Igreja
17 outubro 2022

Francisco vira-se para o “Oriente”

Tempo de leitura: 29 min
São da Ásia-Oceânia 22% dos 83 bispos a quem o Papa Francisco entregou o anel de sinete e o barrete vermelho desde o início do seu pontificado. E serão eles a maioria dos 132 eleitores entre os 227 membros do Colégio de Cardeais que, num conclave, escolherão o próximo chefe da Igreja Católica.
Margarida Santos Lopes
Jornalista
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(© Lusa)

 

Dos 16 purpurados eleitores apresentados no último consistório, em Agosto, seis são de uma região que já tem 31 cardeais em 18 países, do Bangladesh ao Tonga. O que mais surpreendeu alguns dos analistas não foi sequer o número – o maior, em comparação com quatro da Europa, três da América Latina e Caraíbas, dois da África Subsariana e um da América do Norte –, mas sim os lugares de onde vieram. Vejamos quem são os seis e as suas comunidades.

 

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Giorgio Marengo

Não é fácil a missão de Giorgio Marengo, arcebispo de Ulan Bator, capital da Mongólia, um país da Ásia Central fronteiriço com a China, onde as temperaturas nos longos invernos, de Setembro a Abril, são muitas vezes de 40ºC negativos, e onde os seus 1300-1500 fiéis são uma minúscula minoria entre mais de três milhões de habitantes, metade dos quais segue o Budismo Tibetano e outra metade não tem religião.

Ser escolhido pelo Papa Francisco para, aos 48 anos, se tornar o mais jovem membro (eleitor) do Conselho de Cardeais, foi primeiro “uma surpresa” e depois “o sentimento de que o Santo Padre se preocupa, admira e reconhece uma Igreja em minoria absoluta, em contexto de marginalidade e pequenez”, afirmou Marengo.  

Nascido em Cuneo, uma comuna da região de Piemonte, no Norte de Itália, Marengo é missionário da Consolata desde 2000, depois de estudos em Filosofia e um doutoramento em Missiologia em Roma. Foi ordenado sacerdote em 2001 e é prefeito apostólico desde 2020, sucessor do filipino Wenceslau Padilla, o primeiro bispo, que serviu durante duas décadas.

A política do Império Mongol no que toca às religiões sempre foi a de “promover a tolerância”, característica já demonstrada pelo anterior império Kara Khitai (1131-1218), lembra Timothy May, historiador do Império Mongol, sobre o qual escreveu seis livros, um deles uma enciclopédia. “No início do séc. XI, contactos entre mercadores e missionários facilitaram a conversão da [tribo] Kereit, na Mongólia Central, ao Cristianismo Nestoriano ou Igreja do Oriente. Em 1009, numa carta enviada ao patriarca da Igreja do Oriente, em Bagdad, os Kereit pediam padres e diáconos para os baptizarem. “Não há números exactos, mas crê-se que 20.000 Kereit se converteram – um exemplo seguido pelos Naiman, Merkit e Onggut.”

Todas estas tribos viriam a integrar o Estado Mongol unificado por Gengis Cã em 1206, e muitas princesas e rainhas da linhagem daquele guerreiro continuaram a praticar os rituais da Igreja do Oriente, refere May. Porque os nestorianos, apesar de não serem uma maioria, assumiram papéis importantes no aparelho administrativo do império, as suas esposas cristãs eram vistas pelo papa como “o caminho para converter o Cã”.

Predominantemente xamanistas, os Mongóis não tinham um cânone religioso nem uma mitologia específica. Valorizavam apenas questões espirituais com impacto na vida mundana. Para eles, não existia salvação da alma, excepto quando “a alma era roubada por um espírito maligno”. É certo que veneravam alguns deuses, como Koke Mongke Tenggeri (O Eterno Céu Azul), mas estes eram divindades distantes. Como salienta Timothy May, “um Cã na Terra seria sempre um Cã no Céu”.

Se eram tolerantes com outras crenças – poupavam as estruturas religiosas dos territórios que invadiam, não se intrometiam em disputas religiosas, não impunham os seus valores espirituais e até pediam aos povos subjugados que rezassem por eles –, os Mongóis também traçaram uma “linha vermelha”: ninguém podia “ameaçar a estabilidade e a supremacia do seu império”.

No Séc. XIII, depois de vários esforços fracassados para atrair os Mongóis, o Papa Inocêncio IV reconheceu que “era necessária alguma flexibilidade”: em 1245, emitiu uma bula papal que concedia aos missionários privilégios especiais para facilitar conversões rápidas, designadamente “o direito de ouvir confissões em toda a parte (e não só em terreno sagrado), de absolver os excomungados e de dispensar os convertidos de várias irregularidades nos rituais”, explica May. Ou seja, o papa encorajou “não apenas uma aculturação selectiva, em que os Mongóis e outros poderiam adoptar o Cristianismo, mas também a manutenção da sua própria cultura”. A lista do papa visava “18 diferentes grupos étnicos e seitas religiosas”.

Seja como for, os missionários não exerceram grande influência sobre os Mongóis, que não apreciavam o seu “complexo de superioridade ocidental” e, de um modo geral, “mantiveram-se leais aos seus fundamentos pagãos, mesmo entre que haviam incorporado a doutrina nestoriana”, segundo Timothy May.

“O optimismo renasceu com a divisão do Império Mongol”, quando o Ilcanato da Pérsia, “em busca de aliados contra os Estados muçulmanos que o cercavam”, decidiu contactar Roma”, revela May. “Em 1274, enviados do Ilcã Abaqa levantaram o primeiro obstáculo ao firmarem uma aliança e receberem o baptismo. Ao fazê-lo, estes diplomatas já não eram infiéis e podiam negociar em nome de Abaqa.”

Determinado a converter os Mongóis, o papa ofereceu-lhes como contrapartida uma aliança militar, incluindo uma ofensiva contra os Mamelucos do Egipto, mas acabou por não cumprir as suas promessas, e os Mongóis perderam o incentivo da conversão. Se tal não impediu o envio de missionários que terão convertido “cerca de 30 mil indivíduos”, a maioria nestorianos e não-cristãos, o seu êxito “foi efémero, porque não conseguiram atrair para o clero ninguém das fileiras do império”.

Até à divisão deste império, conclui Timothy May, os Mongóis resistiram sempre à conversão porque acreditavam, segundo o seu conceito de Tengerismo ou Xamanismo, que tinham “o direito divino de conquistar o mundo”. Neste contexto, “por que haveriam eles de se converter, ao Cristianismo ou ao Islão, se todos adoram o mesmo Deus?” Essa era também a razão por que não perseguiam ninguém por motivos religiosos, além de que, em seu entender as religiões monoteístas “não lhes ofereciam ganhos estratégicos”.

Só quando a unidade mongol se desintegrou é que a religião começou a ter importância para os Cãs, “à medida que procuravam vantagens sobre os seus opositores”. Com os descendentes de Gengis Cã em guerra uns com os outros em vez de conquistarem o mundo, “muitos procuraram conforto na fé, primeiro por interesse próprio, depois por devoção sincera”.

Expulso nos anos 1300, o Catolicismo reapareceu na Mongólia em 1922, para voltar a falhar devido ao controlo soviético da região. Após a revolução de 1990, subsequente ao colapso da URSS, missionários católicos chegaram para reconstruir a Igreja “do zero”, anota Ray Cavanaugh, no site Catholic World Report. “As primeiras missas realizaram-se num hotel. A comunicação era difícil porque não havia católicos mongóis nem textos em mongol, nem missionários que falassem a língua” – o que já não acontece com o cardeal Marengo, que é fluente em mongol. O primeiro padre mongol, Joseph Enkh Baatar, foi ordenado em 2016 e o segundo em 2021. O Vaticano estabeleceu relações diplomáticas com Ulan Bator há 30 anos.

A Igreja, que conseguiu implantar-se na região ainda que com dimensão apenas para uma prefeitura apostólica, e não uma diocese, está ausente da maioria das províncias, as quais, à excepção de alguns centros urbanos, são das regiões mais escassamente povoadas do mundo. Mas está presente em escolas, bibliotecas, clínicas, centros de ajuda a alcoólicos [o país tem uma das maiores taxas de alcoolismo] e outros de apoio a crianças portadoras de deficiência. Segundo dados de 2017, não há seminários na Mongólia. Há seis igrejas, três em Ulan Bator, onde os serviços religiosos, em mongol, inglês ou coreano, são conduzidos por 33 padres e 44 freiras.

A vida entre os nómadas das estepes da Mongólia “não é para fracos”, diz o padre salesiano polaco Jaroslav Vracovsky, citado por Ray Cavanaugh. “Mas este é um dos melhores lugares para os missionários serem pastores, com o cheiro das verdadeiras ovelhas, partilhando a vida do seu rebanho.”

 

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Anthony Poola

Arcebispo de Hyderabad desde 2020, Anthony Poola, de 61 anos, é agora o primeiro cardeal Dalit – a mais marginalizada e oprimida casta na Índia, a que pertencem dois terços (65%) dos 18 milhões de católicos do país. É também o primeiro cardeal do povo dravídico Telugo, ou seja, mais de 75 milhões de pessoas que habitam os estados de Andhra Pradesh (onde ele nasceu, na aldeia de Chindhukur, distrito de Kurnool) e de Telangana.

Se hoje se evita o termo pejorativo “intocáveis” (resquício do colonialismo britânico) e se a discriminação com base no sistema de castas foi abolida pela Constituição indiana há mais de 70 anos, a realidade é que os Dalits continuam a ser perseguidos e relegados a trabalhos braçais, como constata o site católico Aleteia.

No dia 29 de maio, quando amigos em Itália o informaram de que, na Praça de São Pedro, o Papa Francisco o havia nomeado cardeal, Anthony Poola pensou que era uma “notícia falsa”, porque se via apenas como “um simples padre e missionário”. Quem o conhece descreve-o como “um cavalheiro culto, gentil e generoso com todos, com um amor especial pelos pobres”.

Formado no seminário indiano de Bangalore, Anthony Poola foi ordenado padre em 1992, servindo várias paróquias da diocese de Cuddapah até 2001. A sua vocação, disse ao website Vatican News, deve-a à generosidade dos missionários jesuítas que financiaram os seus estudos. “Eles cuidaram de mim, ajudaram-me a ir à escola e reconheceram o meu valor.” Em 2003, após concluir um mestrado em pastoral da saúde na Universidade de Loyola, em Chicago/EUA, o novo cardeal regressou à pátria para dirigir, durante quatro anos, a Fundação Cristã para as Crianças e os Idosos.

Em 2008, foi nomeado bispo de Kurnool, onde se manteve 12 anos. No mesmo período, foi presidente da Sociedade de Serviço Social de Andhra Pradesh. Foi ainda secretário-geral do Conselho de Bispos Católicos Telugo, de 2014 até 2020, ano em que Francisco o nomeou Bispo de Hyderabad, no vizinho estado de Telangana.

A elevação de Anthony Poola a “Príncipe da Igreja” é significativa porque há muito tempo que activistas exigiam a presença dos Dalits na hierarquia. No estado de Tamil Nadu, por exemplo, só uma das 18 dioceses tem um prelado Dalit. Dos 215 bispos da Índia, apenas 11 são Dalits, tal como são apenas dois entre 31 arcebispos.

 

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 (© Lusa)

 

Filipe Neri Ferrão

O arcebispo de Goa, colónia portuguesa durante quatro séculos e um estado indiano desde 1961, é o primeiro cardeal de uma arquidiocese com 265 anos. Presidente da Conferência Episcopal da Índia (CCBI, que representa o rito latino da Igreja Católica), Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, de 69 anos, é também membro da comissão central da Federação de Conferências Episcopais da Ásia.

Natural da aldeia goesa de Aldona, estudou num seminário em Poona, cidade do estado de Maharashtra, e foi ordenado padre diocesano em 1979. Formou-se em teologia bíblica, em Roma, e em teologia pastoral, na Bélgica. Em 1993, tornou-se bispo auxiliar de Goa e arcebispo de Goa e Damão em 2003, com o título, atribuído por João Paulo II, de “Patriarca das Índias Orientais”. Agora, além de arcebispo, será também cardeal-patriarca de Goa (mas não de Damão).

A elevação de Ferrão é significativa. A arquidiocese de Goa e Damão só teve o seu primeiro bispo goês em 1978, apesar de o antecessor, o açoriano José Vieira Alvernaz, que era arcebispo e cardeal-patriarca, ter saído do território em 1961 e resignado em 1975. 

Na Índia, que tem o maior número de cardeais na Ásia (seis, cinco deles eleitores), estão registados mais de 20 milhões de católicos (a maior igreja denominação cristã do país), constituindo cerca de 1,55% dos 1380 milhões de habitantes, de maioria hindu.  Das suas 174 dioceses, organizadas em 29 províncias eclesiásticas, 132 pertencem ao rito latino, 31 à Igreja Siro-Malabar e 11 à Igreja Ortodoxa Síria Malankara.

Goa, onde ainda se fala português, é o mais pequeno dos estados indianos, em território e o quarto menor em população (1,8 milhões), mas o mais rico em PIB per capita da Índia. Muitas das suas igrejas e conventos foram classificadas Património da Humanidade pela Unesco.

O Cristianismo entrou na Índia em 52 d.C. com o apóstolo Tomé que evangelizou a costa de Malabar. Os seus discípulos ficaram conhecidos como “Nasrani”, ou “Seguidor de Jesus de Nazaré”, na língua siríaca (dialecto do aramaico). No séc. XVI, com os portugueses, chegaram vagas de missionários que deram ao Catolicismo a forma que ainda hoje assume.

Promovida em 1557 a Sé Metropolitana das dioceses de Moçambique, Ormuz, Cochim, Melliapor, Malaca, Nanquim, Pequim (China) e Funay (Japão), Goa era considerada a “Roma do Oriente”. Além da evangelização, os portugueses investiram também na construção de escolas, liceus, institutos técnicos e profissionais. Hoje, com 25% de fiéis (os hindus, com 66%, são o maior grupo religioso), Goa mantém-se “o coração católico da Índia”.

 

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(© Lusa)

 

Wlliam Goh

Arcebispo de Singapura desde 2013, William Goh Sen Chye, 64 anos, é também o primeiro prelado de etnia chinesa entre os cardeais eleitores que serão chamados a escolher o sucessor de Francisco.

Ordenado padre em 1985, depois de estudos no seu país e em Roma, desempenhou vários cargos, designadamente os de reitor do Seminário Maior de Singapura, director do Centro Arquidiocesano de Espiritualidade Católica e presidente da Conferência de Bispos da Malásia, Singapura e Brunei (MSB) para o Apostolado do Mar.

Líder de uma comunidade de “mais de 373 mil” fiéis, apoiados por “160 padres em 32 paróquias, comissões, conselhos e outras organizações”, segundo a Catholic Foundation of Singapore, William Goh diz que a sua elevação ao Conselho de Cardeais reflecte “o papel pequeno, mas activo” que a sua igreja tem desempenhado num país onde os católicos permanecem uma minoria, embora “muito envolvida com as comunidades locais e imigrantes”.

Um recenseamento conduzido em 2020 indicou que 18,9% dos 5,6 milhões habitantes da cidade-Estado se identificam como cristãos – 37,1% dos quais católicos e 62,9% “outros” (sobretudo protestantes). Os católicos são muito participativos no campo da educação, com 51 escolas frequentadas por 45 mil alunos, “independentemente da raça, língua ou religião”. Todos os anos, “uma média de 80 jovens obtêm licenciaturas ou bacharelatos em Teologia”.

No campo social, a Arquidiocese de Singapura, que em 2021 comemorou 200 anos, gere 40 associações e outros grupos de caridade que beneficiam mais de 50 mil pessoas, católicas ou não. Entre os que usufruem desta assistência humanitária estão “mais de 4700 migrantes” e “mais de 7700 trabalhadores estrangeiros”, que recebem refeições e cursos de formação profissional gratuitos.

As origens do Cristianismo em Singapura remontam à presença portuguesa na Ásia, mais especificamente à diocese de Malaca, estabelecida logo após a conquista deste território por Afonso de Albuquerque, em 1511. Numa missa de acção de graças pela sua elevação, em 8 de setembro, o novo cardeal Goh lamentou “a polarização do mundo” e identificou a sua missão: “Se quisermos construir uma sociedade coesa, como igreja e comunidade, teremos de ser líderes na promoção da harmonia e da solidariedade entre todos os seres humanos”

 

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Virgílio do Carmo da Silva

Nascido há 54 anos em Venilale, que antigamente se chamava “Vila Viçosa”, uma povoação conhecida pelas cavernas construídas pelos invasores japoneses durante a II Guerra Mundial e que mais tarde serviriam de esconderijo aos guerrilheiros da Fretilin na luta contra os ocupantes indonésios, o arcebispo de Díli, Virgílio do Carmo Silva, nem queria acreditar quando, em 29 de Maio, recebeu um telefonema da Santa Sé informando-o de que seria o primeiro cardeal de Timor-Leste, nação que festejou recentemente duas décadas de independência e onde a Igreja Católica celebrou 500 anos de existência.

“Foi um presente de Deus”, congratulou-se, em entrevista ao site Vatican News, o prelado a quem os missionários Salesianos de Dom Bosco abriram as portas na adolescência, para ele estudar e onde descobriu a vocação sacerdotal. O novo cardeal concluiu os estudos em Manila (Filipinas); foi ordenado padre em 1998 após uma licenciatura em Roma; seria depois superior provincial dos salesianos em Timor-Leste e, em 2016, nomearam-no bispo de Díli.

Situado no Sudeste Asiático, Timor-Leste é, em termos de percentagem, “o maior país católico da Ásia”: 97% de fiéis versus 83% nas Filipinas. “Muitos acham que a prevalência do Catolicismo se deve ao seu passado de colónia portuguesa, mas quando Portugal se retirou, em Novembro de 1975, menos de 20% dos timorenses eram católicos”, explicam os investigadores Bernardo Brown e Michel Chambon num ensaio publicado na plataforma digital The Diplomat. “Foi só durante a brutal ocupação indonésia (1975-1999) que os timorenses se converteram em massa. Portanto, o Catolicismo em Timor-Leste não é um produto da colonização ocidental, mas algo mais recente e ligado às dinâmicas inter-asiáticas”.

O Catolicismo, adiantam Brown e Chambon, “ajudou a atrair a atenção internacional para a violenta colonização indonésia”. E, quando esta terminou com a independência, foi a fé católica que ajudou os timorenses a “reconciliarem-se com o inimigo”. Aos que tentam desvalorizar Timor-Leste como “uma ilha pequena e periférica”, Brown e Chambon relembram que o país “tem um território 20 vezes maior do que o de Singapura, e está localizado no nexo de importantes tensões geopolíticas, entre a Austrália e a China.”

O grande problema, reconhecido pelo novo cardeal, é que Timor-Leste se mantém um Estado onde, apesar da riqueza do petróleo e por causa da corrupção, a maioria dos seus 1,4 milhões de habitantes vive em pobreza extrema. O desemprego afecta 75% das pessoas com menos de 35 anos. Dependente da agricultura de subsistência, uma grande parte da população passa anualmente “uma época de fome”. Pelo menos 50% das crianças sofre de desnutrição. Em Díli e noutras cidades, faltam serviços básicos, como água potável, saneamento, saúde e educação (só metade dos habitantes é alfabetizada). A Covid-19 agravou ainda mais a situação. O cardeal Virgílio Silva promete que uma das suas prioridades será impedir que, em busca de um futuro melhor no estrangeiro, os jovens abandonem o país que precisa deles.

 

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Lazzaro You Heoung-sik

Arcebispo-bispo emérito de Daejeon, o recém-proclamado cardeal sul-coreano Lazzaro You Heoung-sik é prefeito do Dicastério do Clero, um dos postos-chave da Cúria Romana.

Nasceu em Nonsan, província de Chungcheongnan-do, em 1957. Ordenado padre em 1979, foi presidente da Comissão Justiça e Paz da Conferência Episcopal da Coreia. Também presidiu à Cáritas regional, que ajuda cerca de cinco milhões de pobres na Coreia do Norte, onde já esteve quatro vezes, convicto de que a reconciliação é possível na península dividida.

Igualmente escolhido por Francisco, a Coreia do Sul tem um segundo cardeal, Andrew Yeom-Soo-jung, arcebispo metropolitano emérito de Seul, membro dos dicastérios da Evangelização e do Clero, nascido em 1943, em Suwon, numa família de cinco gerações de católicos.

No país a que um imperador da dinastia Ming, fascinado com a serenidade da paisagem, deu o nome de “Terra da Manhã Calma”, o número de católicos mais do que duplicou nos últimos vinte anos: são hoje 5,8 milhões, ou 11% da população. A Igreja sul-coreana não foi criada por missionários, como aconteceu noutras regiões da Ásia. Foram coreanos que, inspirados pela doutrina cristã propagada na China, levaram a Bíblia para a Coreia.

“Os ensinamentos do Catolicismo desafiaram muitas normas sociais coreanas e a filosofia de Confúcio”, explicou à Além-Mar, numa recente entrevista, Kirsteen Kim, professora de Teologia e Cristianismo Global no Seminário Fuller, em Pasadena (Califórnia) e autora de A History of Korean Christianity. “O país abriu-se a uma prática ritual heterodoxa e à modernidade, sobretudo à promoção da língua coreana e à alfabetização para as mulheres e o cidadão comum.” Entre os primeiros cristãos estava Yi Seung-hun, baptizado por um jesuíta francês numa igreja de Pequim, em 1784. Quando regressou à pátria, Yi baptizou outros coreanos, e juntos formaram a primeira comunidade cristã local – um caso único no mundo, que precedeu o Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, promulgado pelo Papa Paulo VI em 1965.

Embora os primeiros cristãos fossem aristocratas, a Igreja rapidamente se abriu a todas as classes. O primeiro padre coreano foi Kim Dae-geon, conhecido como Santo André Kim, ordenado em 1845 em Xangai, após ter estudado num seminário em Macau, para onde foi aos 15 anos e onde ainda hoje se reza uma missa semanal em coreano em sua honra.

O preço a pagar pelas conversões na Coreia foi “uma severa perseguição, durante quase um século até aos anos 1870”, lembra Kirsteen Kim. Um dos primeiros perseguidos foi André Kim. Quando as autoridades descobriram que ele tinha em sua posse textos e imagens cristãos, e se preparava para fazer entrar no país sacerdotes franceses, foi preso e decapitado, em 1846. Alarmado com as notícias de incursões estrangeiras, o Governo intensificou a repressão em 1866: entre 8000 e dez mil pessoas, “metade da comunidade católica”, terão sido mortas.

André e outros 102 mártires foram canonizados por João Paulo II na sua visita à Coreia do Sul em 1984. Em 2014, quando esteve em Seul, também Francisco beatificou outros 124 mártires.

A Igreja Católica (sobretudo a dos EUA), adianta Kirsteen Kim, foi crucial no apoio ao líder sul-coreano Syngman Rhee (casado com uma católica) e à causa de uma Coreia do Sul separada do Norte. “No contexto de uma perceptível ameaça comunista global, a Santa Sé foi a primeira a reconhecer a nova república em 1948.”

Na década de 1980, a Igreja “desempenhou igualmente “um papel importante no movimento de democratização que pôs fim a 30 anos de poder militar”. O cardeal Kim Su-hwan, em particular, foi uma “figura destemida que desafiou o regime em nome dos oprimidos”.

Hoje, com uma “abundância de vocações” (10.170 freiras e 1560 frades), a Igreja assume um papel missionário global, enviando padres e irmãos para vários países, de Moçambique à Nova Zelândia. Este movimento contemporâneo “é o resultado da expansão da própria Igreja e do crescimento da economia”, avalia Kirsteen Kim. “A riqueza e elevados níveis de educação permitiram aos coreanos explorarem o mundo e deixar nele a sua marca.

A grande diáspora coreana (fruto de anos de conflito na península) facilita este movimento missionário. Desde os anos 1990 que o Vaticano tem encorajado a Coreia do Sul a afirmar-se como centro nevrálgico católico para a Ásia do Leste.”

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EDIÇÃO
Dezembro 2022 - nº 730
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