Sala de convívio
15 janeiro 2022

Crónicas verdes de um adolescente

Tempo de leitura: 3 min
Oriundo de uma família de agricultores, o Pedro Neves escreve crónicas sobre as suas experiências agrícolas.
Pedro Neves
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O meu nome é Pedro Neves. Tenho 15 anos e sou um aspirante a jovem escritor.

Desde pequeno, fui incentivado a ler a Audácia, que recebia mensalmente, principalmente as bandas desenhadas – como a história de Nélson Mandela e a de dois meninos que caminham para Santiago – e a parte das anedotas e adivinhas.

A Audácia fez parte da minha infância e contribui para a pessoa que sou hoje.

Pertenço a uma família agrícola em Vila do Conde que luta por mudar a imagem errada da agricultura que é transmitida às pessoas. As crónicas que escrevo sobre esta atividade falam das experiências agrícolas que tenho, tais como a convivência com animais, ensiladas, feiras, vegetais e muito mais. Acredito que escrevo de forma simples e divertida com a utilização de recursos expressivos que enriquecem os textos. Estou a trabalhar para publicar um livro de crónicas verdes de um adolescente.

Aqui fica a primeira crónica.

 

DOMINGO

Saio de casa e sou imediatamente abraçado pelo frio do inverno. Olho para o céu confuso entre o azul e o laranja, e sigo para a entrada do escritório da vacaria. O pouco tempo em que caminho ao ar livre da minha casa até à vacaria ajuda-me a refrescar e clarear um pouco a minha cabeça.

É só mais um final de um domingo. Entro no escritório da vacaria, tiro os sapatos, visto o fato de macaco, calço as botas, ponho as luvas e escondo o meu cabelo preto com um boné cor da pele.

Ligo ao meu pai para perceber se tinha algo de diferente para fazer. Esclarece-me que só tenho de cortar as cordas de um fardo de palha ralada com uma navalha.

Faço o percurso até ao outro lado da vacaria, perseguido por dezenas de olhos com a curiosidade de sempre. De vez em quando fazem «muuu», como se não estivessem a gostar do espetáculo.

Chego ao fardo de palha, abro a navalha e corto as cordas. Olho para o resultado e reparo que parece um pão de forma com as fatias cortadas e as primeiras já caídas.

Acabada a tarefa, guardo a navalha e vou para o meio das vacas.

Sempre tive gosto de andar no meio delas. São animais bem mais complexos do que simplesmente preto e branco.

Há já algum tempo que este ritual me sabe bem. Fui diagnosticado com depressão há pouco tempo. Vários pensamentos obscuros passam-me pela cabeça. Mas quando vejo que nas vacas também há manchas brancas sinto-me melhor e relaxado. Talvez por causa do calor animal.

Durante muitos dos meus poucos anos de vida pensei que me tornaria agricultor, mas com o passar do tempo percebi que não é muito do meu gosto. Apesar do carinho que tenho pelos animais, parece-me uma tarefa monótona.

Não sei ainda que profissão escolher, mas espero vir a saber um dia.

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EDIÇÃO
Janeiro 2022 - nº 603
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