
As palavras são de Armando Possante, na apresentação da obra do Grupo Vocal Olisipo que, mesmo já tendo sido publicado há algum tempo, não deixa, tragicamente, de nos trazer uma música e uma reflexão actualíssima.
Este objecto não é só um disco: há uma intencionalidade na escolha dos compositores (Eurico Carrapatoso, Tiago Derriça, Anne Victorino d’Almeida), dos poemas e dos poetas (Arthur Rimbaud, Fernando Pessoa, Natália Correia, Guillaume Apolinaire); há uma expressão fotográfica e visual, criada por Tiago Figueiredo para afirmar que na guerra, “no fim, todos perdem”; e há um conjunto de pequenos-grandes textos dos diferentes autores, para nos traduzir o que já intuíamos na música, nas fotografias, nos poemas, na criação. Tudo isto significa também que não devemos reduzir a música ao consumo em plataformas digitais, onde a ouvimos adormecidos. Os discos dão-nos uma linguagem musical total, que falta quase sempre na linguagem plana do digital. Além de nos trazerem também o prazer estético que só se usufrui com os sentidos – escutar, ver, ler, tactear e passar as folhas, cheirar o papel...
O disco reúne três obras cuja história Armando Possante também conta na apresentação: um Te Deum em Louvor da Paz, de Carrapatoso, com quem o Olisipo já trabalhara há duas décadas (Magnificat em Talha Dourada, referido nesta secção); Três Poemas de Fernando Pessoa (entre os quais O Menino de Sua Mãe), de Tiago Derriça; e a Ode à Paz, de Anne Victorino d’Almeida.
Há uma intencionalidade clara nestas criações: esta música oferece-nos um projecto «de amor pela paz, pela vida, pela arte, pela música, pela amizade» (Armando Possante) contra a «perda humana que resulta da frivolidade da guerra» (Tiago Derriça).

A música vinca a «nota plangente pelo sofrimento humano», como diz Eurico Carrapatoso, que criou um extraordinário Te Deum que coloca em diálogo o piano de Tiago Bentes do Rosário com as vozes e o texto de louvor litúrgico. Mas a música faz-nos atravessar também fios de luz e de esperança. Desde logo, pela resistência que surge da contemplação de cada «menino de sua mãe» que «jaz morto e arrefece», por causa de políticos sem escrúpulos; mas também «Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza/ Pelas aves que voam no olhar de uma criança» de que Natália fala na Ode à Paz.
À medida que se ouve o disco aprende-se a gostar, gosta-se cada vez da música, da sua estética e também da ética que ela nos propõe. Uma obra obrigatória, «uma pequenina luz bruxuleante e muda», como no poema de Jorge de Sena, mas uma luz portentosa, nestes tempos sombrios que nos atormentam.
