Sala de convívio
28 abril 2026

Abril visto por quem nasceu depois

Tempo de leitura: 1 min
Li recentemente a seguinte frase: «A minha liberdade chegou-me por herança, mas sem manual de instruções.» Como muitos dos que leem estas linhas, eu também nasci depois da Revolução dos Cravos – o 25 de abril de 1974.
Margarida Leal
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Para mim, a liberdade nunca foi uma experiência vivida. Chegou-me por relatos: narrativas contadas à mesa, aulas de História, datas sublinhadas nos manuais. Estudei Abril, não vivi Abril. Dessa distância, nasce um sentimento agridoce: gratidão profunda por quem lutou, misturada com consciência de que nunca saberei verdadeiramente o que foi sentir o medo e a coragem daquele tempo.

Sabemos que foi importante, que mudou tudo. Mas não o sentimos na pele. Talvez por isso a palavra “liberdade” nos soe hoje tão leve, quase gasta. Repetida tantas vezes que perdeu peso, como o oxigénio — só nos damos conta do seu valor quando falta. Durante muito tempo, tratámo-la como garantida, inabalável. Mas o presente tem-nos mostrado o contrário.
A liberdade não desaparece de um dia para o outro; vai-se estreitando, quase impercetivelmente. E, mais do que nunca, sinto-a frágil, ameaçada.

Temo que não tenhamos aprendido o suficiente com a História — e nem sequer falo de um passado distante. Falo de uma memória recente, ainda viva em quem a viveu.

Por isso, escutemos atentamente os relatos de quem viveu, antes que se tornem apenas arquivos. Não por obrigação, mas por respeito. Nós herdámos a liberdade; outros pagaram por ela.

Não pisemos os cravos que ainda mal tiveram tempo de florescer. A História tem uma estranha tendência para regressar quando é ignorada — e a ignorância continua a ser a arma de quem ambiciona o poder para o usar em benefício próprio.

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Abril 2026 - nº 649
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