Sala de convívio
10 abril 2020

Uma fotografia especial

Tempo de leitura: 3 min
Este mês de abril, faz um ano que o ser humano conseguiu captar pela primeira vez uma fotografia de um buraco negro.
Miguel Pinto Monteiro e João Martins
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Numa definição simplista, um buraco negro é uma zona do espaço-tempo em que a força gravitacional é de tal modo elevada, que nem mesmo luz lhe escapa: engole tudo quanto dele se aproxima. A explicação destes fenómenos complexos por quem não domina a matéria, como é o meu caso, soa sempre a improviso e não deve alongar-se em demasia. De modo que o buraco negro é apenas o pretexto, e não o objeto destas linhas.

Este mês de abril, faz um ano que o ser humano conseguiu captar pela primeira vez uma fotografia de um buraco negro. Repare-se bem na dificuldade desta tarefa: trata-se de algo invisível que fica a cerca de cinco milhões de anos-luz da Terra. Mesmo sabendo que se trata de um enorme buraco, esta aventura cósmica situava-se, à partida, para lá do limite do realizável.

A fotografia em causa correu mundo, nos jornais, na internet, etc. Esteve por todo o lado. Mas a parte mais interessante, porventura mais espetacular do que a imagem e do que as distâncias incomensuráveis, são os sonhos, as fórmulas e, enfim, o projeto que deu origem a esta pequena fotografia (o Event Horizon Telescope). Tudo começou há cerca de cem anos, com a teoria da relatividade geral de Einstein. Seguiram-se centenas, quiçá milhares, de artigos e teorizações à volta dos buracos negros, das suas propriedades, não faltando quem duvidasse da sua existência. Já com a segunda década do século XXI bem avançada, um grupo alargado de cientistas e engenheiros idealizou a possibilidade de fotografar um buraco negro. Para tirar tal fotografia, seria necessário um telescópio do tamanho da Terra. Não sendo este um caminho possível, ponderou-se então utilizar vários telescópios localizados em diversos pontos da Terra, realizando depois, por computador, por meio de um algoritmo, a conciliação dos dados captados por cada telescópio, de modo que se obtivesse, como resultado final, a fotografia impossível. Foi necessária muita coordenação, colaboração, diria, até, solidariedade entre os vários cientistas, para que esta imagem chegasse até nós.

A história da primeira fotografia de um buraco negro há de ser contada e festejada por muitos anos, mesmo quando as viagens interestelares nos levarem por esse Universo. A imagem naquela fotografia dissipar-se-á, brilhando antes e com mais intensidade o símbolo e a lição deste momento: os seres humanos, cooperando, em vez de competirem, partilhando, em vez de esconderem, poderão desfazer, porventura eliminar, os limites do impossível.

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EDIÇÃO
Setembro 2020 - nº 588
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