coração da Europa. Como podemos ficar indiferentes perante estes dramas? Como podemos não sentir responsabilidade para com estas situações e as pessoas que delas são vítimas? Como podemos fechar-nos em nós próprios e iludir-nos, quando, de facto, estamos todos no mesmo barco e vivemos um destino partilhado? Por onde começar? O papa deixou a pergunta aos jovens e lembrou a resposta da Madre Teresa de Calcutá, a quem lhe perguntou por onde começar para mudar a Igreja. «Por ti e por mim», respondeu ela. Aqui e agora, também no Verão, acrescentamos nós.  

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Dezembro 2022 - nº 730
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