Igreja
24 setembro 2026

Uma viagem através do nevoeiro de Inverno

Tempo de leitura: 5 min
O primeiro missionário comboniano vietnamita, o P. Peter Nguyen, iniciou o seu percurso vocacional silenciosamente na sua paróquia, alimentado pelo amor da família e pelo serviço à comunidade. O seu caminho foi marcado pela dúvida e pelo discernimento, culminando no seu «sim» ao chamamento de Deus.
P. Peter Van Tien
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Se me perguntasses: «Quando é que percebeste pela primeira vez que tinhas um chamamento de Deus?» ou «Como é que a tua vocação começou?», para ser honesto, não tenho uma explicação clara e perfeita de como ou quando é que Deus me chamou pela primeira vez. Certamente, não houve uma voz alta vinda do céu, nem um relâmpago repentino de luz. Mas quando olho para trás, para a minha infância, algumas memórias lindas vêm-me sempre à mente.

Lembro-me de ser menino, sentado nos bancos da igreja, a ver os sacerdotes celebrar a Santa Missa. Pensava para comigo mesmo que queria tornar-me como eles, embora nem sequer compreendesse o que significava a palavra «vocação».

Além disso, não percorri este caminho sozinho. Deus colocou-me numa família que, com carinho, alimentou a minha vocação desde o início. Em casa, vendo os meus pais e os meus irmãos a sacrificarem-se uns pelos outros, aprendi o verdadeiro significado do amor e da paciência. Ao mesmo tempo, fui abençoado por crescer numa comunidade paroquial muito devota, onde durante vários anos servi na Igreja como membro do coro. Servir a minha comunidade de maneiras tão silenciosas e humildes regou a pequena semente da minha vocação.

 

Dilema

Contudo, os anos passavam e comecei a universidade, que foi o período mais difícil da minha vida. De repente, o mundo parecia tão barulhento, que me encontrei num dilema. Perguntei a Deus e a mim mesmo: o que devo fazer com a minha vida? Devo escolher viver a vida religiosa ou casar-me?

Queria desesperadamente um sinal claro. Queria que Deus me desse uma resposta imediata para que pudesse sentir-me seguro, mas a resposta não veio dessa forma. No entanto, à medida que o último dia da licenciatura se aproximava, percebi que não podia continuar a questionar-me para sempre, por isso tive de fazer uma escolha. Embora ainda estivesse cheio de dúvidas e não estivesse inteiramente convencido do plano de Deus para mim, deixei de tentar forçar uma resposta e simplesmente ouvi o meu coração. No fundo, o meu coração preferia a vida religiosa a outras opções. Assim, com um coração trémulo, mas cheio de esperança, escolhi ser missionário.

Quando reflicto sobre aqueles dias difíceis de tomada de decisão, uma imagem vem-me de repente à mente: o denso nevoeiro de uma fria manhã de Inverno. Quando estamos no meio de um nevoeiro cerrado, não conseguimos ver com clareza o caminho à nossa frente. A única maneira de o atravessar é ser corajoso, confiando nos nossos pés e nos nossos olhos, e dando um passo em frente rumo ao desconhecido. É só depois de darmos esse passo que a parte seguinte do caminho se revela, pouco a pouco.

O meu percurso vocacional tem sido exactamente como esse caminho no meio do nevoeiro de Inverno. Deus nunca me mostrou todo o meu futuro de uma só vez. Em vez disso, apenas me pede que confie n’Ele para o passo em que estou agora mesmo. E cada vez que tive a coragem suficiente para Lhe dizer «Sim», Ele abriu horizontes belos e vastos que eu nunca teria podido sonhar sozinho. Assim, quanto mais tempo caminho por este percurso, menos me preocupo com a pergunta: «Qual é o meu chamamento?» Em vez disso, o meu coração importa-se muito mais com esta pergunta: «Estou a seguir Deus hoje?»

 

O primeiro vietnamita

Hoje, estou a viver o meu sonho como missionário comboniano. Como sou o primeiro missionário comboniano vietnamita, dizem-me: «Tens de ser um exemplo para os outros.» Ouvir isso faz-me sentir muito humilde, e estou tão grato a Deus por me ter deixado ser o primeiro. No entanto, ser o primeiro missionário comboniano vietnamita não traz grande orgulho, porque, no fim de contas, ser comboniano não se trata de ser «o primeiro» ou de ser conhecido. Trata-se simplesmente de ter um coração de servo e de levar o maravilhoso amor e a Boa Nova de Deus aos povos.

Quando olho para trás, para o meu percurso vocacional, os meus olhos enchem-se de lágrimas de gratidão. Estes anos são puros dons da graça de Deus. Deus chamou-me para que eu pudesse viver a minha vida dentro do Seu amor.

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EDIÇÃO
Setembro 2026 - nº 771
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