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17 novembro 2023

Pobreza zero: o futuro a construir

Tempo de leitura: 9 min
No dia 19, comemoramos o VII Dia Mundial dos Pobres. Na mensagem para a ocasião, o Papa Francisco convida-nos a nunca afastar o olhar dos pobres e a trabalhar para erradicar a pobreza. É esta atitude que podemos também observar na vida e na vocação de milhares de missionários espalhados pelo mundo.
P. Filipe Resende
Missionário comboniano
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Na mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2023, o Papa Francisco convidava «cada discípulo missionário a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à acção do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo».

O título desta reflexão, «pobreza zero: o futuro a construir», baseia-se no documentário da RTP sobre o estudo da pobreza em Portugal da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sugiro vivamente. Ao mesmo tempo, expressa a vontade explícita das nações do mundo em acreditar ser possível erradicar este gritante flagelo, que vai contra o plano de felicidade de Deus para a Humanidade.

Quero apresentar-te algumas destas testemunhas que são pão-partido para o mundo e que encontrei, recentemente, numa viagem que fiz ao Quénia. Definitivamente, estes missionários não afastam os seus olhares dos pobres!

O valor de «Mais Vida»

A Ana Walucho e a Georgina Muthoni são duas assistentes sociais a trabalhar no projecto Pro-Life («pró-vida» em português) na paróquia de Kariobangi, em Nairobi. Diariamente, acompanham jovens mães adolescentes nos bairros-de-lata da capital do Quénia. Todas elas têm em comum o terem engravidado ainda adolescentes e a frequentar a escola, tendo depois sido abandonadas pelo pai da criança e, quase sempre, também pelos familiares. Viram-se na rua, grávidas, impedidas de continuar os estudos, sem meios para poder levar para a frente a sua gravidez e a educação dos seus filhos. A tentação maior é abortar. Fazem-no clandestinamente pois o aborto no país é ilegal. Muitas acabam por não só matar os seus filhos, mas também elas morrerem, pois os abortos são efectuados sem condições médicas e higiénicas adequadas.

Para a Ana e a Georgina cada uma destas jovens tem nome, tem rosto. Elas põem-se na pele destas jovens e, além do apoio psicológico e emocional, através de parcerias com um hospital local e escolas profissionais, dão acompanhamento médico pré e pós-natal às adolescentes que optam por não abortar; ao mesmo tempo, recebem formação em trabalhos manuais como tapeçaria, cozinha, curso de cabeleireiro, de informática e ainda noções de como montar um pequeno negócio de venda de fruta na rua.

 

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O trabalho de prevenção de situações deste género é, ainda, acompanhado com formação para aprender a evitar a dependência de drogas, tantas vezes associadas a este tipo de vida nos bairros-de-lata onde vivem estes jovens.

O exemplo destas duas assistentes sociais mostra o que o papa sugere na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres deste ano (ver páginas 28-29): não delegar ou dar uns trocos (que tantas vezes é o que nos sobra na carteira!) para que outros «sujem as mãos na massa» para descargo da nossa consciência! É preciso, segundo o papa, olhar o pobre nos olhos e, se necessário, baixar-me para poder ajudar a levantar.

A escola como salvação da mutilação genital feminina

A relação entre a pobreza e a educação é complexa e de grande importância.

A pobreza pode ser um obstáculo significativo para o acesso à educação de qualidade e para o sucesso académico. Isto é tanto mais agravado quando as práticas culturais de povos impedem a criança-rapariga de desenvolver a sua dignidade e formação para a vida. É o caso do povo Pokot, no Noroeste do Quénia: a prática da mutilação genital feminina impede centenas de raparigas de ir à escola.

Com a ajuda de muitas instituições locais, internacionais e professores, os missionários a trabalhar neste local do país há cinquenta anos construíram e desenvolveram centenas de escolas primárias e algumas secundárias. Algumas delas exclusivamente dedicadas às meninas pokots. Desta forma, hoje, são milhares as mulheres pokots que completaram a escola primária, secundária e mesmo cursos universitários. Hoje são médicas, enfermeiras, professoras, assistentes sociais, técnicas de saúde… Desta forma, conhecem a realidade porque, como refere o Papa Francisco, «cada um deles é nosso próximo. Não importa a cor da pele, a condição social, a proveniência... Se sou pobre, posso reconhecer de verdade quem é o irmão que precisa de mim».

 

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A fragilidade não tem de ser estigma

Em Kariobangi, Nairobi, conheci o pessoal do projecto Comboni Health Programme, que, basicamente, é uma clínica de acompanhamento de pessoas com VIH que vivem nos bairros-de-lata de Korogocho e um centro de reabilitação para crianças com paralisias várias.

A Everline, o Curtis e a Irene são os responsáveis pelas dinâmicas diárias deste projecto. Aqui, cada pessoa, cada criança e a sua mãe são chamados pelo nome. Os mais de 700 utentes do projecto são visitados nas suas casas com apoio domiciliário. As suas realidades familiares são parte de todo o processo de acompanhamento. Também o missionário comboniano queniano padre Kevin, director do projecto, acompanha espiritualmente cada um dos utentes. A situação de fragilidade e de pobreza por falta de saúde torna-se assim mais leve e pode ser enfrentada por estas pessoas debilitadas com o VIH ou com as várias paralisias físicas e mentais. Nas palavras do Papa Francisco, isto é estar atentos tanto à necessidade material como à espiritual, facilitando assim a promoção integral da pessoa. Não voltam a cara a estas pessoas e crianças, elas representam muito mais que números… são rostos com vida, são o próprio Cristo!

Devolver a esperança do futuro

O Alex Ogola é apenas um das centenas de jovens resgatados da rua, dos gangues e cartéis da droga da maior lixeira da África de Leste: a lixeira de Dandorra, mesmo no coração do bairro-de-lata da paróquia de Kariobangi. O projecto chama-se Napenda Kuishi (em português, «Gosto de viver!»).

 

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A vida destes jovens estava condenada ao fracasso. A maioria provém de famílias destroçadas, famílias disfuncionais, pais na toxicodependência e no álcool, mães prostitutas…

Depois de um trabalho de reparação da dignidade pessoal por meio de terapia de desintoxicação das drogas, há um trabalho de reeducação e reintegração na sociedade. É um processo que dura três a quatro anos, mas no final estes jovens voltam a ser reintegrados na sociedade, recuperados na sua dignidade e capacitados com cursos de mecânica, electricidade, informática e carpintaria. São já oito os jovens que recentemente terminaram cursos universitários. Com estas aptidões laborais encontram o seu lugar e o seu sustento para levar uma vida honesta e digna depois da juventude na pobreza.

Poderiam ser muitos, muitos mais, os exemplos que aqui podia partilhar contigo. Com estes exemplos concordamos com o Papa Francisco quando afirma que «o Reino de Deus se torna presente e visível neste serviço generoso e gratuito; é realmente como a semente que caiu na boa terra da vida destas pessoas, e dá fruto (cf. Lc 8, 4-15). A gratidão a tantos voluntários deve fazer-se oração para que o seu testemunho possa ser fecundo.»

Como sublinha o Papa Francisco, «nesta casa que é o mundo, todos têm direito de ser iluminados pela caridade, ninguém pode ser privado dela». Estes exemplos ajudam-nos a perceber que a nossa vida e vocação é fazer crescer o Reino aqui e agora, de uma forma simples, mas transformadora. 

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Março 2024 - nº 744
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