Reportagens
17 janeiro 2026

O Xinjiang (新疆) e o avanço dos Han

Tempo de leitura: 5 min
Cronologia essencial de Xinjiang entre 1949 e 2025. Esta cronologia é um complemento à grande reportagem do mesmo jornalista sobre a região autónoma chinesa de Xinjiang. Podes ler a reportagem completa na aplicação Combonianos Portugal. Se ainda não a baixaste, entra agora na Playstore e baixa-a.
Paolo Moiola
Jornalista
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1949, 1 de Outubro. Na sequência da vitória do Partido Comunista de Mao Tsé-tung na guerra civil, é proclamada a República Popular da China. No Xinjiang, encerram-se as breves experiências da «República Islâmica do Turquemenistão Oriental» (Caxigar) e da «República do Turquemenistão Oriental» (Ghulja).

1953. No primeiro censo, mais de 75% da população da região era composta por uigures, maioritariamente muçulmanos sunitas, enquanto os chineses de etnia Han representavam apenas 7%.

1955, 1 de Outubro. O Governo chinês cria a «Região Autónoma Uigure do Xinjiang» (Xinjiang Uyghur Autonomous Region, XUAR) e começa a incentivar a instalação de chineses Han na região.

Anos 1990. As acusações de discriminação e marginalização dos uigures por parte dos imigrantes han estão na origem de um crescente sentimento anti-han e independentista.

Anos 2000. A China acusa o Movimento Islâmico do Turquemenistão Oriental (Eastern Turkistan Islamic Movement, ETIM), um movimento separatista islâmico, de ser responsável pelos actos de violência. Pequim responde com uma combinação de repressão e investimento económico na região, sobretudo através das suas empresas estatais.

2009. Pequim lança um plano milionário — em inglês, Kashgar Dangerous House Reform — para demolir e reconstruir a Cidade Velha de Caxigar. A justificação oficial é o risco representado pelas casas antigas. A comunidade uigure e observadores internacionais acreditam que o objectivo real é apagar a identidade uigure e islâmica.

2009, 5 de Julho. Registam-se confrontos entre uigures e chineses Han em Urumqi, a principal cidade da região. A morte de 200 pessoas leva Pequim a enviar grande número de tropas. 

2013, 28 de Outubro. Cinco uigures, ao volante de um jipe com bandeiras jiadistas, entram na Praça Tiananmen, em Pequim, matando dois civis e ferindo mais de quarenta transeuntes.

2014. Em nome da segurança nacional e da luta contra o terrorismo, o Governo chinês adopta leis e políticas repressivas que, na prática, criminalizam qualquer expressão normal de identidade religiosa ou cultural. Em Janeiro, Ilham Tothi, economista e professor de etnia uigure, é condenado a prisão perpétua por separatismo.

2018, Agosto. O Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial debate a situação das minorias étnicas na China. Reconhecem-se progressos económicos, mas critica-se o tratamento da minoria uigure e muçulmana.

2019, Julho. Vinte e dois embaixadores da ONU enviam uma carta de protesto contra o tratamento dos uigures por parte da China. Poucos dias depois, trinta e sete outros embaixadores (incluindo os da Rússia e Coreia do Norte) respondem com uma carta de apoio a Pequim.

2022, Maio. Pela primeira vez em dezassete anos, a alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, visita a China e o Xinjiang (Caxigar e Urumqi).

2022, 31 de Agosto.  É publicado o relatório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, segundo o qual as políticas chinesas no Xinjiang podem constituir crimes contra a humanidade. A China responde com um contra-relatório intitulado «Combater o terrorismo e o extremismo no Xinjiang: a verdade e os factos».

2024, Janeiro. O Gabinete de Informação do Conselho de Estado da China divulga o enquadramento jurídico das suas medidas antiterrorismo, com destaque para a situação no Xinjiang. 

2025, 1 de Outubro. Peritos das Nações Unidas manifestam séria preocupação com a crescente criminalização dos Uigures e de outras minorias na China, citando os casos do artista Yashar (Yaxia’er Xiaohelaiti) e da antropóloga Rahile Dawut, condenada a prisão perpétua em 2023 por atentado à segurança do Estado.

2025, 1 de Outubro. Assinala-se o 70.0 aniversário da criação da Região Autónoma Uigure do Xinjiang (1955-2025). «Nestes 70 anos», escrevem com grande ênfase os meios de comunicação chineses, «o Xinjiang registou mudanças extraordinárias.»

2025, 9 de Novembro. O Congresso Mundial Uigure denuncia a deportação de uma mulher uigure, Rizwangul Bekri, da Alemanha para a China.

2025, 12 de Novembro. Aproveitando-se de uma polémica entre Donald Trump e a BBC, um editorial do Global Times ataca a televisão pública britânica pelas suas reportagens sobre o Xinjiang. Repressão e trabalhos forçados — escreve o jornal oficial — são apenas invenções jornalísticas para denegrir a China.

Paolo Moiola

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EDIÇÃO
Janeiro 2026 - nº 764
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