Reportagens
29 março 2019

Somos hóspedes tolerados (mas esperançosos)

Tempo de leitura: 16 min
D. Paul Hinder, responsável do Vicariato Apostólico da Arábia Meridional, conhece as dificuldades de viver em países onde o Islão é religião de Estado e a sharia fonte do direito.
Paolo Moiola
Jornalista
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Emirados Árabes Unidos, Omã e o Iémen são os países onde o bispo suíço se movimenta. Países onde a Arábia Saudita, nação hegemónica da zona, mantém a sua influência. Com dinheiro e com armas.

Islão, sharia, petróleo, imigrantes. São os elementos que têm em comum os sete países que compõem a península arábica. Todos excepto o Iémen, que não tem nem petróleo nem imigrantes e que, ainda por cima, desde há quatro anos é devastado por uma guerra civil tão sangrenta como ignorada.

Nesta área domina a Arábia Saudita, monarquia obscura (e obscurantista) em relação à qual quase todos os países – em primeiro lugar, os Estados Unidos de Donald Trump – mostram uma deferência apenas explicável pelas enormes riquezas de que pode dispor. D. Paul Hinder é, desde 2011, o vigário apostólico da Arábia Meridional, que compreende Emirados Árabes Unidos, Omã e Iémen. Foi com este bispo suíço de 76 anos que conversámos sobre a sua experiência na península arábica.

monsPaulHinder_2Foto: Paolo Moiola

Dom Hinder, em que países da Península Arábica está a trabalhar?

Sou vigário apostólico dos Emirados Árabes Unidos (em cuja capital, Abu Dhabi, resido), do sultanato de Omã e da república do Iémen. De 2005 a 2011 fui também vigário da Arábia Saudita, Bahrein e Catar. Depois a Santa Sé fez uma reorganização territorial de toda a península para ter uma subdivisão mais racional.

Como se vive em países onde a sharia é a principal fonte do direito?

Tudo depende de como ela é aplicada na prática. É claro que há vários modos de a interpretar e aplicar. A sharia não é apenas cortar as mãos ou a cabeça. Mesmo se ainda acontece. Por exemplo, na Arábia Saudita.

Não se trata, portanto, de um exagero jornalístico?

Não. Mas isso não significa que seja o comportamento geral. A sharia é tudo aquilo que nós consideramos direito civil, que regula a família, a propriedade, etc. Também eu fui ao Tribunal da sharia para assinaturas. Não é uma coisa da qual ter medo: é o modo para regular as relações numa sociedade muçulmana. Claro que, para nós cristãos, há limites na liberdade religiosa que, nestes países, não é reconhecida como liberdade própria da pessoa. A liberdade de culto é limitada. Na Arábia Saudita não existem igrejas, mas existem em todos os outros Estados.

Quer dizer que, ainda hoje, na Arábia Saudita não existem estruturas destinadas a igrejas?

Não existem, mesmo depois da visita do cardeal maronita [em Novembro de 2017, o cardeal Bechara Rai, patriarca dos maronitas, encontrou-se com o rei Salman em Riade, ndr]. Talvez no futuro seja possível, mas, pessoalmente, ainda tenho dúvidas. Existem algumas comunidades, formalmente dirigidas pelo bispo encarregado [D. Camillo Ballin, ndr]. Há missas celebradas em casas particulares de modo discreto. Isto é tolerado na medida em que não perturba terceiros.

Omã, Emirados Árabes Unidos, Iémen são países em que existem igrejas entendidas como construções? 

Existem, mas, por exemplo, não têm torres sineiras ou cruzes externas visíveis da rua. No interior são como as igrejas daqui, ainda que não da mesma qualidade estética e cultural. A Igreja de St. Mary do Dubai tem capacidade para dois mil fiéis e é ainda demasiado pequena. A do Catar, que se construiu quando era bispo nesse país, pode acolher 2700 pessoas sentadas. No Iémen, devido à guerra, as igrejas estão em grande medida ou parcialmente destruídas e não são lugares seguros para os fiéis. Neste momento, além disso, não há sacerdotes. Portanto, a vida comunitária dos poucos cristãos que estão no Iémen está suspensa. Há uma comunidade de religiosas da Madre Teresa que continua a trabalhar, a dar testemunho em Saná num modo verdadeiramente admirável.

monsPaulHinder1Foto: Paolo Moiola

Dom Hinder, o senhor aludiu ao Iémen, um país onde está em curso uma guerra muito sangrenta, ainda que ignorada pelos meios de comunicação internacionais. Do seu ponto de vista, como pode descrever a situação do país?

É muito difícil ter informações fiáveis daquela zona, por isso não sei de tudo o que se passa. Obviamente, ao telefone não se fala disso e mesmo os que vivem no país não conhecem bem a realidade. Existem zonas onde há a guerra e outras onde há uma paz relativa ou, pelo menos, sem guerra. Temos de considerar que o Iémen sempre esteve em conflito nas últimas décadas. Em 2015, o conflito complicou-se com a intervenção da Arábia Saudita e dos seus aliados. Uma intervenção que amplificou o conflito e que fez cair sobre os ombros da população iemenita esta contraposição com o Irão, apesar de este último não estar envolvido de forma directa.

Que fazer? Eu julgo que o problema essencial é a incapacidade de chegar a um compromisso: na cultura do mundo árabe, ou ganhas ou perdes. No caso do Iémen, penso que nenhuma das partes chegará à vitória. Considero, por isso, que é necessária uma solução que seja elaborada pelas Nações Unidas, se os grandes poderes quiserem. O problema é que até agora tem faltado essa vontade e deixam prosseguir a guerra. Os beligerantes não querem que seja conhecido aquilo que realmente acontece no país. Por esse motivo não é permitida a entrada aos jornalistas. Sabemos que há cerca de cinco milhões de crianças que estão em risco de morte por fome. As estruturas sanitárias estão parcialmente destruídas. Há refugiados no interior do país, mas são relativamente poucos os iemenitas que conseguem deixar o país. Uma “sorte” para a Europa que, por certo, não quer estas pessoas.

Falamos de uma guerra que diz respeito a milhões de pessoas.

Sim, o Iémen é um país extenso, com mais de 527 mil km². Conta mais ou menos com os mesmos habitantes que a Arábia Saudita [perto de 28 milhões, ndr], país que, no entanto, é muito maior em superfície.

Dom Paul, como é que se fala tanto da guerra na Síria e, pelo contrário, se fala tão pouco da do Iémen? Existe alguma razão particular?

Se há alguma razão particular, desconheço-a. A Síria é, decerto, culturalmente mais próxima de nós. Muitos conheceram-na enquanto turistas. Eu próprio, quando era conselheiro-geral dos Capuchinhos, frequentei muito a Síria. Além disso os poderes vêem a Síria como uma zona de conflito mais importante. Ainda que, a longo prazo, o Iémen não o será menos.

Voltemos à Arábia Saudita, o país mais importante da região. Pode-nos dizer alguma coisa sobre a situação actual deste país? As aberturas democráticas de que se falou são reais ou são apenas uma maquilhagem pensada pela monarquia?

Democráticas não é o termo adequado, porque esta é uma monarquia que toma as decisões de modo absoluto. Estamos a ter mudanças, mas – esta é a minha opinião – são só de fachada, até para dar a impressão, a nível internacional, de uma relativa abertura. O facto de as mulheres poderem conduzir foi considerado no Ocidente como um milagre. E é-o, mas não altera a vida da sociedade. Há mulheres sauditas que lutam por uma sociedade mais aberta que são metidas na prisão. Uma coisa que não podemos esquecer é que há um casamento entre wahabismo (que é a interpretação [sunita] mais severa do Islão) e a família Saud. É quase impossível que cheguem a um divórcio, caso contrário a Arábia Saudita, nas formas actuais, terá grandes problemas. Por isso não penso que o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, que parece ser o homem-forte, possa avançar demasiado depressa. Veremos o que acontece. Existem pequenas mudanças também em relação aos cristãos. O poder da polícia religiosa foi limitado. Já não são tão frequentes as sanções que se impunham antes. Pequenos passos que tornam um pouco menos problemática a vida dos cristãos. Mas seria errado pensar que as mudanças chegarão em breve. Como aconteceu nos tempos da Primavera Árabe, quando se pensou que no arco de alguns meses haveria democracia para todos. Não é possível. Dêmos tempo a estas realidades da península arábica (como de outras partes do mundo muçulmano) de desenvolver o seu sistema político.

Dom Hinder, o senhor acha que com o Islão seja possível dialogar?

Penso que sim e aliás não há outra escolha. Quando se chega ao conteúdo dos nossos diferentes credos, certamente há enormes problemas a ultrapassar, porque um diálogo requer competências que eu, por exemplo, não tenho, dado que não sou especialista em islamologia. Sou capaz de fazer um diálogo humano porque vivo nesta situação, tenho pessoas que conheço que podem debater sobre isto, mas não é um aprofundamento das posições ideológicas aquilo que posso fazer. Existem tentativas. Acima de tudo, é preciso o conhecimento próprio e do outro. E depois encontrar campos onde avançar juntos, como a pacificação, que é uma preocupação de todos. Haverá possibilidades no campo caritativo, onde existe uma certa colaboração e diálogo. Depois existe a maneira de encontrar o respeito pelo outro, respeitar a outra religião, apesar das fraquezas que nós vemos ou julgamos ver. O respeito recíproco pode ajudar a superar preconceitos e os elementos de conflitualidade. Quando eu conheço alguém na sua diversidade e o respeito, há menos risco de nos atacarmos fisicamente como aconteceu no passado.

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Corresponde à realidade que a maioria dos fiéis católicos provêm das larguíssimas filas dos imigrados neste país?

Temos de ser claros na terminologia: não são imigrados no sentido estrito, mas migrantes, pessoas que estão nestes países por tempo limitado. Disseram-nos isso os próprios governos. Não podem permanecer no país definitivamente nem ser cidadãos. Não existe possibilidade de naturalização, nem sequer para os que falam árabe. Entre esses existem alguns de classe média que podem permanecer praticamente toda a vida, mas que não serão naturalizados. Podem permanecer se puderem pagar a permanência temporária, concedida por dois ou três anos. Se depois alguém perde o trabalho, tem de se ir embora. Também a Igreja tem de ser muito cauta, porque não pode prometer aos seus sacerdotes que poderão ficar para sempre. Ser migrantes é a nossa sorte. Somos «uma igreja de migrantes para migrantes». Desde o bispo até ao último chegado ao Dubai ou a Abu Dhabi.

De onde provêm esses migrantes?

Pelo que diz respeito aos Emirados Árabes Unidos, vêm sobretudo das Filipinas e da Índia, mas também de outros países árabes (Síria, Líbano, Palestina) e da África, cada vez mais. Há também migrantes da Coreia e da América Latina. Em suma, de todo o mundo. Na nossa igreja temos mais de 100 nacionalidades diferentes.

Estas pessoas que profissões têm?

Há um pouco de tudo, mas em particular relacionadas com o sector da construção civil. Em 2020, no Dubai haverá a exposição mundial, em 2022 no Catar o campeonato mundial de futebol: há e haverá necessidade de muitos operários para os dois projectos mastodônticos. Vivem em zonas residenciais separadas. De manhã são levados em autocarros e regressam à noite. Estes não podem participar plenamente na vida paroquial ainda que façamos esforços para os ajudar um pouco. Por exemplo, organizamos à sexta-feira o transporte para a igreja. Depois há as empregadas domésticas, que são legalmente mais vulneráveis e menos protegidas, embora dependa muito dos empregadores. Há alguns que levam as suas trabalhadoras à missa, que depois esperam para as levar de volta. Outros, pelo contrário, tratam-nas como verdadeiras escravas.

Dom Hinder, após quinze anos na península arábica, como julga a sua experiência?

Tive dificuldade para aceitar a nomeação e fui para a Arábia com algumas reticências. Uma vez chegado, entreguei-me completamente ao trabalho pastoral, apesar de todos os problemas. Os fiéis deram-me alegria, pois não sendo uma Igreja perfeita é muito activa, empenhada, motivada. Isso ajudou-me a fortalecer-me como pessoa e como crente. Sinto-me feliz aqui, embora seja um mundo diferente que sempre me fará sentir um pouco estrangeiro. Mas aprendi muito desta cultura e não gostaria que me faltasse.

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