Reportagens
29 março 2019

Burkina Faso: Entre Jihad e fibra óptica

Tempo de leitura: 16 min
No Burkina Faso o tema da segurança domina o debate político, enquanto a sociedade civil se divide e não consegue jogar o papel de guardiã do poder. A vida quotidiana é influenciada pela incerteza e por um inimigo invisível.
Marco Bello
Jornalista e Fotógrafo
---

Percorremos o caminho que da capital Uagadugu leva a Uahiguya, no Norte. Ao longo de todos os seus 180 km, vemos de lado uma vala escavada e depois recoberta. De vez em quando despontam do terreno grossos cabos pretos com um tampão colorido. É uma visão que contrasta com a savana africana. Aquele cabo é a fibra óptica que leva dados e ligação à Internet mesmo aos lugares mais remotos da África. Chegou também aqui e depressa estará operativa. Mas no Burkina Faso de hoje, precisamente Uahiguya, cidade a 70 km da fronteira com o Mali, está também o limite da chamada «zona vermelha». Na cartografia da segurança actualizada pela Embaixada de França, o país está dividido em zonas: amarela, laranja e vermelha. O amarelo corresponde a «vigilância reforçada»; o laranja a «zona desaconselhada, salvo por razões imperativas»; enquanto o vermelho é «formalmente desaconselhada». Para o Burkina esta área «proibida» aos estrangeiros coincide com toda a faixa de fronteira com o Mali, o Níger e parte do Benim. Nestas zonas, é mais provável que os jiadistas (terroristas islâmicos, como os chamam aqui), os salteadores e muitos outros grupos façam ataques ou raptos.

O tranquilo Burkina Faso, terra de tolerância e de convivência pacífica entre etnias (tem umas 60) e religiões1, está a transformar-se num território de conflito, contagiado pelos países vizinhos, Mali e Níger, numa área, a da África do Oeste, que já é toda ela bastante instável.

Burkina18_184Foto: Marco Bello

Como muda a vida

Em Uahiguya, fronteira da zona vermelha, encontrámos Adama Sougouri, director da rádio comunitária La Voix du Paysan (A Voz do Camponês). A rádio transmite em oito línguas locais e leva por diante um trabalho educativo, além de informativo, típico de uma emissora comunitária. «O problema da insegurança mudou o modo de viver aqui no Norte – conta-nos Sougouri. – Quando começou, dizíamos que entre nós não aconteceria como no Mali, com os raptos e os atentados. O Exército tinha reforçado as prisões, mas de repente a nossa região foi colocada na zona vermelha a nível internacional e isto pesou muito sobre a organização da vida e em particular sobre a economia.» Até há pouco tempo, esta era uma zona de passagem dos turistas para ir visitar o famoso «país Dogon» no Mali. A restauração, muitos artesãos e comerciantes viviam do turismo. Hoje o sector está de rastos. Mesmo o associativismo que vivia de parcerias com ONG e associações europeias viu uma drástica redução dos seus projectos, «porque os estrangeiros não vêm mais aqui».

No aspecto social, o clima de insegurança criou o «medo do próximo», continua Sougouri. «Esta situação é vivida como uma incerteza, não se compreende o que poderia acontecer de um momento para o outro. Hoje há localidades no Norte onde dois vizinhos que se conhecem bem já não têm confiança um no outro. Porque alguém foi descoberto a lidar com estes supostos rebeldes ou jiadistas. Todos têm medo de todos.» Mas há também quem se aproveita desta situação: grupos de salteadores que vivem do saqueio.

«Algumas escolas foram encerradas porque os professores foram primeiro ameaçados, acusados de ensinar o francês às crianças, e depois assassinados a sangue-frio.» A mesma sorte coube a administradores e funcionários municipais, degolados nas suas pobres sedes municipais.

«Não sabemos se são jiadistas ou criminosos comuns. Para tudo aquilo que acontece usamos a palavra “terrorismo”. Mas é esta a estratégia real dos jiadistas?» Interroga-se o director: «Criar uma situação de medo, de psicose na população, para depois pôr-se de parte e ver a nossa sociedade desagregar-se.»

Burkina18_294Foto: Marco Bello

O grande Norte

Com um todo-o-terreno, corremos pela faixa que conduz de Uahiguya a Titao, no Nordeste. Penetramos um pouco mais na «zona vermelha», mas vemos o verde do sorgo e do milho-painço dos campos, que, graças a uma óptima estação das chuvas, cresceu viçoso. Cruzamo-nos com duas camionetas apinhadas de militares da polícia, preparados para o combate, com capacetes, Kalashnikovs e metralhadoras no tejadilho, que pareciam prontas a disparar. Deve ser, pensamos, a patrulha que permanece no município de Titao, que terminou o seu turno e foi substituída.

Chegamos à aldeia de You. Aqui um grupo de mulheres recebe-nos em festa, porque um projecto da ONG CISV, financiado pelo Fundo Fiduciário de Emergência para África2, lhes entregou algumas cabras. Poderão fazê-las reproduzir e vender os cabritos, obtendo assim um pequeno rendimento para lutar contra a fome. Encontramos depois alguns agricultores, escolhidos entre os mais pobres da aldeia. Estão num campo de niebé (feijão autóctone). O mesmo projecto ajudou-os a arrancar esta terra da erosão, graças a técnicas locais e ensinou-lhes como cultivar com métodos mais naturais, agro-ecológicos.

As pessoas estão serenas, felizes com a visita. Não se nota a tensão típica da «zona vermelha». Alguns dias depois da nossa visita, a 23 de Setembro, a uns oitenta quilómetros mais a norte, um veículo da empresa que explora a mina de ouro de Inata, a ganesa Balaji Group, será barrada por uns quarenta motociclistas armados no eixo Tongomayel-Djibo. Os três ocupantes, uma burquinabê, um indiano e um sul-africano, são raptados. Os polícias lançados no seu encalço deixarão três mortos no terreno. Alguns dias depois intervirão também os Mirages franceses (aviões de combate), da operação Barkhane3, a bombardear a zona. Mas é difícil atingir motociclos no deserto. E aliás o grupo já estará a salvo no vizinho Mali.

Frente do Leste

Em Agosto, começaram os ataques nas regiões do Leste do Burkina Faso, a ponto de levar alguns meios de comunicação social a escrever que nasceu uma nova célula jiadista nesta zona.

O ponto mais crítico aconteceu a 17 de Setembro, com o rapto do P.e Pierluigi Maccalli, missionário italiano, numa localidade nigeriana, nas imediações da fronteira com o Burkina. Estava na sua paróquia, onde trabalhava desde 2007. A hipótese mais crível é que tenha sido raptado pelo grupo que domina no Leste do Burkina, em fuga das forças de segurança. Pode ter sido levado para a floresta da Tapoa (Burkina), ou para o Mali ao longo do corredor Sul-Norte pela fronteira Burkina-Níger.

São numerosos os grupos integralistas de base no vizinho Mali, alguns ligados à Al-Qaeda e outros ao Isis. O grupo que mais influenciou o Burkina é a Frente de Libertação de Macina, de Amadou Koufa, que também inspirou o surgimento do primeiro grupo jiadista burquinabê, Ansarul Islam, nascido precisamente em Djibo, no Norte. Os três ataques aparatosos em hotel, restaurantes e, o último, à Embaixada de França e ao Estado-Maior do Exército (Março de 2018) foram efectuados por outros grupos da galáxia maliana, como o Al-Murabitun. Há quem tema também a chegada ao Burkina do Boko Haram, o grupo extremista nascido no Norte da Nigéria e em guerra aberta com o Níger, Chade e Camarões. Grupo que, todavia, actua de modo geograficamente circunscrito, cuja presença aqui parece improvável.

Que faz o Governo?

«A oposição critica o Governo sobre a questão da segurança, mas, na realidade, este não pode fazer melhor, com os meios que tem. Até organizou uma sessão especial na Assembleia Nacional para avaliar o orçamento militar que penso será aumentado substancialmente», comenta Germain Nama, director do jornal L’Evénement e jornalista empenhado na defesa dos direitos humanos.

«Mas a questão da segurança não é só uma questão militar, porque se trata de uma guerra assimétrica, com ataques terroristas. Contam muito os meios tecnológicos modernos, assim como os serviços de segurança, pelo que o Estado tem de investir nestes aspectos.»

De notar que os serviços de inteligência do regime do ex-presidente Blaise Compaoré foram desmantelados, e agora constituem um dos aspectos mais fracos das instituições.

Continua Nama: «Simon4 [Compaoré, ndr], veio à redacção e entrevistámo-lo. Quando lhe perguntámos se a natureza deste terrorismo é, na sua opinião, a mesma da do Norte ou se há nigerianos, disse que não existem elementos para o afirmar. Foi difundida essa reivindicação pouco credível. É preciso ser-se prudente.» Refere-se a um vídeo, que circulou nas redes sociais no Burkina, no qual alguns homens vestidos de jiadistas afirmam pertencer a uma pretensa célula ligada à Al-Qaeda e reivindicam os ataques no Leste do país.

 Burkina18_212Foto: Marco Bello

Reivindicações sociais

Se a questão dos ataques e da segurança ocupa o debate nacional, um outro aspecto importante são as reivindicações da sociedade civil. Uma parte dela, a dos trabalhadores organizados, viu, nos últimos três anos, um particular impulso reivindicativo. Conta-nos Mamadou Barro, antigo secretário-geral da Federação dos Sindicatos Nacionais dos Trabalhadores da Educação e da Investigação, o maior sindicato dos professores. «Na vertente social, as solicitações são muito fortes. Nos sectores estruturais, como o dos assalariados, seja da função pública seja do privado, muitas greves se sucederam. Para nós, é a expressão das frustrações, contidas e sufocadas ou reprimidas durante os anos do regime autocrático, quase ditatorial, de Blaise Compaoré.»

Continua o sindicalista: «Mas também os sectores não estruturados, como o dos camponeses, buscadores de ouro artesanais, habitantes dos bairros, estão a fazer reivindicações sobre a organização do território, o melhoramento das estradas e o acesso aos serviços sociais de base.»

«O fracasso do regime precedente é também o do actual, porque os homens que hoje estão no topo tiveram papéis de relevantes no passado. Não têm em conta as reivindicações dos cidadãos para a melhoria das condições laborais, acesso a electricidade, água, escola de qualidade, tratamentos médicos, os dirigentes de hoje decidem continuar numa linha de fracasso.»

Segundo a leitura de Barro, a insegurança é utilizada de modo instrumental pelo governo do presidente Roch Marc Christian Kaboré: «Neste contexto se insere a separação que o poder procura criar entre as problemáticas de segurança e as reivindicações sociais: sabendo não ter respostas para as questões sociais, então agita a questão da insegurança como via para a qual se deve fazer a união sagrada.» Ou seja, unamo-nos para fazer frente à insegurança e esqueçamo-nos dos outros problemas.

«E torna-se quase uma chantagem: se falais de um problema, se estais contra o Governo, significa que não amais a nação em perigo, atacada pelos integralistas.»

Segundo o jornalista Germain Nama, este Governo conseguiu, no entanto, dar alguma resposta. Pelo menos no campo da saúde, com a lei que torna gratuitos os tratamentos para as mulheres grávidas e as crianças abaixo dos 5 anos (em primeiro lugar) e a construção de postos de saúde nas províncias. Outro campo é o da educação, com a construção de infra-estruturas escolares. Também diversas estradas citadinas foram asfaltadas.

 Burkina18_145Foto: Marco Bello

O inimigo que não vê

No Burkina Faso, hoje tem-se a impressão de que nem as pessoas nem as instituições estão habituadas a esta situação e que as medidas de segurança não fazem parte do seu modo de ser. Mesmo se há muros a levantar-se e a cercar-se de arame farpado. Facto quase inexistente até há poucos anos. Nota-se um certo medo, ao mesmo tempo que a gente procura levar a sua vida de forma normal, contanto que haja cerveja nos bares depois do trabalho e ao sábado à noite. E, no entanto, percebe-se que o contexto não é o mesmo que há poucos anos no país dos homens íntegros. Há um inimigo invisível, que por vezes se materializa e faz falar de si. Entretanto, a fibra óptica chegou à zona vermelha.

Notas

1 No Burkina Faso, contam-se 60 etnias, das quais as maioritárias são: mossi, gourmanché, fulbé (peulh), bobo e bissa. Também no aspecto religioso houve sempre óptima coabitação: 60 % muçulmanos, 19 % católicos, 5 % protestantes, mais os cultos tradicionais.

2 Trata-se de um pacote de ajudas da União Europeia estabelecido na Cimeira de Valeta (Novembro de 2015), para alguns países africanos. O objectivo do fundo é a estabilidade e o combate às causas profundas da migração irregular e ao fenómeno das pessoas deslocadas em África.

3 Operação militar antiterrorista francesa que está activa em cinco países – Mali, Burkina Faso, Níger, Chade e Mauritânia – desde 1 de Agosto de 2014.

4 Simon Compaoré, antigo ministro do Interior e da Segurança, figura de topo do antigo e do novo regime e hoje ministro na Presidência da República.

 

Partilhar
---
EDIÇÃO
Maio 2019
Faça a assinatura da Além-Mar. Pode optar por recebê-la em casa e/ou ler o ePaper on-line.