Igreja
17 agosto 2026

A beleza dos encontros

Tempo de leitura: 6 min
O irmão Simone Bauce, missionário comboniano, partilha a sua experiência de missão na América Latina, especialmente entre os povos indígenas Macuxi e Uapixana, que habitam na Amazónia brasileira.
Ir. Simone Bauce
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Que bonitos são os encontros! Que belas são as experiências que o levam a conhecer o outro, a descobrir a sua cultura, os seus pontos de vista, a sua singularidade! Sou missionário há mais de vinte e cinco anos, mas ir ao encontro do outro representa sempre uma surpresa maravilhosa. Durante os anos que passei na América Latina, entre a Colômbia, o Equador e o Brasil, cada dia vivido foi uma novidade e, muitas vezes, agradável. É certo que tentar compreender o outro, sobretudo quando este vive num contexto, numa realidade tão diferente daquela que conhecemos, nem sempre é fácil. Pelo contrário, pode representar um desafio. Aprendi que é precisamente esse desafio que lhe permite crescer como pessoa e como cristão; o confronto obriga-nos a sair um pouco de nós próprios, das nossas convicções, hábitos e, por vezes, dos nossos valores, para irmos, de forma adequada, ao encontro daquilo que o outro quer transmitir-nos, daquilo que o outro quer comunicar-nos, para compreendermos melhor quem ele é.

Nos últimos anos passados no Brasil, tive a graça de me aproximar de dois povos indígenas da Amazónia: os Macuxis e os Uapixanas. Foi um período para mim profundamente marcante, que pôs em causa alguns dos meus pilares de vida.

 

Mudar de mentalidade

O tempo não é apenas aquele que corre e avança inexoravelmente, o tempo cronológico. Aprendi quão fundamental é o momento, o instante (que se apresenta num determinado período) vivido profundamente, com intensidade. Um jantar simples, ao pôr-do-sol, partilhado com uma família indígena; o grito em uníssono lançado ao céu por centenas de indígenas que marchavam pelo respeito aos seus direitos; o silêncio «habitado» da noite na grande savana… São algumas das situações em que se percebe que o tempo nem sempre corre, por vezes pára, torna-se eterno, eterniza-se.

A vida, a própria existência humana, não é um valor em si mesma. São as vidas de todos os seres vivos que representam um valor absoluto. Por isso, a minha vida, que é certamente muito importante, não supera o valor das nossas vidas. Para nós, ocidentais, isto é desconcertante! No entanto, para estes povos indígenas, a morte de um companheiro ou de uma companheira que viveu pela causa do povo indígena tem um significado, pesa muito mais do que a vida de uma pessoa que viveu apenas para si própria. Passar do «eu» para o «nós», quanto nos custa!

A palavra, o que dizemos, deve ser significativa; caso contrário, é inútil. E, consequentemente, o que é valorizado ao extremo entre os povos indígenas é a escuta. As pessoas que sabem ouvir são aquelas que conseguem crescer mais a nível espiritual, porque quem está a falar fá-lo com palavras profundas, que tocam o coração, a alma. Que belo ensinamento: fale apenas quando tiver algo relevante, significativo, extremamente importante para comunicar; caso contrário, guarde silêncio e ouça; certamente aprenderá algo com as palavras eficazes dos outros.

A festa como celebração da vida, do encontro, da comunhão. O que significa para nós, ocidentais, fazer uma festa? Em geral, a festa está associada a uma data: aniversários, resultados académicos ou desportivos, etc. Outro ensinamento que recebi é ir além dos momentos socialmente estabelecidos para a festa. Celebra-se um encontro: quantas vezes cheguei a uma casa sem ter podido avisar e, imediatamente, criava-se um ambiente familiar, fraterno e de alegria, com algo para partilhar. Ou um encontro ocasional nas ruas da cidade (por vezes, os líderes indígenas deslocavam-se à cidade principal para tratar de documentos): um aperto de mão, um abraço, uma piada e já o clima se tornava de celebração do momento.

A fé, a espiritualidade e a mística que pude experimentar vão além da religião. Sim, na verdade, não se trata de observar cuidadosamente uma série de dogmas, ritos ou regras a aprender e seguir para viver como um «bom cristão». É uma relação com o Outro (Deus, espírito, ser superior) e com o outro (seres humanos, seres vivos e não vivos) harmoniosa, vivida em liberdade. É difícil explicá-lo com palavras. Talvez o que se percebe seja uma espiritualidade menos racional, menos definida, mas não por isso menos exigente. A relação ordenada e proporcionada com toda a Criação requer respeito e disciplina, tal como a defesa dos seus territórios.

Embora tenha sido por poucos anos, estar em contacto próximo com os povos Macuxi e Uapixana tocou-me profundamente, contribuindo muito para aquilo que sou como homem, cristão e missionário. Muitas vezes penso no texto evangélico de «receber cem vezes mais» (Marcos 10, 29-30); interpreto-o não só em relação às pessoas que encontrei, mas também como receber cem vezes mais do que consegui transmitir em valores, experiência de vida e de fé.

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EDIÇÃO
Julho e Agosto 2026 - nº 770
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