
Actualmente, sou responsável pela Paróquia Cristo Misionero del Padre, em Chorrillos, na periferia sul de Lima, Peru, que completou trinta anos no último mês de Novembro. Tanto para os padres José Leyton e Ibercio Rojas, com quem formo comunidade, como para mim, é uma bênção partilhar a nossa vida com o povo santo e fiel de Deus que vive no território paroquial, onde residem mais de 100 mil pessoas.
Sentimo-nos herdeiros de uma tradição comboniana fecunda, porque aqui deixaram a sua marca muitos missionários da congregação. A paróquia segue um plano pastoral conjunto que nos ajuda a superar a improvisação, o imediatismo e a falta de horizonte no trabalho.
Todos – sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, leigos e leigas – estamos envolvidos num caminho de comunhão e participação com sentido missionário. Aqui vemos também realizado o sonho de São Daniel Comboni de dar protagonismo aos leigos, fazendo com que não sejam apenas simples receptores da evangelização, mas parte activa.
Cada uma das treze comunidades cristãs que compõem a paróquia tem dois conselhos, o económico e o pastoral. Sem receio de me enganar, posso dizer que são pequenas paróquias dentro da paróquia, nas quais os sacerdotes somos «conselheiros espirituais» que acompanham. Sinto que este é o verbo-chave da nossa presença. Acompanhar nas alegrias e nas tristezas, manifestando com palavras e gestos concretos de proximidade e ternura que o Deus da Vida é realmente um Deus connosco, um Deus amigo, um Deus em quem podemos confiar, porque Ele só procura a nossa felicidade.
O ritmo do dia é marcado pela atenção às necessidades do nosso povo: visitas aos doentes, acompanhamento às pessoas que choram a morte de um ente querido ou, nos tempos litúrgicos fortes, visitas às escolas.
A acção social manifesta-se através de obras concretas. Temos 24 refeitórios comunitários e populares, uma farmácia paroquial, o centro de fisioterapia e terapia ocupacional para crianças e adultos, o serviço de reforço escolar para alunos de baixos recursos económicos, o serviço de psicologia, a ajuda fraterna a famílias em extrema pobreza, além de outras actividades realizadas para adultos. Acompanhar os responsáveis paroquiais pela acção social é realmente uma bênção.
Outro momento central do nosso dia é o atendimento no cartório paroquial. As pessoas vêm para se confessar ou simplesmente em busca de conselho ou de uma palavra de esperança. Também chegam agentes pastorais para coordenar actividades e pessoas de instituições com as quais colaboramos.
Concluímos o Jubileu da Esperança, durante o qual fomos convidados a ser peregrinos da esperança e a levá-la aos cantos mais necessitados do nosso território, às periferias existenciais e geográficas de que tanto falava o querido Papa Francisco. O Peru precisa de muita esperança. Vivemos tempos difíceis e talvez nunca se tenha percebido como agora a insegurança no país. Há uma mistura explosiva. Por um lado, com o aumento da criminalidade é muito perigoso sair à rua ou andar de transportes urbanos. Por outro lado, há a corrupção, mesmo nas instituições que deveriam zelar pelo bem-estar e pela segurança dos cidadãos. As pessoas, especialmente os jovens, sentem uma forte opressão e, quando saem à rua para manifestar o seu desejo de viver em paz, são reprimidas pela polícia.
Como o país está dividido e polarizado, ficamos felizes em saber que o Papa Leão XIV está a pensar visitar o Peru este ano. O povo considera-o «um dos seus» porque, embora não tenha nascido aqui, viveu boa parte da sua vida sacerdotal e missionária, levando a luz do Evangelho aos lugares mais remotos do país. Ele ama este povo, a ponto de ter obtido a cidadania peruana.
Desde Outubro sou capelão da prisão feminina de segurança máxima, que está localizada no nosso município. O meu serviço não consiste apenas em celebrar a Eucaristia ou confessar, mas, acima de tudo, em ouvir, consolar, aconselhar e ser reflexo do amor misericordioso do Pai, que «não nos trata de acordo com os nossos pecados», porque «é ternura e compaixão, lento para a ira e cheio de amor».
Experimento que, às vezes, a única forma de falar de Deus é calar-se e dar um abraço cheio de ternura e esperança.
