
Para mim, a liberdade nunca foi uma experiência vivida. Chegou-me por relatos: narrativas contadas à mesa, aulas de História, datas sublinhadas nos manuais. Estudei Abril, não vivi Abril. Dessa distância, nasce um sentimento agridoce: gratidão profunda por quem lutou, misturada com consciência de que nunca saberei verdadeiramente o que foi sentir o medo e a coragem daquele tempo.
Sabemos que foi importante, que mudou tudo. Mas não o sentimos na pele. Talvez por isso a palavra “liberdade” nos soe hoje tão leve, quase gasta. Repetida tantas vezes que perdeu peso, como o oxigénio — só nos damos conta do seu valor quando falta. Durante muito tempo, tratámo-la como garantida, inabalável. Mas o presente tem-nos mostrado o contrário.
A liberdade não desaparece de um dia para o outro; vai-se estreitando, quase impercetivelmente. E, mais do que nunca, sinto-a frágil, ameaçada.
Temo que não tenhamos aprendido o suficiente com a História — e nem sequer falo de um passado distante. Falo de uma memória recente, ainda viva em quem a viveu.
Por isso, escutemos atentamente os relatos de quem viveu, antes que se tornem apenas arquivos. Não por obrigação, mas por respeito. Nós herdámos a liberdade; outros pagaram por ela.
Não pisemos os cravos que ainda mal tiveram tempo de florescer. A História tem uma estranha tendência para regressar quando é ignorada — e a ignorância continua a ser a arma de quem ambiciona o poder para o usar em benefício próprio.
