Aventura da Fé
10 maio 2019

Ovelhas que enfrentam lobos

Tempo de leitura: 3 min
Os lobos são bastante temidos por quem cria gado. Com fome, eles atacam e matam, deixando um rasto de destruição.
Maria Mendonça
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Nos arredores de Nazaré, onde Jesus cresceu, a maior parte dos agricultores possuíam pequenos talhões de terra, que, contudo, não lhes garantiam o sustento. Para sobreviver, precisavam de trabalhar como assalariados para os grandes proprietários da região e, claro, eram mais do que explorados.

Matilde começa por relatar ao seu grupo a tristeza que Jesus sentiria cada vez que, na sua adolescência, andava por essas paragens e via a miséria em que viviam os camponeses, apelidados de amha’aretz, ou seja, «gentalha ignorante», quase «não-gente». Por isso, quando iniciou a sua vida pública, comovia-Se sempre que Se encontrava com essa população.

– Desembarcando do outro lado do mar da Galileia, as entranhas de Jesus revolvem-se, porque vê aquela imensa multidão, que anda como «ovelhas sem pastor» (Mc 6, 34), umas ovelhas desprezadas, cansadas, entregues à própria sorte, sem guia, expostas a todos os perigos (Mt 9, 35-36) – prossegue a catequista. – Até aqui tudo bem, é fácil de perceber... mas não é que Jesus, quando envia os seus discípulos a esse povo, recomenda-lhes que sejam como ovelhas no meio de lobos?! – espicaça Matilde.

– Lá vamos nós entrar no «mundo ao contrário» de Jesus... – adivinha a astuta Cristina.

– Mas não fica por aqui – alfineta a catequista. – São Mateus (Mt 10, 16) conta que Jesus adverte: «Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas.»

– É o fim das instituições! – reage Filipe.

– Mas... não é uma contradição?! – admira-se Joel.

– Jesus atribui a seres humanos ações e qualidades que são de animais.– deduz Inês.

É preciso sabedoria para o entender.

Matilde esclarece:

– Naturalmente que o objetivo de Jesus não é mandar os seus discípulos para um campo onde serão mortos. O que está aqui implícito é a oposição do Mestre à prática que vigorava do olho por olho, dente por dente; e à teoria do filósofo grego Heraclito (séculos vi ou v a. C.), que defendia que «a guerra é a origem de tudo» e à norma da política imperial romana: «Se queres a paz, prepara-te para a guerra.» Jesus vem, através da sua pedagogia, treinar as tais “ovelhas” para a prática da não-violência com sabedoria... sabedoria: ser o melhor no pensar, sentir e agir.

  

Pensa nisto

Se aprendes a situar os Evangelhos no respetivo contexto histórico, político, social e psicológico, descobres como aplicá-lo ao teu tempo.

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