Opinião
19 agosto 2023

A solidão da fé

Tempo de leitura: 4 min
O Espírito Santo é capaz de abater a barreira da solidão e abrir-nos a uma renovada compreensão da vida e da missão cristã.
P. Manuel Augusto Lopes Ferreira
Missionário comboniano
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(© OMP Espanha)

 

Proponho como título para a reflexão deste mês a expressão «a solidão da fé», que li recentemente e me impressionou. A frase pertence a um grande pensador cristão do século XX (Romano Guardini) e foi dita em 1950, como profecia da secularização que se anunciava na Europa e do dissolver-se de qualquer influência cristã na cultura e sociedade europeia. «A solidão da fé será tremenda» diante deste retirar-se da fé cristã para a vida e consciência individual.

A solidão está a ser, efectivamente, tremenda, mas temos de a assumir como discípulos-missionários, nesta hora de repensarmos a missão. E causa sofrimento, como vemos na admissão de tantos cristãos, mais ou menos idosos, a ressentirem-se por terem feito tudo para transmitir a fé e educar no caminho cristão os seus filhos e a comprovarem o abandono a que os mesmos deitaram a fé. Como vemos na incapacidade, que sentimos todos, para encontrar as palavras adequadas para falarmos da fé e testemunharmos o Evangelho; é mais fácil adequarmos as nossas atitudes (respeito, diálogo, afecto) do que encontrar palavras convincentes e esclarecedoras. Ou na solidão que experimentamos, agora no pós-covid, ao olharmos ao redor e nos reencontrarmos sozinhos nas celebrações, em igrejas vazias, em comunidades reduzidas de número e de vitalidade.

Este sofrimento e esta solidão são transversais e não se verificam só entre os leigos. Os sacerdotes também se sentem sozinhos, descontentes talvez com os fiéis, mas também com os seus bispos, a sofrerem as consequências desta nuvem de suspeição que paira sobre eles por causa dos casos de abuso no exercício do ministério. Os bispos também sofrem solidão, nas dificuldades do relacionamento com os sacerdotes ou na incapacidade de se colocarem em sintonia com os percursos do actual pontificado. Se a situação dos abusos veio dificultar o relacionamento dos bispos com os sacerdotes (já não são só pais e pastores, irmãos maiores, mas gestores que têm de aplicar políticas de tolerância zero), as dinâmicas do pontificado e do magistério do Papa Francisco vieram colocar sob pressão o ministério episcopal (se o papa fala diariamente sobre tudo e para todos, que mais podem dizer os bispos senão ecoar as opiniões do papa?!).

Sentimo-nos todos, de uma forma ou de outra, invadidos por este sentimento de solidão, de orfandade espiritual, porque a Igreja que temos (a nossa comunidade, paróquia ou diocese...) não corresponde às nossas expectativas: os nossos sonhos desvanecem-se e o que vemos à nossa volta (parece que) não nos corresponde ou pertence. Sentimos o peso da ausência, mais do que a alegria da presença... do que temos e vivemos.

Trata-se de uma sensação que já o Senhor Jesus detectou nos primeiros discípulos, ao falar do sentir-se órfãos, diante da perspectiva da sua ausência (não vos deixarei órfãos!). Cristo promete a consolação de um guia interior, o Espírito Santo, cuja vinda acabámos de celebrar no Pentecostes: uma promessa que é também para nós hoje, no dom de um Espírito capaz de abater a barreira da solidão e abrir-nos a uma renovada compreensão da vida e da missão cristã. 

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