Opinião
03 janeiro 2026

Ano Novo, Campos Novos

Tempo de leitura: 3 min
Confiemos que o novo ano seja repleto de oportunidades para estabelecermos campos novos.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Qual foi a revolução da visão do mundo que trouxe a teoria da relatividade de Albert Einstein? Antes dele havia a percepção dada pela lei da gravitação universal de Newton, uma lei de acção à distância, onde seriam os corpos que se atraíam uns aos outros através das suas massas. O espaço e o tempo eram absolutos. Mas Einstein compreendeu que o facto de o espaço e o tempo serem relativos não significa que tudo vale porque tudo é relativo, mas «relativos» implica que se encontram numa tal comunhão existencial que um não pode existir sem o outro, e se um se altera, o outro ajusta-se, de modo que o valor da velocidade da luz que ilumina se mantenha para todos. O espaço-tempo são relativos por serem uma coisa só.

Uma segunda ideia alterada pela teoria da relatividade é a de que não são os corpos que se atraem gravitacionalmente, mas os campos formados pela presença dos corpos que curvam o espaço-tempo manifestando-se numa acção gravitacional. É semelhante a esticar uma lona fina e elástica e colocar no centro uma bola de aço. A lona simula, de forma simplificada, o modo como o espaço se deforma na presença de massa. Esta ciência, por analogia, liga-se à vida mostrando como também na Natureza, mais do que haver relacionamentos entre entidades, existe uma realidade relacional emergente dos campos que cada entidade gera à sua volta. O campo gravitacional pertence ao domínio físico, mas poderíamos pensar na existência de campos pertencentes aos domínios da consciência e da espiritualidade.

No ano que passou, procurámos viver de forma especial e profunda um Jubileu da Esperança. Num mundo conturbado pelos conflitos, pela desinformação, pelo anestesiar das consciências e os espíritos entretidos pelos infinitos conteúdos criados em ambientes digitais, onde é cada vez mais difícil distinguir facto de ficção, a possibilidade de clareza oferecida pela experiência da Esperança tornou-se numa oportunidade de caminhar para uma vida plena. Os conflitos e ambientes digitais alteraram o modo de ser e estar das pessoas e isso afectou o campo relacional que geraram à sua volta com tudo e com todos.

No novo ano visionava como o campo da consciência a experimentar poderia ser o da curiosidade e o campo da espiritualidade poderia, após o Jubileu da Esperança, levar-nos a um Jubileu da Confiança. Um curioso, consciente disso, não se fica por aquilo que ouve, vê e lê, mas procurava as razões de ouvir, ver e ler o que lhe comunicam. Uma pessoa que confia acredita no bem que habita no coração do outro, e quer-lhe bem, porque entende por «coração» a totalidade do campo espiritual que forma a sua «pessoalidade».

Ninguém esperava os campos sociais e da consciência distorcidos de 2025 que afectaram o ambiente de muitas famílias. Mas a natureza do mundo visível e invisível é mesmo assim: não deixa de nos surpreender. Confiemos que o novo ano seja repleto de oportunidades para estabelecermos campos novos e mais conscientes da luz que provém da busca por uma vida espiritual cada vez mais plena e profunda.

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EDIÇÃO
Janeiro 2026 - nº 764
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