
As grandes mudanças preparam-se. Num dos episódios da série Os Escolhidos (The Chosen) sobre o Sermão da Montanha, os produtores e argumentistas dão a entender que Jesus preparou bem um ensinamento que sabia ser transformativo por ir ao encontro do coração de cada pessoa, tocando cada um naquilo que lhe é mais íntimo. Não me custa muito imaginar que Jesus se preparasse bem em passos fundacionais do seu ministério. E também nós devíamos fazer o mesmo.
A falta de empatia e de responsabilidade neste mundo aumenta a um passo galopante e preocupante. Até ao momento em que a impunidade dos actos dos outros for sentida pela nossa pele, pouco nos importa as consequências dos seus actos. A invasão da Ucrânia, da Palestina, da Venezuela e as intenções, ainda sem actos, da Gronelândia, indignam e entristecem. Reflectem uma séria falta de preparação humana da parte dos responsáveis políticos.
Cada cristão, sem excepções, tem a responsabilidade de se tornar o «sal da terra» e a «luz do mundo» com a sua vida e testemunho de amor que une com palavras sensatas e gestos concretos, os corações distraídos deste mundo. A preparação de Jesus nos momentos marcantes revestia-se de confiança no Pai do Céu, mas também de momentos de solitude, oração, numa incessante procura por um equilíbrio entre a vida interior e a exterior. Os ambientes digitais que habitamos têm diminuído substancialmente esses espaços. É urgente recuperá-los. Mas como?
Dois outros aspectos bem retratados na série Os Escolhidos é o conhecimento natural das Escrituras (Torá) e a natural persistência da oração quotidiana. É como se fosse um mundo que convive naturalmente com a presença de um Deus-Pai que escuta tudo, todos e a todo o momento. Falar de Deus parece tão natural quanto falar de um acontecimento do dia-a-dia. Nesta normalidade não vejo qualquer banalidade, mas uma perene profundidade. Os Judeus não estavam preparados para abdicar das leis e preceitos, e isso impedia muitos corações de acolher a novidade da Boa Nova. Haverá nesta naturalidade uma inspiração para despertar o coração do sono de entretenimento digital ininterrupto? Eu pensava que a leitura atenta e a oração constante seriam suficientes para manter um coração bem preparado para aquilo que Deus quiser criar de novo através da nossa vida em doação, mas não era isso que faziam os fariseus? Porém, quando penso em Jesus, dou-me conta de um ingrediente fundamental para uma boa preparação da mente e do coração. Parece-me que se revela naquele «vinde e vede» (Jo 1, 39). É como se Jesus dissesse: «Sede curiosos.» E ao chamar-nos à genuína curiosidade, é como se Jesus dissesse: «Preparai-vos bem.»
A curiosidade talvez seja o que garante ao adulto manter em si o ritmo de um coração de criança. Por muito que nos custe, não é viver em bolhas de opiniões concordantes que mantemos viva a nossa curiosidade porque, assim, raramente questionamos aquilo que pensamos. Questionar com sinceridade não é o mesmo que semear a desunião, mas confiar no valor de uma boa preparação para a abertura do coração ao permanente renovar da Criação.
