Sala de convívio
30 abril 2020

Coisas boas nas horas difíceis

Tempo de leitura: 5 min
Porque de repente as pessoas descobrem coisas novas. Por exemplo: que podem telefonar aos amigos, conversar com eles.
Alice Vieira
Escritora
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Como vocês devem saber, esta revista é feita com alguma antecedência. Estou a escrever este texto no fim de março, vocês hão de lê-lo em maio. Não sei como estaremos em maio, nesta terrível pandemia do coronavírus que nos afetou.

Mas infelizmente penso que não estaremos muito diferentes do que estamos hoje: fechados em casa, a lavar as mãos de 20 em 20 minutos, a beber muitos líquidos quentes, etc.

Não é um tempo fácil, mas também não devemos cair em depressão. Mesmo dentro de casa há tanta coisa para fazer.

Antes de mais, leiam bem a Audácia. Do princípio ao fim. E aproveitem para ler os livros que têm em casa e ainda não leram. E se já leram todos, peguem na Bíblia – que é o livro mais extraordinário que existe. O meu marido dizia sempre: «Abre-a onde calhar e encontras sempre o que precisas.» Vão ver como é verdade.

Vão ao Facebook e vejam a quantidade de iniciativas que aí se transmitem, desde concertos de música, teatro, já para não falar na Eucaristia Dominical, que também é transmitida na RTP e na TVI – e ainda noutros lugares de culto. Eu, por exemplo, sou fiel à missa transmitida da Igreja do Rato, às 11h30, e que podemos assistir no sítio da Igreja do Rato. E se gostarem mais de ouvir conversas sobre os mais variados temas, sigam, no Facebook, a página «Aos vossos Lugares».

E claro, um programa ou outro na televisão.

E contactem com a vossa junta de freguesia, porque há coisas que podem fazer – incluindo ligar para os mais velhos da freguesia e perguntar se estão bem. Não custa nada e eles ficam tão contentes.

Porque de repente as pessoas descobrem coisas novas. Por exemplo: que podem telefonar aos amigos, conversar com eles. Agora não há a desculpa da falta de tempo, da SMS apressada... Porque quando não podemos ver os amigos é que percebemos a falta que eles nos fazem.

No dia dos meus anos, já de quarentena (em que estive de telemóvel à orelha quase o dia todo, até tive de o recarregar a meio da tarde…) recebi um telefonema de um número não identificado. Era um senhor, chamado Corsa Fortes, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Então disse-me que vinha da parte da minha prima Luísa, de Castelo Branco. E o que é que o senhor faz? É contador de histórias. E aceita “encomendas”. Pessoas que lhe telefonam e lhe dão o telefone de uma amiga ou amigo para ele ligar e contar uma história.

Se vocês o ouvissem… Como ele conta bem, e como a história era linda… Depois, no fim, disse-me que também era poeta, mas que o pai, que já tinha morrido, é que tinha sido um grande poeta.

Pergunto-lhe o nome do pai.

– Corsino Fortes – diz-me.

Eu ia caindo para o lado.

– Corsino Fortes? De Cabo Verde?

E era.

Acontece que o Corsino Fortes tinha sido meu colega na universidade... Um colega de quem eu gostava muito, e que aqui há uns anos tinha reencontrado na Póvoa de Varzim, num encontro literário que lá há todos os anos chamado Correntes de Escrita. Parece que estou a vê-lo, muito alto, muito bonito, a sorrir para mim: «Olha a minha coleguinha...» Ele era mais velho que eu, tinha tido uma infância e juventude muito difíceis e começara a estudar tarde.

E pronto, o mundo é mesmo muito pequeno.

E mesmo nas horas difíceis acontecem sempre coisas boas.

 

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EDIÇÃO
Maio 2020 - nº 585
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