Igreja
31 julho 2026

Acolher os deslocados, Congo

Tempo de leitura: 9 min
Grupos armados no Alto Uele, RD do Congo, provocam uma grave crise. Centenas de pessoas têm que abandonar as suas casas e procurar refúgio em missões católicas, paróquias e casas de familiares. Neste cenário de violência, medo e destruição, todos procuram acolher, com generosidade, os deslocados.
P. Claudino Ferreira Gomes
---

A República Democrática do Congo (RD do Congo) possui imensas riquezas — incluindo as reservas de minerais estratégicos, como ouro e coltan —, mas o seu povo suporta há décadas um imenso sofrimento, pois a história do país tem sido marcada por conflitos armados desde 1996. Actualmente, mais de 200 grupos armados disputam o controlo em diferentes regiões do território, e a violência, as deslocações e a pobreza tornaram-se parte do quotidiano de muitas comunidades. 

Por essa razão, segundo as Nações Unidas, 15 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária urgente no país da África Central — a população é de 116 milhões de habitantes. O relatório do Conselho Norueguês para os Refugiados (CNR) indica que a RD do Congo ocupa o segundo lugar — depois do Sudão — na lista das crises de deslocação mais negligenciadas do mundo. «Só em 2025, foram registados quase 10 milhões de deslocamentos devido ao conflito, com muitas pessoas a regressarem aos seus locais de origem. Muitas vezes, isso era inseguro, mas, para alguns, era simplesmente a única opção», assinala o Relatório sobre Crises de Deslocação Esquecidas publicado em Junho de 2026.

 

Guerra e fuga em massa

Os deslocados chegaram também a Isiro, a capital e maior cidade da província de Alto Uele, no Norte da RD do Congo, onde me encontro. Na madrugada de 30 de Maio de 2026, a cidade foi despertada pela chegada em massa de pessoas que fugiam dos terroristas. A onda ruidosa, vinda de cerca de 125 quilómetros a leste, atravessou dezenas e dezenas de aldeias na floresta. Impelidos pelo medo, encheram durante vários dias a grande estrada internacional que liga Isiro ao Uganda e procuraram refúgio na capital da província.

O governo provincial foi apanhado de surpresa. Acreditava-se que a guerra era o destino dos povos do Leste e do Nordeste do país, não no Norte.

Além disso, todos acreditavam que os reforços militares enviados para Gombari (a duas centenas de quilómetros de Isiro) e para Mungbere (a 125 quilómetros) eram suficientes para dissuadir os guerrilheiros que, ao que parece, vêm do Nordeste. A estratégia da guerrilha expôs a desorganização e a fraqueza das forças do Governo.

 

Acolhimento e necessidades

As famílias de Isiro foram as primeiras a abrirem-se aos deslocados num admirável impulso de acolhimento. Como no episódio bíblico da viúva de Sarepta que, num momento de escassez acolheu Elias e, com despojamento e confiança em Deus, partilhou com o profeta o pão e a água que lhe restava (cf. 1 Reis 17, 7-16), as famílias generosas de Isiro abriram o seu coração e a sua casa aos mais necessitados. Famílias de si já numerosas acolheram dez, 15 e até 20 recém-chegados. Em Magambe, um proprietário entregou uma parcela com casas a um grupo de 138 deslocados, incluindo muitos pigmeus. 

Perante a urgência, os serviços humanitários e de solidariedade do governo provincial pediram a disponibilização do vasto complexo escolar de Ntumba para acolher os deslocados sem familiares em Isiro. O fluxo de chegadas continuou durante toda a semana, devido às notícias e rumores de assassínios e violências cometidos em Difolo e Ndubala, localidades na estrada para Isiro. O director da Cáritas diocesana notifica que os seus serviços registaram mais de dez mil deslocados.

A 2 de Junho, o governo provincial lançou um apelo ao governo central de Kinshasa: «Os meios de que dispomos são muito limitados e insuficientes para tantas pessoas, num prazo tão curto. E ninguém sabe dizer quanto tempo isto vai durar.»

Dois dias depois, a Assembleia Provincial do Alto Uele enviou uma delegação de quatro deputados à capital, Kinshasa, para solicitar ajuda humanitária e o reforço significativo de militares.

Os deslocados são também acolhidos em conventos — por exemplo, a casa da família missionária das Irmãs Dominicanas recebeu mais de 70 pessoas — e paróquias católicas e protestantes de Isiro. 

Na paróquia católica de Santa Ana, onde trabalho, prestamos ajuda a dois níveis: acolhimento nas nossas instalações e apoio às famílias que abriram os seus corações e portas àqueles que, partindo à pressa, chegaram sem quase nada. Actualmente, acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão.

Nas visitas ao centro de acolhimento de deslocados Gossamu, que, devido às actividades escolares, substituiu o complexo Ntumba, colaborámos com alimentos, sabão, cordas para secar a roupa — que, de outra forma, seria estendida no chão — e outras ajudas úteis ao funcionamento do centro. Em plena época de exames, as escolas, sob a orientação do ministério provincial competente, estão a fazer tudo o que é necessário para que os alunos deslocados não percam o ano lectivo.

 

Acompanhamento 

Praticamente todos os católicos das 40 comunidades espalhadas pela floresta e savana estão em Isiro. Assim, é natural que lhes prestemos todo o tipo de apoio: escuta, sacramentos, locais para ficar, assistência médica no local e, nos hospitais, para os mais graves. Para as crianças há futebol, catequese e oração.

Visitamos também as famílias, nos bairros, seja para rezar com os doentes, seja para estar com os deslocados. Lá, proclamamos a Palavra de Deus e rezamos juntos para que o conforto que recebemos do Senhor os conforte e ilumine os seus olhos e os seus corações.

Aos domingos, celebro a Eucaristia no centro de acolhimento Gossamu, que abriga algumas centenas de pessoas. A celebração é sempre um grande conforto, tanto para os católicos como para os protestantes. Vi a mesma alegria nos deslocados hospitalizados na zona oeste de Isiro.

A paróquia de Santa Ana é a mãe espiritual da maioria dos deslocados. Ela estende-se, de facto, para leste até Ndubala e Mungbere e, para norte, chega a Elimba, nas margens do grande rio Bomokandi, atravessado por uma ponte, destruída há décadas. Em Elimba, a comunidade mais distante da paróquia, os terroristas acabaram de matar várias pessoas que se dedicavam à prospecção artesanal de ouro. A grande aldeia de Ndubala também foi palco de violência e morte.

 

O futuro

Todos se perguntam quanto tempo vai durar esta violência. Entretanto, a frágil economia das famílias desmoronou-se: das famílias de acolhimento, incapazes de sustentar tantas bocas, e dos deslocados que deixaram tudo para trás.

Os campos, repletos de feijão e amendoim prontos para a colheita, para depois receberem a sementeira do arroz, foram abandonados. Todo o gado foi perdido. As casas foram incendiadas. Tudo, tudo se esfumou. Foi-o também para o senhor Martin, catequista titular de Ndubala, refugiado na paróquia de Santa Ana, com a mulher e filhos. «Já não temos nada», lamenta a esposa, banhada em lágrimas. 

Os guerrilheiros, de facto, ao chegarem às aldeias desertas, queimam as casas e os estabelecimentos comerciais. Se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no. Por isso, mesmo aqueles que fugiram para Isiro das aldeias mais próximas têm medo de lá ir buscar alguma coisa. O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda, para que a fome e as doenças não tornem ainda mais sombria a vida destas irmãs e irmãos, e a nossa com eles.

 

_______ _______

NOTA: 

RD Congo: Deslocados regressam às aldeias em Ndubala e arredores

Hoje, 31 de julho, após dois meses de atos de vandalismo e morte em Ndubala e arredores, perpetrados por grupos armados no norte da República Democrática do Congo, as populações refugiadas em Isidro começaram a regressar às suas aldeias.

Graças a Deus! Mas é preciso que a Paz venha para ficar.

Continua aqui: 
https://www.comboni.org/pt/contenuti/117803

Partilhar
---
EDIÇÃO
Julho e Agosto 2026 - nº 770
Faça a assinatura da Além-Mar. Pode optar por recebê-la em casa e/ou ler o ePaper on-line.