
Pouco depois de ter sido eleito como sucessor do Papa Francisco, Leão XIV publicou o primeiro texto oficial do seu pontificado, com o título Eu te amei (Dilexi te). Fica assim claro que o programa do novo papa é continuar com toda a Igreja o caminho que estávamos a fazer com o Papa Francisco: olhar para o amor divino e humano do Coração de Jesus para encontrar aí a força e a alegria que nos leva a amar os outros. E não se trata de um «amor genérico», ou um simples sentimento que nos dá a ilusão de estarmos com Deus. Já Francisco dizia que o amor do Coração de Cristo sempre nos leva ao encontro daqueles que eram os amigos preferidos de Jesus, os pobres, os últimos.
Leão XIV, um bispo habituado a ver a sua vida como um serviço à Igreja, já nos muitos anos de vida missionária no Peru, em contacto directo com a gente simples e pobre da sua diocese, e também nos poucos anos em que ele tinha começado a colaborar com o Papa Francisco, em Roma, não admira que ele continue a ver também a sua missão como papa como um novo serviço à mesma Igreja.
Podemos bem dizer que em Roma, chega um novo papa, mas é o mesmo serviço que continua. E assim Leão escreve, logo ao início desta exortação apostólica, que deseja simplesmente continuar o trabalho e a reflexão que Francisco já tinha começado. E diz mesmo que uma boa parte deste documento já tinha sido preparado pelo seu antecessor. É o mesmo serviço que continua, com um servidor novo.
A intenção do Papa Leão, com este novo documento, é, como ele mesmo diz, contribuir para que «todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres» (Amei-te, 3).
Os seus vinte anos de serviço missionário entre a gente simples do Peru, na América do Sul, levaram-no a compreender que o amor cristão não pode ser vivido com autenticidade só no pequeno círculo onde nos sentimos confortáveis. Se é verdadeiro em nós o amor do Coração de Cristo, ele move-nos sempre ao encontro dos mais necessitados. E se já pertencemos a essa parte da Humanidade que precisa de lutar todos os dias para sobreviver, diremos como diziam os meus paroquianos no Quénia: somos cristãos, precisamos de ajudar os que são ainda mais pobres do que nós.
O amor que vem do Coração de Jesus nunca nos deixa quietos no nosso conforto, move-nos sempre ao encontro de quem mais precisa. E isto não como uma obrigação que nos é imposta, mas como uma necessidade que nasce do próprio amor que vivemos. Viveríamos frustrados se o amor de Deus em nós não transbordasse também para muitos outros.
Francisco ajudou-nos a ver como o Coração de Jesus é a fonte de onde jorra o amor que enche de sentido e de alegria o nosso viver. O Papa Leão vem agora guiar-nos no caminho que do Coração de Cristo nos conduz ao encontro dos mais pobres da nossa sociedade e do nosso mundo, para que sintam na nossa presença a voz de Deus que lhes diz: «Amei-te.»
