Igreja
08 maio 2021

Ano Jacobeu

Tempo de leitura: 14 min
O peregrino português reflete humildade, tornando-se exemplo para nós.
Sérgio Carvalho
Professor e jornalista
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Em Dezembro de 2020, abriu-se a Porta Santa da Catedral de Santiago de Compostela, inaugurando o Ano Jacobeu de 2021. Sempre que a festa do Apóstolo Santiago (25 de Julho) coincide com o domingo, a Igreja proclama-o como Ano Santo Jacobeu. O último foi em 2010.

Fomos entrevistar Dom José Fernández Lago, sacerdote desde 1967. Nomeado Cónego Leitoral em 1979 (5 de Janeiro), e Deão do Cabido da catedral de Santiago de Compostela desde Fevereiro deste ano.

 

Sérgio Carvalho (SC) – Agradecemos a Dom José a amabilidade de nos conceder esta entrevista que será publicada em Portugal. Conhece Portugal e a Igreja em Portugal?

Dom José Fernández Lago (JFL) – Conheço pouco mais que o Norte de Portugal (Porto, Braga, Nossa Senhora do Sameiro…). Passei um dia a visitar Lisboa, donde parti, à noite, para Jerusalém, quando fui estudar para lá. Também conheço Fátima, onde estive por três vezes, tentando viver a espiritualidade que ali se respira. Ainda conheço Santo António dos Portugueses, em Roma, e Mons. Agostinho, seu pároco. O contacto com o Pontifício Colégio Português e alguns dos seus residentes levou-me a estar muito perto dos portugueses que passavam pela Cidade Eterna. Aqui, em Santiago, ao contemplar os que vêm em peregrinação, fazem-me apreciar a sua fé profunda, muitos dos quais, certamente, pessoas humildes.

A Igreja em Portugal conheço-a através da relação que tive e tenho com algumas pessoas que estudaram comigo em Roma (D. António Bessa Taipa – bispo auxiliar do Porto; Mons. Arnaldo de Pinho – cónego da Sé do Porto; e o que era, nos anos 70, Reitor do Colégio Português de Roma, que ultimamente era bispo de Vila Real, D. Amândio; também o jesuíta Pedro Romano Rocha (R.I.P.); P. Armando Ribeiro, de Lamego, que traduziu para português um livrinho meu sobre o Apóstolo Santiago, bem como a sua novena.

SC – A Galiza e Portugal estão intimamente ligados, desde a História, passando pela língua, religião e devoção a Santiago. Como vê esta ligação umbilical, quase de irmãos gémeos?

JFL – Sinto-me tão ligado a vós que, quando contacto convosco, começo a falar em galego… pois a língua que nós e vós falais é muito semelhante. A sua maior diferença é na escrita. Sofri muito nestes últimos tempos, quando fecharam as fronteiras. Santiago une muito; e também os Santos Frutuoso, Silvestre, Cucufate e Victor, estes dois últimos o arcebispo Xelmírez trouxe os seus restos mortais para Compostela e que em parte foram devolvidos a D. Maurílio, ao Arcebispo de Braga.

Estou muito próximo dos irmãos de Portugal e, sempre que há um grupo português entre os de outras nações, faço sempre uma grande parte da homilia em galego, pela semelhança entre as duas línguas que tiveram a mesma origem. 

SC – Estamos a viver um Ano Jacobeu. Como se tem vivido este ano santo, em tempos de pandemia e com as fronteiras fechadas? Quando as fronteiras reabrirem como será?

JFL – Com as fronteiras fechadas vivemos de esperança. A nossa sociedade ocidental, tão autossuficiente, precisava de algo que lhe fizesse baixar a cabeça para depois a levantar e olhar de frente para o céu. Mesmo quando as fronteiras abrirem ainda teremos de aguardar algum tempo para que abram também os albergues. Que sejamos pessoas renovadas por tudo o que tivemos de passar com a covid-19; que procuremos viver a fé com alguma profundidade, mais que aquela que demonstravam noutros tempos. Por aqui já se diz: «o peregrino português reflete humildade, tornando-se exemplo para nós.»

SC – O que a Igreja compostelana tem preparado para que se viva intensamente este Ano Jacobeu e o acolhimento aos peregrinos portugueses, em particular?

JFL – Tenho necessidade de vos pedir desculpa. E isto vai levar-me a acolher todos os que cheguem de coração aberto. Na catedral, nos últimos anos, fazíamos umas vigílias com uma hora de duração, nas quais os peregrinos tinham a possibilidade de falar e dar testemunho da sua experiência. Por vezes, alguns portugueses diziam-nos que não se sabiam confessar, querendo isto dizer que não percebiam a língua. Eu dizia-lhes sempre, «se eu falar assim (galego) já me entende?».

Penso que a confissão na catedral, onde se conservam as relíquias do Apóstolo Santiago, renova sempre aqueles que chegam e ainda mais aqueles que se sentam para se confessarem.

SC –Que percentagem representam os peregrinos portugueses no total de peregrinos acolhidos pela catedral?

JFL – A percentagem de peregrinos portugueses acolhidos pela catedral em 2020 foi, no total, de 5,49% de todos os peregrinos que ali chegam, ou seja, cerca de 2971 pessoas. No que se refere ao ano de 2019 foram acolhidos 17 450 peregrinos, 5,96% do total de peregrinos. A grande diferença no número prendeu-se com a pandemia.

SC – O Caminho Português (ou Caminhos portugueses: Central, Costa, Geira) têm sido muito percorridos? Estão bem implantados e com infraestruturas?

JFL – No que se refere aos Caminhos portugueses, os dados recolhidos na Oficia de Acolhimento Cristão demonstram os dados do Caminho Central e mais ainda os do Caminho da Costa. Referentemente ao Caminho da Geira, por ser ainda recente e minoritário em números, incluímo-lo na categoria de «outros caminhos».

No ano de 2019 chegaram pelo Caminho Português Central (Braga), 72 351 peregrinos, representando 20,38% dos peregrinos. Pelo Caminho da Costa (Litoral Norte): 22 291 peregrinos, cerca de 6,41%.

Em 2020, pelo Caminho Central chegaram 10 253 peregrinos (18,94%) e pelo Caminho da Costa 2736 (5,05%).

Vê-se bem a descida provocada pela Covid-19 no decréscimo acentuado do número de peregrinos.

 

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SC – Os Caminhos estão bem implantados e com infraestruturas?

JFL – Relativamente a infraestruturas, em geral, o Caminho está muito limitado em serviços que se podem oferecer devido à pandemia. Há albergues privados e públicos fechados. Muito poucos estão abertos.

O Caminho Português Central tem todos os serviços ou infraestruturas, pelo menos no troço entre a cidade do Porto e Santiago, especialmente na parte espanhola.

O Caminho da Costa ainda tem algumas limitações, no sentido em que há menos albergues, pois tem menos gente a percorrê-lo. Existem problemas em se encontrar alojamento ou para tomar refeições em cada etapa.

O Caminho da Geira e dos Arrieiros, ainda que tenham feito um grande esforço para o assinalar e marcar atempadamente, assim como para o promover, não tem ainda estabelecimentos dirigidos em exclusivo aos peregrinos. De qualquer forma, as etapas que propõe estão pensadas de maneira a que cada jornada termine num lugar, aldeia ou vila, com pensões e outro tipo de alojamentos, mesmo que não sejam ainda especificamente para peregrinos, mas que podem ser muito úteis para eles.

SC – A Igreja anunciou que o Ano Santo será prolongado até 2022? Será tudo como em 2021 ou como estava preparado, antes da pandemia? Não se perderá a mística do Ano Santo?

JFL – Nós agora queremos insistir na espiritualidade, pois, na verdade, o Caminho é um Caminho de espiritualidade, mesmo para aqueles que saem de casa como turistas. Estamos conscientes de que a pessoa humana precisa de algo mais do que o mundo lhe tenta dar. Por isso, queremos oferecer diferentes possibilidades para que o peregrino se converta num membro útil e importante para a sociedade.

Acredito que uma vida cristã bem vivida não se deve separar das pessoas, mas que ajudar-nos-á, a nós cristãos, a que sejamos fermento na nossa sociedade.

SC – Preside ao Cabido da Catedral desde Fevereiro de 2021. Quais os seus grandes objectivos e os objectivos do Cabido da Igreja de Compostela?

JFL – O Cabido de Santiago conseguiu ajudas de tipo material para que o aspecto da Catedral resplandeça de beleza. Por seu lado, como dizia o senhor arcebispo quando se apresentou o templo remodelado: «agora compete-nos oferecer os melhores sentimentos da nossa interioridade, para ajudar as pessoas a viver com profundidade a sua fé». Eu, ainda que seja o Deão desde o mês de Fevereiro, sou Cónego Teólogo há 42 anos, completados em Janeiro. Desde aquele momento, eu sempre considerei que tinha de transmitir a mensagem, descomplicando os textos bíblicos, de forma a que cheguem aos destinatários com clareza e simplicidade. A transmissão dos conteúdos evangélicos é para mim primordial. Estou convencido que, além da preparação das homilias – algo fundamental na minha vida – nós oferecemos outros actos litúrgicos e muitos actos devocionais para auxiliar os peregrinos. Recordo-me que, há onze anos (no último Ano Santo), presidi a mais de 200 celebrações sacramentais da Penitência. Também temos as vigílias, que referi há pouco, que unem os peregrinos de diversas línguas e que os conforta e estimula, enchendo-os de esperança. Não faltariam, em circunstâncias normais, a oração do Rosário, a exposição do Santíssimo e mesmo a oração das Vésperas para quem quisesse participar.

SC – Que mensagem deixa aos peregrinos portugueses?

JFL – Não deixeis de vir quando puderdes. Lembrai-vos que a meta da peregrinação é a Catedral que guarda os restos mortais de Santigo, o filho de Zebedeu. Quando ficardes nos albergues do Caminho, partilhai as vossas experiências: não deixeis de vos abrir com os companheiros do Caminho, pois todos precisamos de aprender uns com os outros e viver com profundidade aquilo que eles também vivem. Pensai que, ao chegar aqui, encontrareis irmãos que falam uma língua semelhante e vivem a sua fé como um caminho até Deus, mesmo se esse Deus comunica connosco enquanto caminhamos. Estai sempre à escuta.

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José Fernández Lago, nasceu em Carril – Vilagarcía de Arousa (Pontevedra). É Cónego Leitoral e na actualidade o Deão da Catedral de Santiago de Compostela, assim como capelão do Mosteiro de Monjas Beneditinas de S. Pelayo de Antealtares de Santiago. Licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é também «Aluno Titular na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, de Jerusalém». Foi vice-reitor do Seminário Maior de Santiago de Compostela e Delegado Episcopal para a Formação do Clero. Durante cinco anos, antes da sua jubilação, foi professor titular de Novo Testamento e Diretor do Instituto Teológico Compostelano. Tradutor de uma parte importante da Bíblia em galego, foi também coordenador e revisor para sucessivas edições. É membro activo da Associação Bíblica Espanhola e da Associação Bíblica Católica dos Estados Unidos da América, assim como membro nato da Associação Jacobeia. Pertence, desde a fundação há 25 anos, à Associação Cultural Iubilantes, de Como (Itália).

Das suas numerosas publicações, podemos citar «La montaña en las homilías de Orígenes (tesis doctoral), El Espíritu Santo en el mundo de la Biblia, Jesús cuenta su vida, Ésta es mi Iglesia, Las Mujeres del Evangelio, Semana Santa, Pascua y su Octava: el camino de la vida; Jesús de Nazaret y su Iglesia, y Eucaristía».

Publicou, também, bastantes novenas em linguagem actual, entre as quais se encontram a do Apóstolo Santiago (traduzida do espanhol para cinco línguas, entre elas o português), e as da Virgen del Carmen, Virgen de los Dolores, Virgen de Fátima, Virgen del Perpetuo Socorro, San Pedro de Mezonzo, San Nicolás de Bari, Santa Rita, San Martín, San Roque y San Benito.

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EDIÇÃO
Setembro 2021 - nº 716
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