Opinião
16 fevereiro 2026

Um presépio sem menino

Tempo de leitura: 4 min
Jesus ensina onde e em quem Ele estará presente para que o acolhamos e o tratemos com amor: nos pobres que sempre estarão entre nós.
P. Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Já tinha ido algumas vezes visitar a gruta do presépio, nas montanhas de Greccio, no Centro da Itália, mas o que o frade franciscano nos disse desta vez, quando nos explicou aquele primeiro presépio que São Francisco fez naquelas grutas, foi uma surpresa também para mim: não havia imagem do menino Jesus.

Era Dezembro do ano de 1223, e São Francisco de Assis quis ensinar aos camponeses e pastores daquele do vale lá em baixo, no sopé da montanha, a história do nascimento de Jesus em Belém. Teve a ideia de fazer um presépio vivo, o primeiro da História. E a gruta onde agora estávamos a escutar o frade tinha sido o lugar escolhido por Francisco. Fazia um frio intenso e a neve caía abundante. O santo lá arranjou quem trouxesse um burro e um boi – naquela zona da Itália a tradição diz que no presépio não era uma vaca, mas um boi, o animal que aquecia o menino com o seu bafo. A manjedoura de troncos de madeira já lá estava, para dar de comer às ovelhas que lá se acoitavam, e foi só questão de pôr nela um braçado de palha fresca. Mas não havia imagem do menino deitado na palha.

Quando Francisco contou a história de Belém, todos escutaram a história com muita atenção, enquanto olhavam meio divertidos para o casal de pastores que faziam de José e Maria, que eles bem conheciam! Mas chegados ao «menino recém-nascido, envolvido em faixas e deitado na manjedoura», não havia menino. Francisco tinha feito de propósito. Todos perguntavam: «onde está Jesus?»
E olhavam uns para os outros. «Está aí mesmo», disse-lhes São Francisco, divertido, está na cara do teu vizinho, nos garotos da família ao teu lado! O Menino Jesus já não dorme na palha de Belém, ele agora dorme nas casas de cada um de nós, por pobres que sejam os nossos tugúrios. E o frade ria com gosto, ao contar-nos esta peripécia de São Francisco, que assim ensinou que agora podemos encontrar Jesus no rosto de cada pessoa que encontramos.

Leão XIV lembra-nos esta mesma mensagem, logo no início da primeira carta oficial que dirigiu a toda a Igreja, Amou-te (Dilexi te). O papa recorda o episódio da mulher que veio ungir a cabeça de Jesus com um perfume precioso, na casa de um certo Simão, em Betânia, perto de Jerusalém (cf. Mt, 26). Perante os protestos de alguns discípulos, Jesus responde com palavras misteriosas: «Pobres sempre os tereis entre vós.» E adianta que nos tempos futuros, o gesto desta mulher será lembrado onde quer que se anuncie o seu Evangelho. Leão XIV diz-nos que o que importa lembrar mesmo é que Jesus continua presente connosco, como Ele mesmo disse noutra ocasião (cf. Mt 28, 20). Com o pretexto do perfume na sua cabeça, Jesus ensina onde e em quem Ele estará presente para que o acolhamos e o tratemos com amor: nos pobres que sempre estarão entre nós. O que fizermos a um desses pequeninos é a Ele que o fazemos (Mt 25,4 0).

As palavras de Jesus em casa de Simão de Betânia, e o ensinamento de São Francisco com a manjedoura sem Menino Jesus, acabam por nos recordar algo que é central na nossa vida cristã: lembrar o presépio de Belém ou aquele da gruta de São Francisco leva-nos a querer acolher e amar todos aqueles e aquelas que são hoje, para nós, presença real de Jesus.

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