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10 julho 2023

JMJ23: A certeza da esperança na fraternidade universal

Tempo de leitura: 8 min
Estes meses de Julho e Agosto vão ficar na memória de mais de um milhão de pessoas, muitas delas jovens, que participam na JMJ! Um encontro internacional onde se partilha a alegria e a amizade social, que o Papa Francisco também chama fraternidade universal.
P. Filipe Resende
Missionário comboniano
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(© JMJ Lisboa 2023)

 

São centenas de milhares de peregrinos estrangeiros que visitam nos últimos dias do mês de Julho várias dioceses portuguesas por ocasião da realização dos Dias nas Dioceses, mais popularmente chamado «Pré-Jornada Mundial da Juventude». A primeira semana de Agosto marca um encontro de jovens de cerca de 190 nacionalidades diferentes e dos cinco continentes.

Jovens: sejam construtores do diálogo, da amizade e da fraternidade universal

Este será um dos gritos mais fortes da JMJ Lisboa 2023! Este tema, tão querido ao Papa Francisco, será um dos conteúdos dos Encontros Rise UP, as chamadas catequeses da JMJ. O facto de tantos milhares de jovens que não se conheciam antes partilharem as suas vidas de uma forma tão simples, aberta e fraterna, mostra que o papa tem razão quando diz que para resolvermos os conflitos e as causas das divisões que existem na sociedade e no mundo só pode ser por meio do encontro desarmado, do diálogo aberto e despido de preconceitos. Os jovens, que nestes dias estão nas várias dioceses de Portugal e depois concentrados em Lisboa, mostram que só com estas atitudes é possível escapar das constantes polarizações e inimizades sociais que destroem tantas relações e sociedades.

O que é a fraternidade social e universal?

A fraternidade universal é um conceito que se refere à ideia de união e solidariedade entre todos os seres humanos, independentemente das suas diferenças culturais, religiosas, étnicas ou sociais. É uma visão que busca promover a paz, a harmonia e a cooperação entre todas as pessoas, valorizando a igualdade, a compaixão e o respeito mútuo. O Papa Francisco expressou este conceito na encíclica Fratelli Tutti.

A fraternidade universal baseia-se na premissa de que todos os seres humanos são parte de uma mesma família global e que partilhamos uma ligação fundamental uns com os outros. Ubuntu é um conceito africano que tem raízes na filosofia e nas tradições das culturas dos povos bantos e exemplifica bem o que é a fraternidade social.

O ubuntu pode ser traduzido aproximadamente como «eu sou porque nós somos». Esta filosofia enfatiza a ligação entre as pessoas e salienta a importância das relações sociais, da empatia e da solidariedade. Esta visão da fraternidade social transcende fronteiras geográficas e políticas, procurando promover a consciência da nossa interdependência e a responsabilidade que temos uns pelos outros e pelo planeta como um todo.

Na prática, a fraternidade universal pode manifestar-se em iniciativas de ajuda humanitária, projectos sociais, diálogos interculturais e inter-religiosos, além de esforços para promover a educação, a igualdade de direitos e a justiça social em todas as suas formas. A fraternidade universal é um chamamento para reconhecermos a nossa unidade e interdependência como seres humanos e, tal como o preconiza e se vive na JMJ Lisboa 2023, trabalharmos juntos em prol do bem-estar de todos, com base nos valores de amor, compaixão e respeito, valores radicados nos Evangelhos de Jesus Cristo.

 

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(© JMJ Lisboa 2023)

 

As ameaças à fraternidade social e universal

Há atitudes e comportamentos em cada um de nós que podem dificultar a promoção da fraternidade social. Assinalemos, brevemente, alguns.

O preconceito e a discriminação: o preconceito baseado em raça, religião, género, orientação sexual ou qualquer outra

Característica pessoal é prejudicial para a fraternidade social e universal. A discriminação marginaliza certos grupos e impede a construção de relacionamentos igualitários.

A intolerância e o ódio: a falta de tolerância em relação às opiniões, crenças e identidades dos outros, assim como o ódio e a hostilidade, são barreiras para a fraternidade social.

A desigualdade social: a existência de desigualdade económica, de oportunidades e de acesso a recursos essenciais, como educação e saúde, mina a fraternidade social.

O individualismo extremo: um individualismo excessivo, que põe os interesses pessoais acima dos interesses colectivos, pode prejudicar a fraternidade social.

A falta de diálogo e escuta: a falta de comunicação construtiva, a recusa em ouvir diferentes perspectivas e a falta de interesse em compreender os outros podem dificultar a fraternidade social.

A violência: a violência física, verbal ou emocional cria divisões e prejudica a fraternidade social. Particularmente hoje testemunhamos perseguição através das redes sociais ou cyberbullying.

Sem dúvida, é importante estar cientes desses obstáculos e trabalhar para os superar, promovendo a igualdade, o respeito e a compreensão mútua.

Os testemunhos dos milhões de jovens participantes nas catorze edições internacionais da JMJ anteriores provam que a JMJ promove a fraternidade social e universal.

JMJ promove a amizade social e edifica-a

Para promover a amizade social, existem várias acções que podemos realizar.

Cultivar a empatia: tentar compreender as experiências e perspectivas dos outros, colocando-nos no lugar deles. Isto ajuda a criar uma ligação emocional e a promover a compreensão mútua.

Ser inclusivos: procurar envolver pessoas de diferentes origens e culturas nas tuas actividades e conversas. Fomentar a cultura do encontro, sem excluir ninguém. Promover a diversidade e dar espaço para que todas as vozes sejam ouvidas.

Estar abertos ao diálogo: encorajemos conversas respeitosas e construtivas, mesmo quando há diferenças de opinião. Aproximemo-nos, ouçamos e conheçamos os outros, esforçando-nos pelo mútuo entendimento, procurando pontos de contacto, dialogando.

Participar em actividades comunitárias: envolver-nos em projectos ou eventos que reúnam pessoas da comunidade. Assim, teremos a oportunidade de conhecer novas pessoas e estabelecer amizades.

Promover a igualdade e a justiça social: ficar atentos às questões de desigualdade e injustiça na sociedade. Participemos em campanhas de investimento a favor dos mais frágeis. Abramos os olhos para ver as feridas de tantos irmãos privados da sua dignidade. Procuremos formas de contribuir para a criação de uma sociedade mais justa, onde todos tenham igualdade de oportunidades e sejam tratados com dignidade.

Ser gentis e generosos: pratiquemos actos de bondade no quotidiano. Reconheçamos a dignidade humana sempre em qualquer circunstância. Pequenos gestos, como sorrir, oferecer ajuda ou ser corteses com os outros, podem fazer uma grande diferença na construção de relacionamentos amigáveis.

Utilizar as redes sociais de forma positiva: aproveitemos as plataformas online para partilhar mensagens de incentivo, gratidão e apoio. Não disseminemos ódio, preconceito ou discórdia. Usemos as redes sociais como uma ferramenta para construir pontes entre as pessoas.

A construção da fraternidade universal é, portanto, um grande desafio.

São os jovens que estão mais preparados para recomeçar de novo. E é essa a experiência concreta que esta JMJ Lisboa 2023 proporciona aos participantes do maior encontro mundial da fraternidade. São várias centenas de milhares de jovens com culturas diversas, línguas diferentes e tradições sociais e religiosas díspares que, durante cerca de duas semanas, mostram ao mundo que o caminho para a construção de uma sociedade mais sustentável, mais acolhedora e mais fraterna é possível: viver e cultivar a amizade social construída no concreto das acções de cada dia. Uma boa JMJ Lisboa 2023. 

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Setembro 2023 - nº 738
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