
Oração – subir para ver melhor
Tomás só aceitou ir ao retiro porque os amigos foram.
— “Dois dias sem Wi-Fi? Vocês são malucos…” — disse no autocarro.
A casa de retiro ficava no meio da serra. Frio, silêncio, natureza. Tudo aquilo lhe parecia estranho.
Na primeira noite, durante a oração, estava inquieto. Mexia-se, suspirava, olhava para o relógio.
A leitura da Transfiguração começou. “Jesus levou Pedro, Tiago e João a um monte alto…” Tomás pensou: “Sortudos, pelo menos viram alguma coisa.” Ele não via nada. Nem sentia nada.
Mas, a meio da oração, algo mudou. Não foi uma emoção forte. Foi mais como… um abrandar. Como se alguém tivesse diminuído o volume do mundo.
Percebeu que estava ali. Só ali. Sem notificações, sem comparações, sem pressa.
No dia seguinte, durante uma caminhada, parou a olhar a paisagem. Já lá estava antes. Mas ele nunca tinha realmente visto.
Quando regressou à cidade, tudo parecia igual. Mas não estava.
Na primeira noite de volta a casa, antes de pegar no telemóvel, fechou os olhos por dois minutos.
Subir ao monte, percebeu, não era fugir da vida. Era aprender a vê-la com outros olhos.
