Igreja
25 abril 2020

Padre José Ambrosoli: Doar a vida com alegria

Tempo de leitura: 6 min
José Ambrosoli, missionário comboniano, entregou a sua vida ao serviço dos doentes, seguindo com alegria o exemplo de Jesus que ama e doa a vida por todos, especialmente os mais pobres e marginalizados.
Redacção
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José Ambrosoli nasceu a 25 de Julho de 1923 no Norte da Itália. Fez o curso de Medicina durante os anos conturbados da Segunda Guerra Mundial. Em 1951, sentido o chamamento à vocação missionária, entra no Instituto dos Missionários Combonianos.

Foi ordenado em Dezembro de 1955 e partiu para África um mês e meio depois. Foi enviado para Gulu, no Norte do Uganda, entre o povo Acholi. Em 1961, foi transferido para a missão de Kalongo. Ali fundou o hospital que serviu como médico-cirurgião por mais de trinta anos.

Médico da caridade

«Deus é amor, há um próximo que sofre e eu sou o seu servo», dizia Ambrosoli. Tinha a reputação de ser um cirurgião competente e as pessoas chamavam-lhe «grande médico». Com o seu trabalho desenvolve o centro de saúde de Kalongo e consegue que seja declarado hospital. A estrutura é grande e funcional: 350 camas e 30 pavilhões. Também dá novo vigor à escola de obstetras e enfermeiras, que se tinha iniciado em 1955 e continua a ser uma das mais importantes do Uganda.

Em 1984, os médicos tinham-lhe detectado uma insuficiência renal significativa e aconselharam-no a não voltar a África ou, no máximo, a dedicar-se apenas a tarefas administrativas e a abster-se de fazer um trabalho que ocasionasse um grande desgaste físico, nomeadamente de realizar operações.

No entanto, como missionário, tinha claro que fora para África para dar a vida pelos mais necessitados. «Durante alguns meses», afirma José Carlos Rodrigues, que viveu com Ambrosoli nessa época, «testemunhei como ele tentou reduzir a sua actividade diária. Mas quando a guerra começou, em Janeiro de 1986, no hospital da missão tivemos uma grande afluência diária de doentes. Ele podia passar vinte horas na sala de operações a realizar cirurgias sem interrupção. O ambiente social era muito tenso. Os soldados do Norte, enfurecidos pela derrota, procuravam pessoas do Sul para vingar-se. O hospital estava cheio de ugandeses do Sul que tinham procurado refúgio. Mais de uma vez, Ambrosoli teve de confrontar soldados armados no portão do hospital que queriam entrar à procura de “inimigos escondidos”. As suas boas artes diplomáticas e o prestígio que tinha junto da população impediram uma chacina.»

Em Janeiro de 1986, o novo regime de Yoweri Kaguta Museveni (que ainda permanece na presidência) instalou-se em Campala. Após alguns meses de relativa calma, os soldados acholis reorganizaram-se e lançaram um movimento guerrilheiro com ataques surpresa a estradas e destacamentos militares. Acusados de colaborar com as forças rebeldes, os missionários passaram vários meses em prisão domiciliária em Kalongo. Em Janeiro de 1987, o exército, incapaz de resistir à situação de assédio constante por parte dos guerrilheiros, forçou todo o pessoal de Kalongo a abandonar a missão.

Depois de percorrer 120 quilómetros numa comitiva vigiada pelos militares, os missionários chegaram à cidade de Lira. Desde então, a única preocupação de Ambrosoli era encontrar um novo lugar para a escola de parteiras, também para que as alunas não perdessem o ano lectivo. Depois de um mês de esforços e dificuldades intermináveis, a escola estabeleceu-se na missão de Angal, na região ugandesa do Nilo Ocidental. Quando regressou a Lira, no início de Março de 1987, para organizar a transferência das alunas e das religiosas responsáveis pela escola, adoeceu com insuficiência renal aguda.

Vida doada por amor

Naqueles dias, as irmãs combonianas realizaram as terapias que ele mesmo indicava, mas a situação não melhorava. Não existia no lugar outro médico e o plano era levá-lo até Gulu e depois transferi-lo para Itália. Suplicava: «Não! Não devíeis fazer isso, será demasiado tarde, porque tenho as horas contadas. Sabíeis que sempre desejei ficar com a minha gente, porque é que agora me mandais embora?» Contudo, depois agradeceu e disse: «Seja feita a vontade de Deus.» Colaborou em tudo para se preparar e partir. «O padre José – escreve o seu companheiro P.e Marchetti –, dá-se conta do declínio da vista e da insensibilidade nas pernas, inteiramente consciente de que chegou o momento supremo. Repete com vigor e depois segue como pode as orações. Depois fixa os olhos na parede, em direcção ao alto, como se visse alguém. As respirações distanciam-se e sem qualquer contorção ou estertor, apaga-se, enquanto o batimento do coração abranda gradualmente, até cessar.» Coube ao P.e Marchetti colher as suas últimas palavras no dia 27 de Março de 1987: «Senhor, faça-se a tua vontade – depois como um suspiro – mesmo que fosse uma centena de vezes.»

José Ambrosoli impressionou pela sua mansidão, paciência e bom humor. Incarnou as mãos de Jesus que curam e sempre Lhe atribuiu explicitamente os seus sucessos. O Papa Francisco aprovou o milagre que abre caminho à sua beatificação. A celebração realizar-se-á na cidade de Kalongo no próximo dia 22 de Novembro.  

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EDIÇÃO
Maio 2020 - nº 702
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