
Clara sempre gostou da Páscoa, mas mais pelos ovos de chocolate do que pelo resto.
Este ano foi diferente. O grupo de jovens convidou-a a viver todo o Tríduo Pascal. Ela
aceitou, um pouco por curiosidade, um pouco porque sentia que precisava de alguma
coisa nova.
Na Quinta-feira Santa, entrou na igreja em silêncio. Viu o padre ajoelhar-se para lavar
os pés a algumas pessoas. Aquela imagem mexeu com ela. Pensou em como raramente
se colocava ao serviço dos outros. Pensou nas vezes em que queria sempre ser servida,
elogiada, reconhecida.
Na Sexta-feira Santa, tudo era ainda mais estranho. A igreja estava nua. Não havia
música festiva. Só silêncio. Só a cruz. Quando chegou a sua vez de se aproximar, Clara
hesitou. Beijar uma cruz parecia-lhe um gesto distante…, mas quando se inclinou,
sentiu um nó na garganta. Ali estava um amor que não recuava, mesmo diante da dor.
No Sábado à noite, na Vigília Pascal, começou no escuro. A igreja inteira mergulhada
na escuridão. Clara sentiu-se como muitas vezes se sentia por dentro: sem direção, sem
certezas.
De repente, uma chama acendeu-se ao fundo. Depois outra. E outra. A luz começou a
passar de mão em mão, de vela em vela, até iluminar todo o espaço.
Clara recebeu a sua pequena vela. A chama tremia, mas não se apagava.
Naquele momento percebeu: a fé não é ausência de escuridão. É uma luz que se partilha
e se protege.
Quando o canto do “Aleluia” encheu a igreja, sentiu algo novo — não uma emoção
passageira, mas uma esperança tranquila.
Ao sair, já de madrugada, o ar estava fresco. Clara caminhava devagar, com a vela ainda
acesa no coração.
Sorriu.
A Páscoa não era um fim.
Era um começo.
