Sala de convívio
16 julho 2022

Profissões de outrora

Tempo de leitura: 1 min
Os deita-gatos, juntamente com os amoladores, latoeiros, limpa-chaminés, eram uma espécie de figuras dickensianas.
Hélder Guégués
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Dantes havia por essa província fora — eu ainda me lembro de os ver pelas ruas — deita-gatos. Agora os meus pequenos leitores ficam a pensar se não seriam senhores que andavam pelas ruas, quais amas-secas, para ir deitar os gatos. Uma espécie de recolher obrigatório felino. Não, nada disso. Apesar de se viver então num regime autoritário, pelo menos os gatos eram livres. Provavelmente, até mais livres do que hoje em dia.

Estes deita-gatos eram senhores, que por vezes também amolavam tesouras e faziam outros pequenos serviços num regime ambulante, de porta em porta, que consertavam louça, sobretudo de barro e de porcelana, quebrada por meio de gatos de arame — uns pedacinhos de arame com que se consertava louça partida. Dado que nessa altura o plástico ainda não nos tinha invadido, não havia quem não tivesse uma peça de barro ou de loiça feitas em cacos ou rachada a precisar de gatos. Juntamente com os amoladores, latoeiros, limpa-chaminés, eram uma espécie de figuras dickensianas, mas sem a dimensão poética filtrada pela literatura. Era miséria a valer.

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EDIÇÃO
Julho 2022 - nº 609
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