Igreja
09 fevereiro 2020

A cadeira de rodas como púlpito

Tempo de leitura: 6 min
A nossa vida é missão em todo o tempo e circunstâncias, mesmo quando a doença se manifesta.
Redacção
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«Encontro-me totalmente imobilizado, mas sinto uma plenitude de mente e de coração, sonho uma realização que antes não conhecia. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor dos púlpitos», afirma o padre Manuel João, missionário comboniano afectado há dez anos pela esclerose lateral amiotrófica (ELA). 

O P.e Manuel João Correia nasceu em Penajóia, Lamego. Ordenado sacerdote a 15 de Agosto de 1978, vive os primeiros anos de sacerdócio missionário na comunidade comboniana de Coimbra, dedicando-se à animação missionária e vocacional dos jovens.

Em 1985, é destinado ao Togo, na África Ocidental. Em 1993, o P.e Manuel João é chamado a Roma como coordenador do sector da formação no Instituto Comboniano.

Regressa ao Togo em 2002 e é eleito superior provincial dos Missionários Combonianos do Togo, Gana e Benim.

No fim de 2010, chega a notícia inesperada, como relata aos seus amigos: «Deixarei o Togo e voltarei à Europa, sem saber o que me espera. A doença que me foi diagnosticada (ELA) segue o seu curso. Também eu me pergunto: porque é que isto me aconteceu? Mas respondo sempre a mim mesmo: e porque é que não havia de te acontecer? Porque é que acontece aos outros e a ti não devia acontecer? Revisitando lugares e pessoas, a mente corre para o passado, recordando a primeira vez, a minha chegada à missão, jovem missionário pleno de sonhos e entusiasmo. Então, tudo era novo para mim, e lancei-me, de corpo e alma, nesta aventura. As dificuldades do início, a adaptação ao clima, o esforço por aprender a língua e os costumes, o empenho e o desafio de uma nova cultura... não diminuíram o meu entusiasmo. Hoje, muitas coisas mudaram; mudou a África e a sua gente, o rosto da Igreja e dos missionários... e também eu mudei, como é natural!»

Sempre em missão

A doença afasta o P.e Manuel João de África, mas, para ele, este retorno forçado à Europa é uma nova oportunidade e um recomeço: «Regresso sereno, convicto de que o Senhor continuará fiel à promessa que me fez: estarei sempre contigo, para dar sentido à tua vida! Regresso, por isso, convicto de que o melhor ainda está por chegar! Como o vinho do milagre de Jesus nas bodas de Caná! Termino a minha missão louvando o Senhor e acolhendo o seu convite para retomar o caminho.»

O novo serviço missionário do P.e Manuel João é determinado pela natureza da ELA, doença do foro neurológico que, gradualmente, priva a pessoa dos movimentos musculares. Em Roma integra-se na equipa que coordena a formação permanente do Instituto Comboniano. Resiste ao decurso da doença movendo-se primeiro com as muletas e depois em cadeira de rodas, superando os prognósticos dos médicos. No início, explica, «a doença é como um muro que corta completamente todas as perspectivas de vida, os sonhos que se tinham, as realizações que se queriam fazer». No entanto, pouco a pouco, o P.e Manuel João deu-se conta que, «em qualquer circunstância, a vida oferece novas oportunidades, que, no final, se revelam muito mais fecundas».

Em 2016 deixa Roma para ser transferido para a comunidade de Castel D’Azzano, em Verona, onde, como afirma «possa ser melhor assistido, porque a minha inseparável companheira, a ELA, não me deixa». Parte, afirma, «para responder a um outro chamamento de Deus, para deixar as minhas seguranças e partir, mais uma vez, em missão. Trata-se da penúltima missão, porque a última será aquela que nos será confiada no Paraíso. Disponho-me a vivê-la com o empenho e a generosidade dos trabalhadores da última hora da parábola evangélica.»

O P.e Manuel João, agora com 68 anos, já ultrapassou a esperança média de vida desde que a enfermidade lhe foi diagnosticada. Encontra-se limitado fisicamente, mas o seu coração mantém-se livre e missionário. «Por vezes penso naquilo que poderia ter feito se não tivesse esta doença que me conduziu à imobilidade total... Mas penso que esta é a condição, este é o lugar onde vivo a minha vocação missionária e onde a minha vida é mais fecunda. Com esta doença encontro-me num espaço reduzido, mas aqui posso viver com fecundidade apostólica. Deus pode fazer, e faz, grandes coisas mesmo neste pequeno espaço em que vivo. Experimento que pequenas coisas, a que antes dava pouco valor, como a palavra, o sorriso, a serenidade, a capacidade de escuta e de empatia... surpreendem-me como instrumentos de graça que Deus usa para tornar fecunda a minha vida. Esta cadeira de rodas tornou-se para mim o melhor dos púlpitos.» 

Texto elaborado com base na entrevista feita pelo P.e Manuel Augusto Lopes Ferreira, missionário comboniano

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EDIÇÃO
Fevereiro 2020 - nº 699
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