Igreja
19 março 2026

Evangelizar com esperança

Tempo de leitura: 6 min
A irmã Fernanda Cristinelli, missionária comboniana, encontra-se em Moroto, Uganda. Numa região muito pobre e bastante marginalizada, em que mais de 80% da população é analfabeta, promove a formação integral, sobretudo de mulheres e crianças.
Fernanda Cristinelli
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Estamos conscientes de que no Uganda, como em muitos outros países do mundo, as mulheres são fortemente discriminadas. Na família, como na sociedade, elas têm muito pouco peso, embora tudo recaia sobre os seus ombros: são elas que trabalham no campo, constroem as aldeias, sustentam a família. Por isso, trabalhamos por elas em iniciativas que as apoiam. Uma delas é a Women Desk, que é o gabinete diocesano para a promoção da mulher. Lá promovemos programas de sensibilização sobre a sua dignidade e sobre os direitos da mulher que são garantidos pela Constituição e pelas leis do país.

Além desta presença em Moroto, iniciámos outro tipo de actividades de formação nas zonas rurais, uma semana por mês. Juntamente com alguns colaboradores, deslocamo-nos por várias paróquias da diocese e oferecemos acompanhamento no caminho da fé, alfabetização, cursos de agricultura, economia doméstica, direitos humanos e higiene, entre outros.

No final da sua formação, as jovens são convidadas a participar em actividades geradoras de rendimento nas suas aldeias e em projectos de microcrédito promovidos pelo Gabinete da Mulher e pelas comunidades locais das Missionárias Combonianas, em cooperação com as autoridades regionais. Graças a estas iniciativas, as jovens podem iniciar actividades relacionadas com o comércio, o artesanato e a pecuária. Desta forma, elas adquirem estabilidade económica, confiança em si mesmas e auto-estima. Algumas também empreendem o caminho para a liderança local.

Paralelamente a estes programas, o Gabinete da Mulher, em colaboração com as congregações religiosas, as autoridades locais e a polícia, lançou um programa de intervenção para ajudar tantas mulheres vítimas de violência, abuso sexual e casamentos forçados.

Para ajudá-las, foram criadas equipas de voluntários em vários locais da diocese, foi aberto um centro de acolhimento e foi lançada uma campanha maciça de sensibilização através de programas de rádio e reuniões nas aldeias. Infelizmente, a violência contra as mulheres é um fenómeno generalizado e aceite. Poucos percebem a dor e os danos que ela causa, e mudar a mentalidade das pessoas não é tarefa fácil.

 

Proteger as crianças

Mas aqui o trabalho nunca falta e as situações provocam-nos a tentar dar resposta ao que vemos. Por isso, há já alguns anos que lutamos também contra o tráfico de crianças em Campala. É impressionante ver a quantidade de crianças pequenas que são obrigadas a mendigar nas ruas da capital durante todo o dia e ainda por cima vigiadas por grupos de mulheres. À noite, elas são levadas para um bairro-de-lata onde vivem em condições terríveis. São verdadeiras máfias bem organizadas e estruturadas.

Essas crianças, na sua grande maioria, vêm de uma zona da região de Karamoja: às vezes são os seus pais e parentes que as trazem para a cidade para explorá-las economicamente, outras vezes os pais são enganados para que confiem os seus filhos a parentes ou amigos que vivem em Campala, que iniciam as crianças na mendicância.

É comovente ver estas crianças, algumas com apenas dois anos, estendendo as suas mãozinhas o dia inteiro a pedir esmola, sentadas em calçadas empoeiradas. Há também meninas de apenas 10 a 12 anos que têm de carregar um bebé nos ombros.

Com o apoio da diocese de Moroto, abrimos uma pequena creche na capital para acolher as crianças, pelo menos durante algumas horas por dia. Lá, elas são cuidadas com carinho por uma equipa de religiosas e leigos. Fazemos o possível para devolver às crianças a serenidade da infância, tentar que elas frequentem a escola, devolvê-las às suas famílias (se possível) ou colocá-las em algum programa de acolhimento. O grande problema é convencer os adultos de Karamoja a pôr fim a esta terrível exploração. Alguns, após muito tempo de persuasão, aceitam deixar de utilizar as crianças como fonte de rendimento e confiam-nas a nós. Outros, porém, continuam com o seu tráfico. E todos os dias há novas crianças nas ruas.

 

Desafios e esperanças

São realidades difíceis nas quais nos envolvemos onde o nosso carisma missionário nos impele, enquanto nos deparamos todos os dias com a beleza deste país maravilhoso, com a generosidade de tantas pessoas, com o empenho dos voluntários, dos cristãos, com a solidariedade entre igrejas e grupos, daqueles que acreditam e trabalham por um mundo melhor.

O Reino de Deus assemelha-se a um grão de mostarda. No Gabinete da Mulher, acreditamos que o nosso pequeno trabalho faz e fará crescer uma árvore onde se pode encontrar descanso porque é hospitaleira, digna e onde todos e cada um podem encontrar um lugar acolhedor no mundo.

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EDIÇÃO
Março 2026 - nº 766
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