Igreja
18 abril 2026

Ajudar os refugiados

Tempo de leitura: 5 min
Há dezasseis anos o padre Dominico presta assistência, em dois campos de refugiados do Mianmar na Tailândia, devido à violência e à injustiça. O padre Dominico, também do Mianmar, acompanha os refugiados como assistente espiritual. Compreende a língua dessas pessoas, a sua cultura – e a sua dor.
Bettina Tiburzy
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Caminhos estreitos e empoeirados serpenteiam entre casas simples de bambu. As crianças brincam alegremente, as galinhas escavam o solo. O padre Dominico atravessa uma ponte de varas de bambu sobre um rio. Ele está a caminho da família de Anne Zin (nome fictício), com as suas duas filhas e o filho Paul (nome fictício). Fugiram de Mianmar há pouco tempo. Paul, de 13 anos, ainda está em estado de choque. Aviões de combate bombardearam a sua casa. O ruído dos aviões provoca-lhe pânico. Mesmo no campo de refugiados em Mianmar, a família não estava segura. À medida que os bombardeamentos se aproximavam cada vez mais, fugiram para a Tailândia. Agora, sentam-se exaustos à sombra, sobre um tapete. As crianças estão perturbadas, em silêncio, com o olhar fixo no vazio. O padre Dominico agacha-se ao lado deles, ouve-os e faz perguntas com delicadeza. «Agora estão em segurança», diz ele em voz baixa, tentando consolá-los. «Aqui já não há bombas.»

Também no campo de Ban Mae Surin, o dia-a-dia é uma luta pela sobrevivência. Para comprar comida, a família teve de pedir dinheiro emprestado aos vizinhos, que também lhes ofereceram roupa usada. Agora, Anne espera que as crianças possam ir para a escola em breve. O padre Dominico ajuda a encontrar as pessoas certas a quem recorrer. Mas, acima de tudo, ele ouve-os e encoraja as crianças no seu desejo de aprender. Elas sonham em tornar-se enfermeiras, professoras ou engenheiras.

Também Clare Aung (nome fictício), com os seus cinco filhos, encontrou refúgio no campo. A família fugiu depois de soldados terem incendiado toda a sua aldeia. O seu filho de 16 anos é cego e não consegue andar devido à poliomielite. Clare teve de o carregar às costas. Mais tarde, um sobrinho ajudou-a a levá-lo para lá da fronteira.
A família também chegou há poucos dias. A irmã de Clare, que já vive no campo há mais tempo, ajudou-a a orientar-se. Quando o padre Dominico percebeu que não tinham louça, providenciou-lhes alguma numa cidade próxima.

 

A família não pode sair do campo

O padre Dominico, tal como muitos refugiados, pertence ao grupo étnico dos Karenni e é originário da diocese de Loikaw. A sua aldeia foi incendiada pelo exército governamental. O seu bispo enviou-o para os dois campos de refugiados, onde trabalha para o Serviço Jesuíta aos Refugiados. Ele celebra missas, organiza retiros, presta aconselhamento, faz visitas domiciliárias e organiza eventos. Numa pensão, ele cuida, com uma equipa, de 36 crianças que são órfãs ou vivem separadas dos pais. Os pais dos irmãos Luke, 15 anos, Simon, 10 anos, e Sarah, 9 anos (nomes fictícios), faleceram no campo devido a um cancro. Luke descobriu no diário da mãe que eles tinham fugido de Mianmar porque foram torturados.

Para todas as pessoas com experiências dolorosas, Dominic Nya Reh, como é conhecido em karenni, é um importante ponto de apoio. A sua natureza tranquila e compassiva ajuda muitas pessoas a lidar melhor com as difíceis condições do campo.

«As pessoas dizem-me que a minha simples presença lhes dá a sensação de que não foram esquecidas», conta ele, na esperança de que todos possam um dia regressar à sua terra natal.

 

Tolerados, mas indesejados

Os campos de refugiados de Ban Mai Nai Soi e Ban Mae Surin encontram-se isolados, longe de qualquer infra-estrutura, na fronteira tailandesa com Mianmar. Abrigam 13 mil refugiados de Mianmar.

Muitos deles já tinham fugido para a Tailândia nas décadas de 1980 e 1990, em fuga de conflitos armados. Após o golpe militar em Mianmar em 2021, verificou-se uma nova vaga de êxodos. Oficialmente, a Tailândia já não acolhe novos refugiados. Estes não são registados nem recebem alimentos. As pessoas não podem sair dos campos. Nos campos, há ofertas de educação informal. Não é permitido ensinar tailandês. A Tailândia não deseja a integração destes refugiados na sociedade do país. Muitas pessoas vivem já há muitos anos nos campos. Um duro golpe para as comunidades dos campos foi a suspensão da ajuda humanitária por parte dos EUA.

Os postos de saúde tiveram de ser encerrados e os alimentos escassearam. Sem ajuda externa, os campos encontram-se sob enorme pressão. O Serviço Jesuíta aos Refugiados presta uma ajuda abrangente e integral, especialmente aos jovens.

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Abril 2026 - nº 767
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