

Título: Marc-Antoine Charpentier: Te Deum; In nativitatem Domini canticum
Intérpretes: La Capella Nacional de Catalunya e Le Concert des Nations e solistas; dir. Jordi Savall
Edição: Alia Vox | Disponível em lojas e plataformas digitais
O prelúdio deste Te Deum do francês Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) é conhecido como hino da Eurovisão (e não apenas do Festival da Canção, como erradamente se lê no Spotify). Por isso, soa ainda mais jubiloso e unificador, quando os valores europeus são postos em causa por líderes de fora e de dentro do continente. Além do mais, esta versão de Jordi Savall e dos agrupamentos La Capella Reial de Catalunya e Le Concert des Nations é transparente, pura e vibrante. Além do Te Deum, este disco inclui a oratória In nativitatem Domini canticum (Cântico para a natividade do Senhor), e as peças foram compostas quando o artista era mestre-de-capela dos Jesuítas. Tendo emigrado para Roma em meados da década de 1660, Charpentier estudou ali três anos com Giacomo Carissimi (1605-1674). No regresso a Paris, ficou a trabalhar sob o patrocínio de Marie de Lorraine (Mademoiselle de Guise), mulher devota e influente na sociedade parisiense. Apesar de ter composto vários tipos de música, foi nas peças litúrgicas que mostrou que a fé e beleza só podem ir a par. Como diz Catherine Cessac, «a grandeza e a originalidade da música de Charpentier devem-se a uma combinação de excepcional talento musical e fé profunda, cada um deles complementando o outro». Estas duas obras e este disco dão-nos a escutar isso mesmo.

Título: Da Pacem
Autor: Heinrich Schütz
Intérpretes: Ricercar Consort; dir. Philippe Pierlot
Edição: Mirare | Disponível em lojas e plataformas digitais
Da Pacem reúne várias peças do alemão Heinrich Schütz (1585-1672) que resumem o sentido de tantas preces pela paz, durante a Guerra dos Trinta Anos. Ontem como hoje, a música unia e reconfortava as vítimas de decisões motivadas pela ambição, poder e ódio. Até pelo facto de Schütz, como muitos outros músicos, viajar por diferentes cidades e países: nasceu na actual Bad Köstritz, foi para Weissenfels, aos 13 anos mudou para Kassel para continuar os estudos, integrando o coro da corte do landgrave e estudando com Georg Otto; em 1608 partiu para Veneza, onde estudou com Giovanni Gabrieli, regressando em 1613 para se tornar segundo organista na corte do landgrave; dois anos depois, entrou ao serviço da corte de Dresden e, passados dois anos, ficou com o cargo de mestre-de-capela, o mais importante da Alemanha protestante; ainda voltaria a Veneza e depois a Dresden em 1628-29, e estaria na Dinamarca entre 1633-1641. Esta vida de itinerância permitiria trazer para a música o anseio de quem queria sobretudo viver em paz, em vez de se guerrear e matar – anseios que ecoam na nossa contemporaneidade. Se todo o disco é esse pedido pela paz, peças como o Da Pacem, Domine ou o Salmo 8 registam a intensidade da genialidade de Schütz – num tempo também elo entre o Renascimento e o Barroco que se anunciava (com a música de Bach como expoente).
