Reportagens
03 abril 2019

Filipinas: Alimentar os sem-abrigo

Tempo de leitura: 7 min
Augusto e Imelda são um casal que se dedica a alimentar as pessoas sem-abrigo e sem alimento de Quezon City, nas Filipinas. Uma história inspiradora, que ilustra como a fé ilumina a vida e promove a acção em favor dos mais desfavorecidos.
Santosh Digal
Jornalista
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O versículo da Bíblia que inspira Augusto Romero e a sua esposa Imelda, encontra-se no Evangelho de S. Mateus: «Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes a tua mão esquerda saber o que faz a direita. Para que a tua obra de caridade fique em segredo: e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará» (6, 3-4). São estas palavras de Jesus, uma máxima de vida, que motivam e guiam este casal católico da paróquia da Sagrada Família na diocese de Cubao, nas Filipinas.

Durante os últimos cinco anos, este casal tem estado a alimentar os numerosos sem-abrigo que vivem na sua cidade. E quase ninguém – vizinhos, familiares ou amigos – sabe o que estão a fazer. «Não o divulgamos nem presumimos deste humilde serviço», afirma Imelda. «É uma expressão da nossa fé, ou podemos dizer que pomos a fé em acção de uma maneira simples», acrescenta.

«Num dos sermões que escutei há uns anos, o pregador dizia que cada um de nós pode ajudar as outras pessoas dando-lhes alguma coisa que necessitem», afirma Augusto, um engenheiro mecânico reformado de 68 anos de idade.

 

Inspirados por Dolphy

As palavras de Jesus e o que disse o sacerdote naquele sermão tocaram profundamente este casal, que sentiu que já estava na hora de actuar em concordância com a fé cristã. Assim, decidiram começar a servir alimentos aos pobres que vivem nas ruas, pessoas pobres e sem-abrigo. No momento de decidir, Augusto e Imelda foram inspirados por duas pessoas. A primeira delas é o filipino Rodolfo Vera Quizón, que já faleceu. Foi comediante, actor de cinema, teatro e rádio e era conhecido popularmente como Dolphy, «o rei da comédia». Cada vez que saía de casa, Dolphy levava embalagens de sanduíches que distribuía pelos pobres que encontrava nas ruas.

«Pensámos em fazer o mesmo no nosso bairro, a região de Kamias Road, onde há muitas pessoas sem-abrigo e que necessitam de se alimentar», recorda Augusto.

Ao início, preparavam em casa cinquenta embalagens de comida, um prato de arroz e carne, e distribuíam-nos uma vez ao mês. Depois, passaram a fazer esse serviço três vezes ao mês e, posteriormente, uma vez por semana. Agora, o casal ajuda as pessoas mais desfavorecidas do bairro três vezes por semana.

 

Influência do Papa Francisco

A outra pessoa que inspira Augusto e Imelda é o Papa Francisco. Desde que começou o seu pontificado, o Santo Padre tem falado sem cessar sobre os pobres, os seus direitos e dignidade. Instituiu mesmo a Jornada Mundial dos Pobres. No passado 18 de Novembro, na missa que celebrou na Basílica de São Pedro, em Roma, à qual assistiram seis mil pessoas, entre sem-abrigo, indigentes, imigrantes, além de voluntários e representantes das associações que lhes prestam diariamente assistência, o papa disse que «o clamor dos pobres é diariamente cada vez mais forte, mas a cada dia menos escutado, já que é dominado pelo barulho de alguns ricos, que são cada vez menos, mas mais ricos». E pediu «a graça para ouvir o grito de quem vive em águas tumultuosas», sublinhando que «é o grito dos muitos Lázaros que choram, enquanto um punhado de ricos se banqueteiam com aquilo que justamente pertence a todos». E Francisco perguntou aos presentes na celebração e a todos os baptizados: «Vejamos o que sucede em cada uma das nossas jornadas: entre tantas coisas, fazemos alguma gratuitamente, fazemos alguma coisa àqueles que não têm como corresponder?»

Estes apelos e desafios de Francisco tocam fundo no coração deste casal filipino. «Foram as meditações e palavras do papa sobre os pobres e o compromisso com eles que nos tocaram e mudaram as nossas vidas», afirma o casal filipino.

Quando lhes perguntamos como preparam os alimentos que vão distribuir, Augusto diz-nos que ele vai comprar os alimentos no dia anterior. Na manhã seguinte, preparam os pratos com a ajuda de uma senhora e vão distribuí-los perto do meio-dia. De modo organizado, mas com simplicidade, Augusto e a esposa usam o seu carro para percorrer as ruas e entregar as embalagens de comida aos necessitados que as desejam receber.

 

Melhor dar que receber

«Quanto mais esforço pomos no que fazemos, mais satisfação temos», afirma Augusto ao recordar as palavras de Jesus citadas nos Actos dos Apóstolos: «Há maior felicidade em dar que em receber» (Act 20, 35).

Augusto afirma que nunca distribuíram sobras ou alimentos fora de prazo. «Cozinhamos os alimentos frescos e repartimo-los. As pessoas que vivem nas ruas, passando muitas necessidades, recebem-nos e agradecem-nos. A nossa comunicação e interacção com essas pessoas é limitada. Um gesto, um sorriso, umas palavras. Já nos reconhecem pelo carro que utilizo quando vou visitá-los nessas ruas mais afastadas, onde permanecem normalmente os sem-abrigo», sublinha.

Quando lhe perguntamos sobre as motivações que os levam a realizar este trabalho, a resposta é concisa e clara: «A alimentação é algo básico para todas as pessoas. Os sem-abrigo percorrem as ruas à procura de comida. Quando não conseguem nada que levar à boca, vão dormir com fome. Se isto sucede com frequência, perdem as forças e a capacidade para sobreviver nas ruas.»

Este engenheiro reformado não se considera uma pessoa abastada. «Não somos ricos, mas Deus provê as nossas necessidades. Podemos viver com o que temos e partilhar um pouco com os mais necessitados. Continuaremos a alimentar os nossos irmãos e irmãs que vivem nas ruas enquanto as nossas forças o permitirem. Quando já não pudermos fazê-lo nós mesmos, procuraremos outras pessoas que nos ajudem. Por agora, continuamos com esta tarefa com amor e paixão, sem fazer muito barulho ou procurando que nos reconheçam», insiste Augusto.

Augusto foi professor e, posteriormente, integrou durante muitos anos a equipa de engenheiros da estação de tratamento de águas de Balara, em Quezon City. Agora está reformado e, por isso, tem tempo livre e pode ajudar os mais pobres «a seu modo». «Cada vez que passo nas ruas da cidade, a minha atenção dirige-se aos sem-abrigo, pessoas que vivem na rua por opção ou por necessidade, e compreendo profundamente a situação em que se encontram. Com a graça de Deus, procuro seguir os ditames do meu coração, iluminados pela minha fé cristã», conclui Augusto em tom reflexivo.

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