Reportagens
01 abril 2019

Debre Libanos (Etiópia): Cidade do Abba

Tempo de leitura: 10 min
Cerca de 700 etíopes desalojados sobrevivem graças ao empenho de um sacerdote ortodoxo em redor do Mosteiro de Debre Libanos. A iniciativa do abba Kefyalew sobressai pelo escasso compromisso da sua Igreja com os menos favorecidos.
Xaquín López
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O grande vale do Rift é um desfiladeiro de quase 5000 quilómetros que fractura o Corno de África de norte a sul. Ao cruzar a Etiópia, abraça o mosteiro ortodoxo de Debre Libanos, do século xiii, situado 100 quilómetros a norte da capital, Adis-Abeba. Conta a tradição ortodoxa que, numa gruta próxima do cenóbio, o abade Libanos orou durante sete anos. Milhares de etíopes acorrem cada ano a este lugar porque acreditam que, se tomarem banho na cascata próxima do templo, o abade lhes tirará o demónio do corpo. É tal esta devoção na Etiópia, que centenas de anciãos, dos milhares de peregrinos que acorrem ali cada mês, decidiam ficar a viver mal nas imediações do mosteiro o resto dos seus dias. Instalavam acampamentos improvisados em redor das grades que protegem o santuário. Era como uma legião de guardiães custódios do grande segredo do lugar. Viam-se obrigados a permanecer nas proximidades do templo porque não havia um sítio melhor para eles em toda a Etiópia.

Há cerca de vinte anos, chegou a Debre Libanos um jovem empresário, residente na cidade de Harar, com problemas de diabetes. A água da cascata operou o milagre e o empresário peregrino converteu-se em abba, que é o nome que dão aos sacerdotes ortodoxos na Etiópia. O seu primeiro destino pastoral foi Adis-Abeba e, logo que pôde, ao fim de um ano, regressou ao lugar onde se havia iluminado a sua fé.

Não foi o remédio físico para a sua doença o que mudou a vida do sacerdote, foi algo mais real: centenas de pessoas, a maioria de idade avançada, acampavam perto do mosteiro sem outro sustento que não fossem as esmolas dos peregrinos. A Igreja ortodoxa não sobressai pelos seus programas de pendor social, mas o abba Kefyalew decidiu fazer algo. Num terreno próximo, não longe da plataforma do Rift, construiu com as suas mãos, e as de uns quantos seguidores, um rudimentar barracão com beliches. Os primeiros peregrinos-desalojados de Debre Libanos já tinham um lugar digno onde abrigar-se. Pouco a pouco, o improvisado acampamento em redor de Debre Libanos foi-se transferindo e crescendo a poucos quilómetros de distância, na fronteira natural que impõe o Rift.

O sonho foi-se consolidando em paralelo com a ambição redentora do abba. Actualmente, o complexo, ou Casa de Acolhimento, como gosta de lhe chamar Kefyalew, conta com dezenas de pavilhões distribuídos de forma anárquica por um terreno íngreme de dimensões semelhantes às de dois campos de futebol. Cada estrato social tem o seu lugar: anciãos sem regresso; crianças desamparadas; mulheres viúvas ou abandonadas; homens com graves problemas mentais. Mais uma das múltiplas legiões de seres humanos que na Etiópia ficam abandonadas ao seu trágico destino.

 

Actividade sem descanso

O que primeiro surpreende ao chegar à Casa de Acolhimento é a actividade frenética dos seguidores do abba: parece que toda a gente tem alguma coisa que fazer em pleno sol, às primeiras horas da manhã. Entre tanta lufa-lufa, pode apreciar-se algo semelhante a um projecto urbanístico: uma fiada de construções térreas a cada lado desenha um rectângulo feito a olho. À sombra de uma palmeira cresce uma montanha de escombros e a poucos metros amontoam-se ladrilhos de adobe para as numerosas obras em curso. No centro do recinto, há um amplo pátio aberto multiúsos: estender a roupa entre baloiços; plantar uma horta de que ninguém parece cuidar; um grupo de homens pela pimentos vermelhos secos, enquanto algumas mulheres lavam roupa a uma esquina e uma criança sorridente não perde pitada do alto de um escorrega enferrujado.

A cozinha do complexo prepara centenas de doses de comida todos os dias. A meio da manhã, os fogões estão em pleno rendimento. Duas mulheres estão junto às placas de cerâmica circulares onde preparam a injera. A tradicional torta de pão confeccionada com farinha fermentada de teff1, o cereal endémico das planícies etíopes, que é a base da alimentação local.

Perguntamos pelo abba e toda a gente parece conhecê-lo, mas ninguém dá pistas fiáveis sobre o seu paradeiro. Depois de algum tempo a percorrer as instalações, aproxima-se um homem dos seus 30 anos bem vestido e anuncia-nos que está a oficiar o funeral de um sacerdote, numa aldeia próxima. «Ao meio-dia estará de volta e vai atendê-los com todo o gosto», sentencia com uma careta de complacência.

Ao meio-dia, um grupo de umas 50 pessoas, a maioria idosos e mulheres mais jovens, entra a pé pela porta principal, sempre aberta. «São peregrinos que acabam de se purificar na água da nascente e de fazer as suas orações no templo», comenta para nós um dos guardiães da entrada.

 

Partilhar em silêncio

Numa questão de minutos, começam a pôr bancos de madeira debaixo de uma acácia e cadeiras trazidas não se sabe de onde. Não há correrias nem gritos. Ninguém se impacienta. Dá a impressão de que têm vindo a cumprir esta tarefa todos os dias. De seguida, chegam pares de homens com grandes caçarolas tapadas com tecidos. Tiram a injera, pedaços de frango, molhos de aspecto sugestivo e cores vivas. A comida campestre é tão simples como amigável a forma como partilham o pouco que têm.

Nesse momento aparece o abba. Tem 53 anos e uma aura de misticismo própria da sua condição religiosa e caritativa. Saúda todos porque todos querem aproximar-se dele para lhe beijar a mão. Os seus ajudantes tentam pôr ordem, mas ele esforça-se para atender a todos com um breve sorriso, enquanto tira uma cruz de madeira de um bolso e a oferece aos beijos dos peregrinos.

Valendo-me de um guia, faço-lhe uma pergunta a que tenta esquivar-se. «Como está a Etiópia?» «Não respondo a perguntas políticas», afirma. Afino a pergunta: «O que mudou ou melhorou no país nos últimos anos?» Parece murmurar a resposta durante dois, três, dez segundos e responde: «O Governo está a conseguir bons resultados na agricultura, mas o país continua afundado na pobreza.» Não há opção por mais perguntas. O abba despede-se com um gesto amável e perde-se entre um grupo de afins que formam o seu séquito.

Um dos seus ajudantes conta que vai visitar o pavilhão psiquiátrico. Trata-se de um pátio ao ar livre, com celas a um lado, onde dormem a sesta uma trintena de homens e mulheres. Na aparência, são doentes mentais pelo olhar perdido, os rasgos angulosos da desnutrição, as roupas coçadas e a abstracção de que não está em vida... Mas há um rasgo que denuncia a condição de alguns: dos tornozelos de um jovem pende uma bracelete metálica e uma corrente amarrada a uma argola na parede; outro está deitado no meio do pátio, exposto ao sol, com as mãos nas costas, atadas com uma corda. «Alguns tornam-se violentos e temos de os atar», conta um vigilante, enquanto o séquito do sacerdote percorre o pátio. No pavilhão estão à volta de quarenta doentes. O orçamento dá para uma refeição diária e pouco mais. Os programas de saúde mental, num dos países mais pobres do mundo, são hoje em dia uma quimera.

Conta a tradição que o abade Libanos foi o primeiro monge da Igreja Ortodoxa Etíope. Segundo a lenda, tocava com o seu bastão nas rochas e delas manava água. O abba Kefyalew é um sacerdote ortodoxo pragmático porque vê a cada dia que passa o rosto da fome e a tragédia humana. Não usa bastão, mas quem se assoma ao seu olhar compreende logo que neste país dos descendentes da rainha de Sabá faz falta muito mais do que milagres para redimir da miséria a espécie humana.

 

Notas

1 No Ocidente rico, hoje em dia considerado um superalimento, pois é rico em proteína, que constitui 12 % a 14 % da sua composição, e contém oito aminoácidos essenciais para o organismo que os outros cereais não produzem.

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EDIÇÃO
Julho-Agosto 2019 - nº 693
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