Opinião
23 novembro 2022

Ricos de nada, pobres de tudo

Tempo de leitura: 4 min
As comunidades cristãs e as suas iniciativas missionárias são «escolas de sinceridade», «escolas de abertura e partilha».
P. Manuel Augusto Lopes Ferreira
Missionário comboniano
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Ao reler os textos de algumas recentes intervenções do Papa Francisco, tropecei numa frase que me chamou a atenção e que aqui proponho agora como título para este texto. Nas suas homilias, o papa regressa sempre a alguns temas que são o alicerce do seu magistério e do seu sonho de uma Igreja em saída, isto é, em missão. A frase em questão encontra-se nos textos da viagem do Papa Francisco ao Cazaquistão, em Setembro último, uma viagem de grande sentido e simbologia missionários: uma visita ao Centro da Ásia, o continente das grandes religiões; uma ida a um país e a uma sociedade, de esmagadora maioria islâmica, onde os cristãos são uma minoria numericamente insignificante. Francisco viajou despido de poder e relevância para se sentar, um entre muitos, no meio dos líderes das grandes religiões históricas e tradicionais, para participar na busca de um terreno comum para a construção do diálogo entre as religiões e da paz entre os povos.

Falando da missão cristã, o Papa Francisco assegurou que «ricos de nada, pobres de tudo, caminhamos com simplicidade, junto dos irmãos e das irmãs dos nossos povos, levando a todas as situações da vida a alegria do Evangelho. Como fermento na massa, como pequena semente lançada à terra, habitamos as vicissitudes tristes e alegres da sociedade em que vivemos, para a servirmos desde dentro».

Estas palavras do papa fazem ecoar outras da exortação apostólica A Alegria do Evangelho e da carta encíclica Fratelli Tutti que propõem uma missão que se incarna nos limites humanos, sublinha o caminhar com as pessoas, defende o diálogo. Com estas palavras, Francisco propõe aos líderes das demais religiões uma missão comum: a promoção da amizade social e da fraternidade entre todas as pessoas e povos – a sua grande proposta feita na Fratelli Tutti. Estas propostas partem do coração do Evangelho e estão despidas de toda a pretensão de poder, como bem mostram as imagens evocadas pelo papa: o fermento na massa e a semente lançada à terra (cf. Mateus 13, 31-33).

Assim, as comunidades cristãs e as suas iniciativas missionárias são «escolas de sinceridade» e não ambientes de propagação ideológica, «escolas de abertura e partilha» e não ambientes de extensão de domínios. Tanto as comunidades cristãs como os missionários e as missionárias que incarnam a missão cristã hoje no mundo, no contacto vivo com o Evangelho, como recorda o papa, «aprendem a passar do egoísmo ao amor incondicional» e a afirmarem-se como «homens e mulheres de comunhão», a viverem no meio das pessoas como imagens do coração misericordioso de Cristo.

A história da missão cristã entre os povos mostra-nos que estas não são só palavras. O exemplo mais recente vem-nos da irmã missionária comboniana Maria De Coppi (na foto, com meninas), assassinada na missão de Chipene, no Norte de Moçambique. Ao telefone, as suas últimas palavras aos familiares foram: «Aqui há disparos por todo o lado... Se não vos vejo mais, aproveito para pedir desculpas pelas minhas faltas e para vos dizer que vos quero bem a todos vós. Lembrem-se de mim nas vossas orações. Se o bom Deus me der a graça, desde o paraíso vos protegerei. Já perdoei a quem eventualmente me matará. E vocês façam o mesmo.» 

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