
O Evangelho de Lucas apresenta Maria Madalena como aquela «da qual tinham saído sete demónios» (Lc 8,2). Este encontro com Jesus não é apenas um episódio isolado, mas o início de um caminho novo, marcado pela liberdade e pela gratidão, pelo reconhecimento. A sua vocação brota, assim, da experiência concreta de ter sido curada e que a conduz naturalmente ao seguimento fiel. Como já dissemos várias vezes, a nossa vocação nasce sempre de um encontro com o Senhor. Neste encontro, em que sentimos o amor verdadeiro, sincero e único de Jesus para connosco, somos interpelados a seguir Jesus e a ser testemunhas do Seu amor nas nossas vidas, onde quer que nos encontremos.
Maria Madalena integrou o grupo das mulheres que acompanhavam Jesus e os Doze, o que revela um dado significativo sobre a comunidade de discípulos: não era composta apenas por homens, mas incluía também mulheres com um papel activo e reconhecido. Assim o explicita Lucas: «Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens» (Lucas 8,1-3). A presença de Maria Madalena junto de Jesus consistiu numa participação concreta na missão, sustentando-a com os seus recursos e presença. Num contexto cultural em que o papel das mulheres era frequentemente secundarizado, Jesus acolhe, valoriza e integra as mulheres no seu círculo mais próximo e Maria Madalena torna-se um símbolo dessa inclusão, portadora da revelação e testemunha privilegiada da ressurreição.
A fidelidade de Maria Madalena a Jesus manifesta-se de forma particularmente intensa nos momentos mais difíceis da paixão e morte na cruz (cf. Jo 19,25). Maria Madalena permanece com o Senhor junto à cruz, mesmo quando Pedro nega conhecer Jesus, os discípulos fogem, todos se escondem com medo e não compreendem o que está a acontecer, Maria é fiel ao Senhor, acompanha-o no seu sofrimento e não o abandona. A fidelidade e coragem de Maria Madalena devem inspirar-nos a nós, cristãos dos dias de hoje, a não vacilar, a ser testemunhas fiéis do Evangelho, a nunca nos calarmos perante a guerra, a opressão, a injustiça. Como disse o Papa Leão XIV, «a minha mensagem é o Evangelho».
Após a morte de Jesus, Maria Madalena continua a demonstrar a sua fidelidade e coragem, pois é ela que, ainda de madrugada, se dirige ao sepulcro (cf. João 20,1).
O encontro com Jesus Ressuscitado constitui o ponto central da sua vocação. O texto do evangelho narra que, num primeiro momento, Maria Madalena não reconheceu Jesus e o confundiu com o jardineiro, mas, quando Ele a chamou pelo nome, os seus olhos se abriram e do fundo do coração saiu a exclamação «Mestre!» e se lançou aos pés de Cristo. Certamente ela terá querido permanecer muito tempo com Ele e escutá-lo como nos tempos passados, mas Jesus disse-lhe para não o reter e ir dizer aos discípulos que ia para o Pai (cf. Jo 20,17). Maria, então, correu e foi anunciar aos apóstolos que o Senhor havia ressuscitado. Madalena, escolhida por Jesus, tendo-o seguido desde o início da vida pública e tendo-o contemplado ressuscitado, tornou-se, como referiu São Tomás de Aquino, em «apóstola dos apóstolos».
A vocação missionária de Maria Madalena permanece actual e serve de inspiração a todos nós para, com coragem e fidelidade, vivermos e anunciarmos o Senhor em qualquer circunstância da nossa vida.
A exemplo de Maria Madalena possamos também nós testemunhar sempre com alegria e sem temor: «Vi o Senhor, vi a glória do Ressuscitado».
A irmã Vera Lúcia Rebelo Rocha, missionária comboniana, fez a sua consagração perpétua a Deus em Dezembro passado, dando o seu sim definitivo ao serviço da missão segundo o carisma de São Daniel Comboni. Partilha connosco a história do seu chamamento para a vida missionária.
«Pertenço à paróquia de Nossa Senhora da Conceição dos Olivais, Lisboa. A minha mãe faz parte da comunidade neocatecumenal e levava-me consigo às celebrações, foi a partir de lá que comecei a integrar-me na paróquia, sendo ministro da Eucaristia. A fé foi ganhando em mim alguma consistência, graças aos membros da comunidade com quem aprendi a rezar e a servir. Acredito firmemente que a minha vocação missionária nasceu no seio da paróquia, acarinhada pela comunidade neocatecumenal que me introduziu na missão sem fronteiras.
Um dia notei a presença das irmãs Missionárias Combonianas, cuja comunidade está integrada nesta paróquia. Procurei saber mais acerca do carisma e decidi iniciar o processo de formação requerido por este instituto feminino exclusivamente missionário.
A formação inicial contempla dois períodos de formação de dois anos cada um. Fiz, então, o postulantado em Granada, Espanha, e o Noviciado, em Quito, Equador. Estas etapas ajudaram-me a permanecer no caminho que dispõe à comunhão com Deus e com os irmãos, aprendendo a cultivar relações de gratuidade e de fraternidade.
Na completa disponibilidade e abertura ao amor de Deus e aos irmãos encontrei a verdadeira alegria e plena realização das minhas íntimas aspirações. Para mim é necessário escutar, discernir e viver na escuta da Palavra de Deus na vida concreta, aprendendo a ler os acontecimentos com olhos de fé e procurando abrir-me às surpresas do Espírito.
Descobri, ao longo do processo, que esta é a minha forma concreta de responder à predilecção de Deus que transforma a minha vida e me envia para lá de mim mesma e das minhas próprias raízes, para continuar a caminhar na Sua presença, descobrindo-O e amando-O nos rostos das pessoas que encontro pelo caminho e me falam ao coração. A profissão religiosa-missionária é somente isto: a entrega total de tudo o que sou e tenho para levar a alegria do Evangelho onde quer que eu esteja.
Em 2020, fui enviada em missão para o Sul do México. Lá acompanhei as pequenas comunidades católicas dos três grupos étnicos que vivem em harmonia e solidariedade na região: os povos afro-mexicanos, os indígenas e os mestiços.»
