
Vivemos tempos marcados pela divisão. O espaço público tornou-se ruidoso, agressivo, impaciente. As pessoas escutam pouco e reagem muito. Tudo parece exigir uma tomada de posição imediata, quase sempre em oposição a alguém. Esta polarização não fica fora da vida cristã: entra nas comunidades, nas conversas, nas redes sociais, e até na forma como lemos o Evangelho.
Por detrás deste clima está uma visão do mundo que interpreta a realidade como conflito permanente. A dialética da luta - herdada da matriz marxista e hoje amplamente difundida na cultura - ensina que a história avança pela oposição entre grupos rivais. Mesmo quando já não se fala de classes sociais, permanece a lógica: uns contra os outros, vencedores e vencidos, culpados e vítimas. Sem nos darmos conta, corremos o risco de adotar este olhar também na fé.
O problema não é apenas social ou político. É espiritual. Quando começamos a ver o outro como ameaça, deixamos de o ver como irmão. Quando a identidade se constrói contra alguém, o coração fecha-se. E quando o Evangelho é usado para marcar fronteiras, deixa de ser Boa Nova para se tornar instrumento de exclusão.
Jesus propõe um caminho radicalmente diferente. Não alimenta o medo nem legitima o ódio. Aproxima-se dos feridos, dialoga com os distantes, chama à conversão sem humilhar. Nunca nega a verdade, mas nunca a separa da misericórdia. A sua vida é um convite permanente a sair da lógica da confrontação para entrar na lógica do encontro.
Ser cristão num mundo polarizado é, antes de tudo, uma vocação pastoral. Significa cuidar das relações, proteger a dignidade de cada pessoa, recusar palavras que ferem e gestos que afastam. Sem ódio, porque o ódio nunca vem de Deus. Sem medo, porque quem confia em Cristo não precisa de se defender atacando. Sem trincheiras, porque a Igreja não é uma fortaleza, mas uma casa com portas abertas.
Isto não significa abdicar de convicções. Pelo contrário: exige convicções mais profundas, enraizadas no Evangelho e não nas ideologias. O cristão é chamado a dizer a verdade, mas com mansidão; a defender a vida, mas com respeito; a discordar, mas sem desumanizar. Como dizia o Papa Francisco, na Evangelii Guadium, “a realidade é superior à ideia” e nenhuma ideia vale mais do que uma pessoa concreta.
Num tempo de gritos e rótulos, talvez o testemunho mais urgente seja este: cristãos que escutam, que acompanham, que constroem pontes. Não porque tudo seja igual, mas porque todos são amados. Num mundo ferido pela divisão, a fé é chamada a ser sinal de reconciliação. E isso começa sempre no coração de cada um de nós.
