
No dia 1 de Janeiro, celebramos o Dia Mundial da Paz. Na mensagem para a efeméride, Leão XIV retoma o apelo que fez logo depois de ser eleito bispo de Roma em Maio de 2025, apresentando a urgência de construir uma «paz desarmada e desarmante», com base nas palavras do Jesus Ressuscitado aos seus discípulos: «A paz esteja convosco.»
No texto, o papa lamenta que na lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, se façam «repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem». Medidas essas que são «apresentadas por muitos governantes com a justificação da perigosidade alheia». Para fundamentar esta reflexão, cita os dados referentes a 2024, ano em que as despesas militares mundiais aumentaram 9,4%, atingindo 2,72 biliões de dólares (cerca de 2,5% do PIB mundial).
O documento recupera os alertas de São João XXIII e do Concílio Vaticano II, há mais de sessenta anos, para condenar a lógica da «força dissuasora do poder» e, em particular, da «dissuasão nuclear», afirmando que esta «encarna a irracionalidade de uma relação entre povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força».
Um dos pontos centrais do texto é a denúncia dos novos perigos associados à tecnologia no campo militar, especialmente a aplicação da inteligência artificial, que, segundo o papa, «radicalizou a tragédia dos conflitos armados». Leão XIV adverte para um processo de «desresponsabilização dos líderes políticos e militares», criticando o crescente «delegar às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas». Uma situação que não duvida em classificar como «uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende». Nestas circunstâncias, «é preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direcção».
Como alternativa a esta dinâmica, Leão XIV aposta no «caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais». E o papa propõe, ainda, o desenvolvimento de «sociedades civis conscientes» e formas de associativismo que promovam a participação não-violenta.
Para a construção da paz, o papa valoriza o papel que as confissões religiosas desempenham. «Juntamente com a acção, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas.» E refere que hoje, mais do que nunca, «é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa».
E Leão XIV lembra-nos que antes de ser um objectivo, «a paz é uma presença e um caminho», que devemos trilhar no nosso quotidiano.
