
Fui profundamente tocada pelos cânticos suaves e solenes que se elevavam pelas abóbadas ogivais, vibravam nos vitrais coloridos que filtram a luz com delicadeza, percorriam as naves da catedral, deslizando pelas colunas esguias que parecem erguer-se até ao céu, como que prolongando as esculturas que contam histórias seculares... É difícil não sentir a presença da História e de Deus neste espaço sagrado que, mesmo apinhado dos mais profanos turistas das mais desvairadas proveniências, impressiona pela sua resistência a séculos de guerras, revoluções e, em 2019, a um incêndio devastador e quase fatal.
Entre os pormenores em que me perdi, um dos que mais me prendeu o olhar foi o tímpano românico, reaproveitado na fachada gótica, sobre o Portal de Santa Ana, à direita da entrada principal. (Mas, na verdade, os pormenores só se nos revelam olhando as fotografias que fizemos: a arte mediada...) Esculpido em meados do século xii, retrata Santa Ana, mãe da Virgem Maria, a segurar ao colo a filha ainda criança.
Mesmo que silenciosa ou ignorada, a arte guarda em si séculos de fé, beleza, dor e esperança da humanidade. Como lembrou o Papa Francisco, «a arte deve tornar percetível, e tanto quanto possível atraente, o mundo do espírito, do invisível, de Deus». E isto acontece ali.
