Sala de convívio
19 março 2021

Como se fabrica um pai?

Tempo de leitura: 3 min
No ateliê do Céu, reuniram-se os mais distintos arquitetos, os mais afamados engenheiros e os melhores operários celestiais. O projeto era fabricar o pai perfeito.
Anthony de Mello
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– Deve ser forte – sugeriu um.

– Também doce – acrescentou outro.

– Deve ter firmeza e mansidão. Tem de saber dar bons conselhos. Deve ser justo quando tomar decisões, alegre e compreensivo nos momentos de ternura – comentou um terceiro.

– Como se pode pôr tantas coisas num só corpo? – perguntou um operário.

– É fácil – respondeu um engenheiro. – Só precisamos de criar um homem com a força do ferro e que tenha um coração de rebuçado.

Todos se riram da proposta. Nesse momento, ouviu-se uma voz. Era o Mestre, o dono do ateliê do Céu.

– Vejo que, finalmente, começaram – comentou a sorrir. – A tarefa não é fácil, bem sei, mas não é impossível, se puserdes nela vontade e amor.

Então, tomando nas suas mãos um punhado de terra, começou a dar-lhe forma.

– Terra? – perguntou, surpreendido, um dos arquitetos. – Pensei que o fabricaríamos de mármore ou pedras preciosas!

– A terra é necessária para que seja humilde – retorquiu o Mestre. Em seguida, estendeu a mão, colheu ouro das estrelas e juntou-o à massa.

– Isto é para que, nas aflições, se ilumine e se mantenha firme.

Por fim, adicionou amor e sabedoria. Então, deu-lhe forma e soprou-lhe o seu alento. O boneco de barro ganhou vida. Faltava-lhe, porém, algo. No seu peito permanecia um buraco.

– O que porá aí? – quis saber um operário.

O Mestre, abrindo o seu próprio peito, tirou o seu coração, arrancou-lhe um pedaço e pô-lo no centro do buraco.

– Porque fez tal coisa? – interrogou um anjo obreiro.

Ainda a sangrar, o Mestre respondeu:

– Isto fará que me procure nos momentos de angústia; que seja justo e reto; que perdoe e corrija com paciência; que esteja disposto a sacrificar-se pelos seus e que encaminhe os seus filhos com o seu exemplo. Porque, quando tiver terminado a sua tarefa de pai na terra, regressará para mim. Eu, extasiado com o seu bom trabalho, dar-lhe-ei um lugar aqui no Paraíso. Estender-lhe-ei a mão, descansará no meu peito e terá Vida Eterna. Pois Eu também sou Pai e por ele, pelo seu bem, para lhe dar a vida, arranquei do meu coração um pedaço de amor e o pus no seu peito. Fi-lo para que regresse a mim, guiado pelo sangue que derramei por ele na cruz, para lhe dar perdão, para lhe mostrar que, apesar da exigência e dureza de ser pai, quando estender os seus braços e perdoar, a recompensa é alegria, amor e vida eterna.

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EDIÇÃO
Setembro 2021 - nº 599
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